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    <title>raladoo's Journals on Buzznet</title>
    <description><![CDATA[Namorado da Nat!]]></description>
    <link>http://raladoo.buzznet.com/user/journal/</link>
    <language>en-us</language>
		    <item>
	      <title><![CDATA[Guerra na Igreja]]></title>
	      <link>http://raladoo.buzznet.com/user/journal/206941/</link>
	      <description><![CDATA[<P><B>Existem duas posições claramente opostas que, na prática, podem se entrelaçar </B>
<P><B>LEONARDO BOFF</B><BR><FONT size=-1>ESPECIAL PARA A FOLHA </B></FONT><BR><BR>AS GUERRAS não existem apenas no mundo. Dentro da igreja há também uma guerra de baixa intensidade. Ela faz muitas vítimas, com os instrumentos adequados da guerra religiosa, escondidos sob palavras, não raro, piedosas e espirituais. Só para dar um exemplo pessoal: quando fui condenado pelo então cardeal Joseph Ratzinger em 1985 por causa do meu livro "Igreja: carisma e poder", foi-me imposto o que ele denominou de "silêncio obsequioso". <BR>Esse eufemismo implicava muita violência: deposição de cátedra, remoção de editor religioso da Vozes, da redação da "Revista Eclesiástica Brasileira", proibição severa de falar, dar entrevistas, escrever e publicar sobre qualquer assunto. <BR>Objetivamente "obsequioso" não possui nada de obsequioso. <BR>O mesmo ocorreu com o teólogo da libertação Jon Sobrino, de El Salvador, condenado em fevereiro deste ano. Recebeu apenas uma "notificação". Esta inocente palavra, "notificatio", esconde violência porque ele não pode mais falar, nem dar aulas, conceder entrevistas e acompanhar qualquer trabalho pastoral. O vitimado por uma condenação é "moralmente" morto, pois vem colocado sob suspeita geral, tolhido, isolado e psicologicamente submetido a graves transtornos, o que levou a alguns a terem neuroses e a um deles, famoso, perseguido por idéias de suicídio. <BR>Nós fomos, no mínimo, caçados e anulados, pois um teólogo possui apenas como instrumento de trabalho a palavra escrita e falada. E estas lhe foram seqüestradas, coisa que conhecemos das ditaduras militares. <BR>O que foi escrito acima parece irrelevante, pois é algo pessoal, mas não deixa de ser ilustrativo da guerra religiosa vigente dentro da Igreja. Nela o então cardeal Ratzinger era general. Hoje como papa é o comandante em chefe. Qual é este embate? É importante referi-lo para entender palavras e advertências do papa e a partir de que modelo de teologia e de Igreja constrói o seu discurso. <BR>Dito de uma forma simplificadora, mas real: há na igreja duas opções claramente opostas, o que não impede que, na prática, possam se entrelaçar. Face ao mundo, à cultura e à sociedade há a atitude de confronto ou de diálogo. <BR>A partir da Reforma no século 16 predominou na Igreja Católica romana a atitude de confronto: primeiro com as Igrejas protestantes (evangélicas) e depois com a modernidade. <BR>Face à Reforma houve excomunhões, e face à modernidade, anátemas e condenações de coisas que nos parecem até risíveis: contra a ciência, a democracia, os direitos humanos, a industrialização. A Igreja se havia transformado numa fortaleza contra as vagas de reformismo, secularismo, modernismo e relativismo. Missão da igreja, segundo esse modelo do confronto, é testemunhar as verdades eternas, anunciar a Cristo como o único Redentor da humanidade e a Igreja sua única e exclusiva mediadora, fora da qual não há salvação. <BR>Em seu documento de 2000, Dominus Jesus, o cardeal Ratzinger reafirma tal visão com a máxima clareza e laivos de fundamentalismo. Tudo é centralizado no Cristo. Esta atitude belicosa predominou até os anos 60 do século passado quando foi eleito um papa ancião, quase desconhecido, mas cheio de coração e bom senso, João 23. Seu propósito era passar do anátema ao diálogo. Quis escancarar as portas e janelas da Igreja para arejá-la. Considerava blasfêmia contra o Espírito Santo imaginar que os modernos só pensam erros e praticam o mal. <BR>Há bondade no mundo, como há maldade na Igreja. Importa é dialogar, intercambiar e aprender um do outro. A Igreja que evangeliza deve ela mesma ser evangelizada por tudo aquilo que de bom, honesto, verdadeiro e sagrado puder ser identificado na história humana. <BR>Deus mesmo chega sempre antes do missionário, pois o Espírito Criador sopra onde quiser e está sempre presente nas buscas humanas suscitando bondade, justiça, compaixão e amor em todos. A figura do Espírito ganha centralidade. <BR>Fruto da opção pelo diálogo foi o Concílio Vaticano 2º (1962-1965), que representou um acerto de contas com a Reforma pelo ecumenismo e com a modernidade pelo mútuo reconhecimento e pela colaboração em vista de algo maior que a própria Igreja, uma humanidade mais dignificada e uma Terra mais cuidada. <BR>Este "aggiornamento" trouxe grande vitalidade em toda a Igreja, especialmente na América Latina, que criou espaço para aquilo que se chamou de Igreja da base ou da libertação e da Teologia da Libertação. Mas acirrou também as frentes. <BR>Grupos conservadores, especialmente incrustados na burocracia do Vaticano, conseguiram se articular e organizaram um movimento de restauração, de volta à grande tradição. <BR>Este grupo foi enormemente reforçado sob João Paulo 2º, que vinha da resistência polonesa ao marxismo. Chamou como braço direito e principal conselheiro, seu amigo, o teólogo Joseph Ratzinger, elevando-o diretamente ao cardinalato e fazendo-o presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, a ex-Inquisição. <BR>Aí se processou de forma sistemática, vinda de cima, uma verdadeira Contra-Reforma Católica. O próprio cardeal Ratzinger no seu conhecido "Rapporto sulla fede", de 1985, um verdadeiro balanço da fé, dizia claramente: "A restauração que propiciamos busca um novo equilíbrio depois dos exageros e de uma abertura indiscriminada ao mundo". <BR>Ele elaborou teologicamente a opção pelo confronto a partir de sua formação de base, o agostinismo, sobre o qual fez duas teses minuciosamente trabalhadas. Notoriamente Santo Agostinho opera um dualismo na visão do mundo e da Igreja. Por um lado está a cidade de Deus e por outro a cidade dos homens, por uma parte a natureza decaída e por outra, a graça sobrenatural. <BR>O Adão decaído não pode redimir-se por si mesmo, seja pelo trabalho religioso e ético (heresia do pelagianismo) seja por seu empenho social e cultural. <BR>Precisa do Redentor. Ele se continua e se faz presente pela Igreja, sem a qual nada ganha altura sobrenatural e se salva. <BR>Em razão desta chave de leitura, o papa Bento 16 se confronta com a modernidade, vendo nela a arrogância do homem buscando sua emancipação por próprias forças. Por mais valores que ela possa apresentar, não são suficientes, pois não alcançam o nível sobrenatural, único caráter realmente emancipador. Nela vê mais que tudo secularismo, materialismo e relativismo. Essa é também sua dificuldade com a Teologia da Libertação. A libertação social, econômica e política que pretendemos, segundo ele, não é verdadeira libertação, porque não passa pela mediação do sobrenatural. <BR>Para concluir, se o atual papa tivesse assumido uma teologia do Espírito, coisa ausente em sua produção teológica, teria uma leitura menos pessimista da modernidade. <BR>No atual momento se dá o forte embate entre essas duas opções. A Igreja latino-americana pende mais pela opção do diálogo. Esta é mais adequada à cultura brasileira que não é fundamentalista nem dogmática, mas profundamente relacional e dialogal com todas as correntes espirituais. <BR>Somos naturalmente sincréticos na convicção de que em todos os caminhos espirituais há bondade para além dos desvios e que, definitivamente, tudo acaba em Deus. <BR>Não parece ser esta a opção de Bento 16: seus discursos enfatizam a construção da Igreja em sua forte identidade para que seu testemunho seja vigoroso e possa levar valores perenes a um mundo carente deles, como se viu claramente em seu discurso aos bispos brasileiros na catedral de São Paulo. <BR>Essa Igreja é necessariamente de poucos, coisa reafirmada pelo teólogo Ratzinger em muitas de suas obras. Mas esses poucos devem ser santos, zelosos e comprometido com a missão de orientar e conduzir os muitos, sem se deixar contaminar por eles e pelo mundo. <BR>Ocorre que esses poucos nem sempre são bons. Haja vista os padres pedófilos. Por isso, a Igreja precisa renunciar a certa arrogância, ser mais humilde e confiar que o Espírito e o Cristo cósmico dirijam seus passos e os da humanidade por caminhos com sentido e vida. </P>]]></description>
		  		  <category>Buzznet</category>
	      <dc:creator>raladoo</dc:creator>
	      <dc:date>2007-05-13T09:10:00Z</dc:date>
	    </item>
		    <item>
	      <title><![CDATA[O migrante e os usineiros]]></title>
	      <link>http://raladoo.buzznet.com/user/journal/155012/</link>
	      <description><![CDATA[<font size="5"><b>O migrante e os usineiros</b></font><p>

<b>RICARDO ANTUNES</b><br>
<br>

<b>O lulismo é expressão de um governo que fala para os pobres,
vivencia as benesses do poder e garante a boa vida aos grandes capitais</b><br>
<br>

EM ARTIGO anterior ("Tendências/Debates" de 3/1), indicamos o pragmatismo, a conciliação e o messianismo como elementos 
fortes da fenomenologia do lulismo. 
<br>
Quais seriam os traços ontológicos 
constitutivos desse fenômeno? 
<br>
Lula é a expressão pública mais 
bem-sucedida do "self made man" político do Brasil recente: migrante do 
Nordeste brasileiro, labutou no ABC 
como torneiro mecânico e se tornou a 
principal liderança do Sindicato dos 
Metalúrgicos de São Bernardo do 
Campo. 
<br>
Sua viva espontaneidade e real representação dos metalúrgicos, sua 
ação sindical corajosa e recusa à política tradicional foram responsáveis 
diretos por esse significativo salto. 
<br>
Desde a segunda metade dos anos 
1970, liderou as históricas greves do 
ABC, participou da fundação do PT e 
da CUT (Central Única dos Trabalhadores), foi cassado da presidência do 
sindicato pela ditadura militar. 
<br>
Durante a década de 1980, esteve 
presente em praticamente todas as 
lutas sociais e políticas importantes: 
nas incontáveis greves, nos embates 
eleitorais, na constituinte, até as memoráveis eleições de 1989, em que sofreu um embuste eleitoral profundo. 
<br>
De metalúrgico, tornou-se representante, o mais vigoroso, das forças 
sociais do trabalho. Do ABC para São 
Paulo e daí para o conjunto do país. 
<br>
Sua extração social era límpida: migrante de origem e metalúrgico de
alma, teve nessa fase muito mais acertos do que erros -quando se
procura fazer uma retrospectiva histórica sóbria, nem "ex post" nem
apologética. <br>
Lula era uma expressão típica dos 
"peões" do ABC, como os metalúrgicos se autodenominavam. 
<br>
Mas a década seguinte, a dos anos 1990, trouxe mutações profundas,
inicialmente com Fernando Collor de Mello e depois com Fernando
Henrique Cardoso. O país estancou, os assalariados se informalizaram e
o desemprego estrutural explodiu. O país se desertificou. <br>
O PT e a CUT sofreram na carne esse processo. E Lula, o ex-metalúrgico,
pouco a pouco se distanciava de sua categoria (e classe) de origem,
assumindo um "modus vivendi" mais próximo das classes médias, como
transparece no depoimento que deu a João Moreira Salles em "Entreatos".
<br>
Seu crescente papel de "tertius" 
dentro do PT, com um séqüito de lulistas sempre dando suporte, ampliava sua tendência que oscilava entre a 
liderança e o mandonismo, ainda que 
nublada pela (aparência de) simplicidade em suas ações. 
<br>
Como seus seguidores fiéis jamais 
faziam nenhum reparo, Lula, acentuando seu traço bonapartista, consolidava a imagem de um farol sempre 
iluminado que mostrou sua plenitude 
no poder, depois das eleições de 2002. 
<br>
Distanciado de sua origem operária, submerso no novo ethos de classe 
média, galgando degraus ainda mais 
altos na escala social, tudo isso foi 
convertendo Lula em uma variante 
de homem duplicado que passou a admirar cada vez mais os exemplos daqueles que vêm "de baixo" e vencem 
dentro da ordem. Daí sua admiração 
por personagens como Zezé di Camargo e Luciano, para ficar nesses 
exemplos. 
<br>
Sua nova forma de ser gerou uma 
consciência invertida de seu passado 
e um deslumbramento em relação ao 
presente. 
<br>
Preservada a empatia "direta" com 
as massas, tendo se moldado celeremente pelo convívio com freqüentadores dos palácios, o lulismo, com 
seus dotes arbitrais -num momento 
em que as frações dominantes não 
puderam garantir em 2002 a sucessão 
presidencial-, se tornou expressão 
de um governo que fala para os pobres, vivencia as benesses do poder e 
garante mesmo a boa vida aos grandes capitais. 
<br>
Uma espécie de semibonapartismo, 
recatado frente à hegemonia financeira e hábil no manuseio de sua base 
social, que vem migrando dos trabalhadores organizados para os estratos 
mais penalizados que recebem o Bolsa Família. E para o qual o PT se tornou dispensável. 
<br>
O que nos recorda o personagem 
Felix Krul, de Thomas Mann, que, 
após experimentar uma vida dúplice, 
confessou: "Percebi que a troca de 
existências não produziu apenas uma 
deliciosa renovação mas também certa obliteração no meu interior -no 
sentido de que todas as recordações 
de minha vida anterior haviam sido 
exiladas de minha alma". 
<br>
O que ajuda a entender, então, por 
que Lula agora é só elogios para os 
usineiros. 
<br>

</p><hr noshade="noshade" size="1"><font size="-1">
<b>RICARDO LUIZ COLTRO ANTUNES</b>, 54, é professor titular de
sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp
(Universidade de Campinas) e autor, entre outros livros, de "Riqueza e
Miséria do Trabalho no Brasil" (Boitempo, 2006).</font>]]></description>
		  		  <category>Buzznet</category>
	      <dc:creator>raladoo</dc:creator>
	      <dc:date>2007-04-12T20:21:46Z</dc:date>
	    </item>
		    <item>
	      <title><![CDATA[Globalização não reduz desigualdade e pobreza no mundo, diz ONU]]></title>
	      <link>http://raladoo.buzznet.com/user/journal/114825/</link>
	      <description><![CDATA[Globalização não reduz desigualdade e pobreza no mundo, diz ONU<!--/TITULO--> <!--noindex--><!--PRINT:EXCLUDE--><!--PUBLICIDADE-->
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ShockMode = (IsObject(CreateObject("ShockwaveFlash.ShockwaveFlash.6")))

</DIV><!--/PUBLICIDADE--><!--/PRINT:EXCLUDE--><!--/noindex--><!--/--><!--TEXTO--><BR><BR>A globalização e liberalização, como motores do crescimento econômico e o desenvolvimento dos países, não reduziram as desigualdades e a pobreza nas últimas décadas, segundo livro divulgado neste sábado pela ONU (Organização das Nações Unidas).<BR><BR>A publicação, que leva o título "Flat World, Big Gaps" (Um Mundo Plano, Grandes Disparidades, em tradução livre), foi editado por Jomo Sundaram, secretário-geral adjunto da ONU para o Desenvolvimento Econômico, e Jacques Baudot, economista especializado em temas de globalização.<BR><BR>Seu lançamento coincide com a realização da 45ª sessão da Comissão sobre Desenvolvimento Social da ONU, que revisa os objetivos da cúpula mundial de Copenhague de 1995.<BR><BR>"A redução da desigualdade não está separada de questões como a pobreza e a falta de emprego", disse Baudot. "A idéia do livro é recuperar e situar como uma prioridade na agenda internacional o vínculo existente entre estes indicadores."<BR><BR>Para Baudot, centrar as atividades para reduzir a pobreza no crescimento econômico conduz a estratégias nacionais e regionais que não respeitam o meio ambiente, outro fator para continuar com a desigualdade e a pobreza.<BR><BR>No trabalho se constata que a distribuição das receitas individuais melhorou levemente, graças ao crescimento econômico na China e Índia, mas mesmo assim a repartição da riqueza mundial piorou e os índices de pobreza se mantiveram sem mudanças entre 1980 e 2000.<BR><BR>A desigualdade na renda per capita aumentou em vários países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) durante essas duas décadas, o que sugere que a desregulação dos mercados teve como resultado uma maior concentração do poder econômico.<BR><BR>O livro indica que a desigualdade econômica nos países do Oriente Médio e o Norte da África não mudou, ao contrário da crença generalizada, mas aumentou na maioria dos outros países em desenvolvimento.<BR><BR>Deste modo, constata que a globalização e a liberalização comercial não ajudou a reduzir a pobreza e a desigualdade na maioria de países da África.<BR><BR>No livro se conclui que só uma pequena porção do crescimento da economia mundial contribuiu na redução da pobreza.<BR><BR>"Houve uma tremenda liberalização financeira e se pensava que o fluxo de capital iria dos países ricos aos pobres, mas ocorreu o contrário", anotou Sundaram.<BR><BR>Como exemplo, citou que os EUA recebem investimentos dos países em desenvolvimento, concretamente nos bônus e obrigações do Tesouro, e em outros setores.]]></description>
		  		  <category>Buzznet</category>
	      <dc:creator>raladoo</dc:creator>
	      <dc:date>2007-02-10T14:02:44Z</dc:date>
	    </item>
		    <item>
	      <title><![CDATA[Kadogos, as crianças-soldados do Congo]]></title>
	      <link>http://raladoo.buzznet.com/user/journal/110808/</link>
	      <description><![CDATA[<span id="v10nb">03/02/2007</span><br>
<span id="a18bb"><span id="marromtit">"Kadogos", as crianças-soldados do Congo</span></span><br>

subtitulo = 'Crianças foram raptadas por guerrilheiros quando tinham 11-12 anos; eles aprenderam a manejar armas, elas foram "feitas mulher"';
if (subtitulo.length > 2) { document.write ('<span id=a13bb>'+subtitulo+'</span><br>') };
</script><span id="a13bb">Crianças foram raptadas por guerrilheiros quando tinham 11-12 anos; eles aprenderam a manejar armas, elas foram "feitas mulher"</span><br>
<br style="line-height: 20px;">
<span id="v10bb">Jean-Pierre Tuquoi<br>
Enviado especial a Goma (República Democrática do Congo)</span><br>
<br>
Junto com a guerra na República Democrática do Congo (RDC), uma palavra
nova passou a pertencer ao vocabulário: "kadogo". Em suaíli (grupo de
línguas faladas na África do Leste), "kadogo" significa
"criança-soldado". Todos os grupos armados que ainda estão em atividade
neste país que antigamente tinha por nome Zaire contam "kadogos" nas
suas fileiras. Tanto o exército chamado de regular quanto as diferentes
milícias.<br><br>Com
o fim progressivo dos confrontos, o número de "kadogos" vem diminuindo.
De 30.000 quando a guerra estava no seu auge, ele teria diminuído até
ficar limitado a alguns milhares. Os mais felizardos retornaram para a
sua família e hoje aprendem uma profissão em centros de formação
financiados por ONGs ou pela Unicef (Fundo das Nações Unidas para a
Infância): eles se tornam marceneiro ou agricultor para os rapazes,
costureira para as meninas... Nesses centros, as condições de vida são
espartanas e os meios materiais limitados.<br><br>Muhima, um sólido
rapagão de 17 anos, é um dos pensionários de um centro de aprendizagem
em Goma, a capital do Kivu do Norte, no leste da RDC. O seu outro nome
é Salomon. Ele tinha 11 ou 12 anos - ele não sabe mais ao certo -
quando um dos seus primos, cinco anos mais velho do que ele, o
convenceu a segui-lo e a juntar-se a um grupo armado que combatia os
movimentos pró-ruandeses que operavam na região.<br><br>"Eu não ia mais
para a escola. Conseguia apanhar alguns peixes no rio, mas, em casa, as
coisas não andavam bem. Nós não tínhamos dinheiro. O meu primo tinha
escutado falar de um grupo que parava US$ 30 [R$ 63,26] por mês. Nós
dois fugimos sem nada dizer aos pais", conta Muhima.<br><br>Os jovens
recrutas são bem recebidos pelos militares. Os rapazes da sua idade não
são raros no grupo. "Os militares me deram imediatamente um traje e uma
arma. No treinamento, eu aprendi rapidamente a desmontar e remontar o
fuzil", diz. Muhima é incapaz de explicar de qual tipo de arma se
tratava, mas ele a descreve com precisão. Era um fuzil-metralhador.<br><br>Começam
então cinco anos de uma guerra muito estranha, feita de marchas
intermináveis na selva, de acampamentos sumários, de refeições que não
chegam realmente a alimentar, de combates episódicos, de fugas, de
contra-ataques... O jovem rapaz alistou-se num grupo de várias centenas
de guerreiros "Mai Mai", que goza de uma reputação de invencibilidade.<br><br>"Antes
dos combates, eles faziam escarificações nos nossos braços e colocavam
pós tradicionais sobre as feridas. Com isso, ninguém poderia nos matar.
Eu vi foguetes explodirem bem ao meu lado, e balas me tocarem sem me
machucar", afirma. Com a mesma candura, Muhima garante que os seus
chefes, protegidos por talismãs, tinham o poder de se tornarem
invisíveis e de "passar do outro lado das linhas inimigas". "Nós
matamos muitos inimigos durante os combates", assegura. "Quanto a nós,
só tivemos alguns feridos".<br><br>"Os Mai Mai não faziam
prisioneiros", acrescenta o adolescente. "Eles eram executados". Até
mesmo as mulheres? "Sim", responde ele antes de se corrigir. "As
mulheres eram integradas no nosso grupo. Nós não as matávamos". Um
pouco mais tarde, o ex menino-soldado explicará que o seu chefe - de
quem ele se tornara guarda-costas após ter sido nomeado suboficial -
havia proibido aos seus homens de matar os gorilas que vivem na região.<br><br>Para
esquecer a violência e divertir-se, conta ainda Muhima, "havia cânhamo,
os cigarros, o 'lutuku' [um álcool à base de banana e de milho]". E as
mulheres, para os mais velhos. "Nós, os jovens, não tínhamos mulheres.
É por isso que nós éramos verdadeiros guerreiros", diz. Da sua nova
vida de aprendiz de marceneiro, ele fala movido por sentimentos
moderados. Ela é tranqüila se comparada com aquela que ele levou
durante anos na selva. Mas ele teria preferido ser desmobilizado e
receber um pecúlio assim como o seu primo, que hoje é adulto.<br><br>Moises
estava no campo adversário. Ele tinha cerca de 10 anos - ele não sabe
exatamente - quando ele foi requisitado à força como carregador por
rebeldes tutsis que haviam invadido a sua aldeia. Esses fatos ocorreram
em 1998. Era o início de uma história absurda que terminou em 2006 com
o fim progressivo das hostilidades no leste do Congo. Nesse meio-tempo,
o jovem rapaz aprendeu a manejar as armas e a servir-se delas assim
como um adulto.<br><br>Da barbárie da guerra, ele fala sem nenhuma
emoção aparente. É verdade, quando o inimigo atacava o seu campo, "as
garotas eram quase sempre mortas: elas não corriam depressa o bastante
para conseguir fugir". Como se comportava o seu próprio grupo na
situação inversa? "Quando nós liberávamos uma aldeia, aliciávamos as
garotas para integrá-las no nosso grupo. A gente podia brincar com
elas. Algumas se tornavam a mulher de um soldado", diz.<br><br>O
adolescente participou de combates. A prova disso é a dupla cicatriz
que ele tem na sua perna direita. Uma delas foi feita por uma bala que
o atingiu de raspão; já, a outra é recordação de uma punhalada. "Eu
estava lutando pelo meu país", diz ele, sem fornecer maiores precisões.
"Nós tínhamos aulas de educação política. O inimigo eram os Mai Mai e
os caras do FDLR [os soldados e os membros de milícias que se bandearam
para a RDC em 1994, após terem sido expulsos da Ruanda]".<br><br>Certa
vez, acrescenta Moises, ele foi feito prisioneiro por um grupo de Mai
Mai: "Eles me amarraram e me ataram no teto de uma casa, acima do
saguão, durante uma semana". Ele explica que conseguiu escapar em
circunstâncias misteriosas.<br><br>Fazendo eco aos relatos dos rapazes
que foram recrutados e empurrados para a guerra, em muitos casos contra
a sua vontade, os jovens moças que lutaram ao seu lado ou contra eles
também contam as suas histórias. Dos seus anos de guerra, essas
adolescentes não hesitam a pintar um retrato sombrio. Elas não se
queixam. Elas não acusam ninguém.<br><br>Faida recorda-se de que homens
de uniforme de brim - um grupo de Mai Mai - a raptaram um dia que ela
estava caminhando para buscar água na floresta. Ela tinha então 16
anos. Ela ficou com eles durante dois anos. Faida foi "feita mulher",
conforme ela diz, por um soldado de 20 anos de quem ela ignora por que
ele a escolheu em vez de uma outra. Ele é o pai, que ela não quer mais
rever, da criança que ela está carregando nas costas. Já faz três
meses, ela está aprendendo a costurar.<br><br>A história de Anouarité,
que também tem 18 anos, não é muito diferente. Ela também foi raptada,
em 2004, não longe de Goma, por militares - aqueles liderados pelo
general Laurent Nkunda, um chefe rebelde que hoje é alvo de um mandato
de prisão internacional - e forçada a segui-los enquanto ela estava
indo trabalhar na lavoura, certa manhã.<br><br>Alertados, os seus pais
até que tentaram recuperá-la, indo até o campo dos rebeldes, mas, aos
serem ameaçados pelos homens de farda, eles foram obrigados a voltar
para trás. Ela viveu por cerca de dois anos com os militares do general
rebelde, os quais ela foi forçada a acompanhar como se ela fosse a sua
sombra nas suas peregrinações. Ela cozinhava, ajudada pelas "grandes
mulheres", mais velhas do que ela.<br><br>Um belo dia, um miliciano
tomou-a como mulher. "No início, ele era gentil", conta, "mas, depois
ele começou a me bater. As outras mulheres vinham para me consolar". No
dia em que ela deu à luz um filho na floresta, ele lhe deu duas tangas.
Então, ele sumiu. Ela se aproveitou da situação para fugir do campo.
Ela voltou para a sua família, que a recebeu muito bem. Hoje, Anouarité
está aprendendo a profissão de costureira, e cria o seu filho. Ela lhe
deu o nome de Esperança.
<br><br>
<span id="v10nb"><b>Tradução:</b> Jean-Yves de Neufville</span>]]></description>
		  		  <category>Buzznet</category>
	      <dc:creator>raladoo</dc:creator>
	      <dc:date>2007-02-03T17:25:04Z</dc:date>
	    </item>
		    <item>
	      <title><![CDATA[Feministas de Burca]]></title>
	      <link>http://raladoo.buzznet.com/user/journal/110807/</link>
	      <description><![CDATA[<span id="a18bb"><span id="marromtit">Feministas de burca</span></span><br>

subtitulo = '';
if (subtitulo.length > 2) { document.write ('<span id=a13bb>'+subtitulo+'</span><br>') };
</script>
<br style="line-height: 20px;">
<span id="v10bb">Charlotte Eagar</span><br>
<br>
Quando os EUA, Reino Unido e seus parceiros na coalizão invadiram o
Afeganistão, há mais de cinco anos, uma de suas principais preocupações
- depois do terrorismo e do plantio de ópio - era o tratamento das
mulheres pelo Taleban. A degradação das mulheres no Afeganistão
conquistou grande parte da aprovação liberal para a guerra.<br><br><table table="" valign="left" align="center" border="0" cellpadding="0" cellspacing="0" height="300" width="440"><tbody><tr><td valign="top"><img src="http://n.i.uol.com.br/midiaglobal/070202burca.jpg" alt="afp" border="0"></td><td rowspan="2" width="10">&nbsp;</td></tr><tr><td valign="top"><font face="arial" size="1">Sob o Taleban, as mulheres era forçadas a usar burcas sob a pena de serem chicoteadas</font></td></tr></tbody></table><br>Sob
o Taleban, as mulheres eram proibidas de trabalhar ou ir à escola. Elas
eram forçadas a usar longas burcas e esvoaçavam como lamparinas azuis
pelas ruas. Se pegas descobertas eram chicoteadas. A punição pelo
adultério era a execução em um campo de esportes cercado por multidões,
para quem as matanças semanais tomavam o lugar da televisão, cinema,
música e outros entretenimentos proibidos.<br><br>Depois da queda de
Cabul, vieram vários "especialistas em discriminação sexual", dedicados
a dar poder às mulheres no Afeganistão. Mesmo assim, um relatório no
ano passado de uma ONG que trabalha no Afeganistão desde 2003,
Womankind Worldwide, afirma que o status das mulheres no Afeganistão
não melhorou significativamente nos últimos cinco anos.<br><br>Nem
todas as notícias são más. Graças à discriminação positiva na
constituição, inspirada pelo Ocidente, que requer que ao menos 25% dos
membros do parlamento sejam mulheres, há hoje 68 mulheres
parlamentares. O parlamento Afegão tem uma proporção maior de mulheres
(27%) do que o Reino Unido (19%) ou os EUA (22%). A escola é
obrigatória para meninas entre 7 e 12 anos. A idade de consentimento
para o casamento mudou de 7 para 16 anos para meninas. A igualdade das
mulheres agora está garantida pela constituição, que afirma: "Cidadãos
do Afeganistão -homens ou mulheres- têm direitos e deveres iguais
perante a lei."<br><br>De acordo com os próprios afegãos, entretanto, e
para muitos assistentes sociais que conhecem bem o país, esses avanços
freqüentemente não passam de sonhos ministeriais. Muitas meninas em
idade escolar não estão na escola; 85% da população feminina é
analfabeta (mas também 71% da população é analfabeta) e 1.600 mulheres
em cada 100.000 (1,6%) morrem de parto, comparadas com 12 nos EUA
(0,012%).<br><br>Assassinatos de honra são comuns, casamento de
crianças ainda mais. No verão passado, conheci um produtor de papoula
em Helmand que me disse que tinha acabado de vender uma de suas filhas,
de 9 anos, para casar-se com um traficante de ópio. Ele não revelou
quanto ia receber, e disse que não podia alimentar as meninas. A tarifa
atual para uma menina saudável é em torno de US$ 3.000 (em torno de R$
6.600), ou mais, se vier de uma família rica.<br><br>De acordo com
agentes de desenvolvimento no Afeganistão, o novo Ministério de
Assuntos da Mulher recebe pouco apoio em suas tentativas de mudar as
coisas. Tanto a ex-ministra Massouda Jalal quanto assistentes sociais
ocidentais dizem que ninguém no governo leva o ministério a sério.
"Tivemos ameaças de bomba. Mas não temos carros blindados ou segurança
adequada", disse Jalal no verão passado. "O governo paga nossos guardas
US$ 20 (aproximadamente R$ 44) por mês. Quem vai arriscar a vida por
US$ 20?"<br><br>Por outro lado, ocidentais que trabalharam dentro dos
ministérios afegãos dizem que os novos ministros são mais dedicados a
tirar o máximo de proveito para si mesmos e seus acompanhantes do que
cumprir seu serviço. O Ministério de Assuntos da Mulher aparentemente
não é exceção: suas ocupantes definem "oportunidade igual" para seus
próprios propósitos. "Elas acham: 'Finalmente as mulheres têm uma
chance de também aproveitar um pouco'", diz um diplomata em Cabul.
"Elas passam a maior parte do tempo em viagens ao exterior. Não
conseguem resolver nada enquanto estão viajando para os EUA e para a
Austrália o tempo todo."<br><br>Enquanto isso, a segurança continua uma
grande preocupação entre as mulheres trabalhadoras. Jamila Niazi é
diretora da principal escola em Lashkagar, capital da província de
Helmand, que atende 6.000 meninas e 2.000 meninos.<br><br>"Às 9h da
manhã de hoje eu tive outra ameaça contra minha vida", ela me contou no
final do ano passado. "Um homem veio à escola e disse que queria
conversar comigo. Meu guarda-costas encontrou uma arma escondida em
suas roupas, e o homem fugiu." Jamila, que ganha US$ 50 por mês, teve
várias ameaças à sua vida somente neste ano, tudo porque está educando
meninas.<br><br>Ao caminhar pelas ruas, o visitante vê que a
emancipação estilo ocidental está bem distante. Há poucas mulheres nas
ruas das cidades afegãs. Apesar de nem todas as mulheres usarem burca
em Cabul, todas cobrem a cabeça em público. Todas dizem que a lei exige.<br><br>De
fato, a constituição e a lei não exigem nada desse tipo -a constituição
meramente afirma que as leis não devem "ser contrárias às crenças e
condições" do islã- mas o governo "pediu" às mulheres que cobrissem
suas cabeças.<br><br>Graças às guerras intermináveis no Afeganistão, há
2 milhões de viúvas no país. Ainda assim a maior parte dos afegãos
acredita que é ilegal mulheres viverem sozinhas. Assim como as cabeças
descobertas, a verdade é que não é ilegal - mas quase impossível.<br><br>Habiba
Danish, 26, é uma das mais jovens parlamentares. Ela foi entregue em
casamento aos 18 anos, ainda estudante, por seu pai, proprietário de
terras e juiz, para ser a segunda esposa de um senhor de guerra em
Tahar. Alta e bela, com cabelos negros e longos e pele clara, traços
valorizados pela alta classe afegã, Habiba ficou viúva após 38 dias,
quando seu marido foi assassinado por seus rivais.<br><br>"Todo mundo
quer encontrar seu próprio marido e se apaixonar", diz Habiba, na sala
de estar acarpetada de sua pequena casa em Cabul. "Mas meu pai me disse
que cortaria minha garganta se eu falasse com um rapaz. Eu não vi meu
marido até o dia do meu casamento."<br><br>Habiba vive cercada por
vários parentes homens, mas dá para perceber que a dinâmica tradicional
entre eles está mudando. Seus irmãos a obedecem - nos deixam a sós para
conversar na sala e trazem o carro para levá-la ao parlamento. Como ela
diz, não é só que ela é "uma mulher rica, com terras e cavalos". Seus
irmãos também são ricos. A diferença é que sua posição no parlamento
parece, por enquanto, superar a deles de homens.<br><br>É claro que
enfrentam os problemas que as mulheres emancipadas enfrentam em toda
parte, problemas que Habiba e suas colegas no parlamento estão
começando a descobrir - lidar com o trabalho e o cuidado das crianças,
encontrar um parceiro que não seja inibido por uma mulher forte e bem
sucedida.<br><br>"Decidi casar-me novamente, mas não tive tempo de
encontrar alguém ainda", diz ela. "Preciso de um marido que possa me
apoiar no meu trabalho, me ajudar com minhas obrigações. Preciso de uma
pessoa que possa ir comigo às aldeias. Preciso de uma esposa", ela ri.<br><br>Um
dos amigos da família - solteiro, 30, que precisa desesperadamente de
uma esposa - fica abismado quando pergunto se gostaria de se casar com
ela.<br><br>"Claro que não, ela é viúva!"<br><br>"E qual é o problema? Ela é bela, tem um bom emprego, muito dinheiro."<br><br>Encabulado, ele diz: "Bem... eu queria uma virgem."<br><br>Ainda
assim, no geral, a posição da mulher é muito melhor do que era há cinco
anos. Atualmente não se arranca as unhas das mulheres que usam esmalte.
Elas -ao menos na classe média- podem pensar em arrumar emprego,
exceto, é claro, nas regiões dominadas por islâmicos.<br><br>Ceri Hayes
da Womankind Worldwide e Anne Johnson da Afghanaid querem deixar claro
para mim que as afegãs estão desesperadas por independência. "Nossas
parceiras nos dizem: 'Por favor, diga à mídia ocidental que não somos
mulheres oprimidas de burca'", diz Hayes. "Elas têm visão muito clara
sobre o futuro do país, sobre como reconstruir suas comunidades e
forjar elos entre diferentes clãs."<br><br>Azarbaijani-Moghaddam tem
origem iraniana mas fala dari fluentemente e pode se passar por afegã.
Ela acha que o problema é mais profundo do que as guerras, a religião
ou a lei. "Está profundamente arraigado na cultura diária, para os dois
sexos. Muitas mulheres se sentem nuas sem o hijab. Elas têm pavor das
conseqüências. Temos muitas pessoas trabalhando em programas de
conscientização de discriminação sexual, mas elas mal tocam nesses
comportamentos."<br><br><font size="1">Charlotte Eagar escreve para o The Evening Standard</font>
<br><br>
<span id="v10nb"><b>Tradução:</b> Deborah Weinberg</span>]]></description>
		  		  <category>Buzznet</category>
	      <dc:creator>raladoo</dc:creator>
	      <dc:date>2007-02-03T17:19:14Z</dc:date>
	    </item>
		    <item>
	      <title><![CDATA[Política à brasileira]]></title>
	      <link>http://raladoo.buzznet.com/user/journal/110076/</link>
	      <description><![CDATA[<DIV class=documentSecao>Seu País</DIV>
<h2 class=documentFirstHeading>Política à brasileira</h2>
<DIV>
<DIV class=documentByLine><SPAN>por Leandro Fortes</SPAN> </DIV></DIV>
<P class=documentDescription>Velhos hábitos afloram na disputa pela presidência da Câmara</P>
<DIV class=newsImageContainer><A title="<strong>Comemorar o quê?.<strong> Os aliados vão cobrar caro pelo apoio ao petista<br /> (Wilson Dias/ABr)" href="http://www.cartacapital.com.br/edicoes/2007/02/430/politica-a-brasileira/image" rel=lightbox><IMG class=newsImage title="Comemorar o quê?" height=149 alt="Comemorar o quê?" src="http://www.cartacapital.com.br/banco_imagens/seupais4301.jpg/image_mini" width=200><FONT color=#9c0808> </FONT></A></DIV>
<DIV class=plain>
<P><FONT color=#9c0808></FONT></P>
<P><B>Eleito presidente da Câmara, </B>em segundo turno, na quinta-feira 1º, o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) manteve a tradição retórica da ocasião ao cumprimentar os adversários Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e Gustavo Fruet (PSDB-PR) e conclamar todos ao trabalho duro e democrático. Também usou o rápido discurso de vencedor para enveredar-se por um paradoxo típico do jeito de fazer política no Brasil. Ao agrado da platéia, disse que iria trabalhar “para recuperar a autoridade” da Casa. Pouco antes da votação, falava em “não assistir passivamente aos ataques injustos à instituição e a um parlamentar”. Entronizado, capitulou, finalmente, à tese de que nunca houve Legislatura pior do que a encerrada naquele dia. </P>
<P><B>No Senado Federal,</B> Renan Calheiros, ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso e ex-líder de Fernando Collor na Câmara, foi reeleito presidente com o apoio do PT e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Também posou de escaldado pela onda de escândalos da Legislatura passada. Por isso, garantiram os correligionários, optou por uma campanha discreta, sem outdoors ou banners, livre de ostentações materiais. Assim como Chinaglia, agregou para si um tipo de hipocrisia comum aos parlamentares brasileiros. Uma reação, no dizer do escritor americano Norman Mailer, “cheia de indignação moral e, também, de vacuidade moral”.</P>
<P>A Câmara que Chinaglia vai comandar ainda é o mesmo vespeiro político que promovia “trens da alegria” durante a ditadura militar, “anões do Orçamento”, no início dos anos 1990 e, na era FHC, serviu de balcão de compra de votos para a reeleição. Sem falar nos sanguessugas do último mandato. O mesmo vale para o Senado, novamente presidido por Renan. Em alguns casos, escândalos e protagonistas ainda são os mesmos. O fato de os eleitos se alinharem, de imediato, a uma tese difundida em uníssono pela oposição e por articulistas dos grandes jornais revela um bocado sobre a cultura política tupiniquim.</P>
<P>Embora a eleição no Senado tenha sido relativamente acirrada, foi na Câmara que o jeitinho brasileiro de fazer política se fez mais presente. Até o surgimento da candidatura de Gustavo Fruet, os deputados Arlindo Chinaglia e Aldo Rebelo disputavam, na prática, quem seria mais leal ao presidente Lula. Ninguém falava em “recuperar a autoridade” da Casa. Mas, apesar de advertidos pelos pares, pela imprensa e, provavelmente, pelos motoristas e ascensoristas do Congresso Nacional, a dupla insistiu na divisão da base governista, exatamente como fez o PT, em 2005. Na época, os petistas Luiz Eduardo Greenhalgh (SP) e Virgílio Guimarães (MG) ensaiaram uma sinistra disputa palaciana, enquanto, no baixo clero, um típico vilão do Brasil profundo, Severino Cavalcante, aproveitava a contenda para usurpar o trono petista.</P>
<P>Nesse esboço de ópera-bufa, Aldo era o preferido do presidente Lula porque se manteve fiel ao governo mesmo quando, ministro das Relações Institucionais, era fustigado noite e dia pelo então chefe da Casa Civil, o deputado cassado José Dirceu. Que, inclusive, conta com Chinaglia, agora, para lutar por uma anistia política, a vir como proposta de iniciativa popular. </P>
<P>Com a queda de Severino, em 2006, acusado de receber propinas de um concessionário de restaurantes da Câmara, Aldo impôs-se como o mocinho do momento. Disputou, voto a voto, contra Thomaz Nonô, do PFL de Alagoas, o direito de comandar a Casa. A imagem do comunista de 50 anos e cinco mandatos à espera da contagem dos votos, com os músculos do rosto contraídos, mas sem sinais de emoção, virou uma marca dessa transição.</P></DIV>]]></description>
		  		  <category>Buzznet</category>
	      <dc:creator>raladoo</dc:creator>
	      <dc:date>2007-02-02T14:18:35Z</dc:date>
	    </item>
		    <item>
	      <title><![CDATA[O público e o privado]]></title>
	      <link>http://raladoo.buzznet.com/user/journal/109299/</link>
	      <description><![CDATA[<h2 class=documentFirstHeading>O público e o privado</h2>
<DIV>
<DIV class=documentByLine><SPAN>por <A href="http://www.cartacapital.com.br/author/beluzzo"><FONT color=#9c0808>Luiz Gonzaga Belluzzo</FONT></A></SPAN> </DIV></DIV>
<P class=documentDescription>O individualismo do cidadão remediado é tão visceral, tão patológico e tão tragicamente cômico que é também essencial para uma sociedade baseada na “lei do mais forte”</P>
<DIV class=newsImageContainer><IMG class=newsImage height=100 alt="" src="http://www.cartacapital.com.br/portal_memberdata/portraits/beluzzo" width=75> 
<P class=discreet>Luiz Gonzaga Belluzzo</P></DIV>
<DIV class=plain>
<P></P>
<P><B>O desabamento </B>da estação Pinheiros da Linha 4 do Metrô foi um painel de desgraças: narra os percalços da vida contemporânea no Brasil brasileiro. O desastre vai além das intermináveis discussões sobre a qualidade das avaliações geológicas ou desencontros sobre a propriedade (ou impropriedade) das técnicas de escavação de túneis. O povo de São Paulo de Piratininga presenciou uma tragédia humana, urbanística, social e midiática.</P>
<P>Primeiro o óbvio: nas últimas décadas, consolidou-se, entre as camadas dominantes e bem-pensantes, a convicção de que a vida coletiva e os riscos dos cidadãos podem ser resguardados ou administrados pelos critérios do lucro privado. Saiba o leitor que não embarco na maré acusatória fomentada pela mídia do espetáculo macabro. Nem mesmo pretendo descartar a possibilidade de relações virtuosas entre o Estado e o Mercado. Muito ao contrário: julgo que o período glorioso da vida social e do progresso econômico deve seu desempenho às articulações que, na segunda metade do século XX, enlaçaram o público e o privado.</P>
<P>Cuido aqui de um processo de deformação do imaginário social estimulado pelos mesmos que se valem da tragédia para endurecer o indicador ou produzir factóides e inventar personagens. Há quem diga que o lucro é a conquista suprema da raça humana e tudo o que existe ou está para existir deve se submeter às normas do ganho monetário. Alguns brasileiros, da classe média para cima, vêm tentando transformar esse axioma em orientação para a vida prática. Não é de hoje que tentam safar a onça entregando a sua saúde e a de seus filhos à iniciativa dos privados. Não apenas a saúde, mas também a educação, a segurança, a aposentadoria etc.</P>
<P><B>É claro que o repúdio</B> dessa gente à saúde pública, à escola pública, à segurança pública é um gesto de diferenciação, de distinção em relação aos de baixo, uma espécie de grife que os identifica como consumidores de bom gosto em oposição à rafaméia vestida em andrajos. A grande vantagem dessa atitude é que, de quebra, fica justificado o descumprimento das obrigações coletivas – desde o estacionamento em lugar proibido até a esperteza de furar filas e trafegar pelo acostamento –, ensejando uma espécie de anarquismo de remediados. Há fortes evidências, neste momento, de que, salvo para os de cima – descontados os desabamentos de túneis –, a experiência foi desastrosa.</P>
<P>Quando entro em tais considerações, os amigos me censuram: “Mas você é da classe média”. Respondo: “Com muita honra”. Mas emendo de primeira: “Não sei por quanto tempo”. A verdade é que, de uns tempos a esta parte, a chamada classe média precipita-se ladeira abaixo. É claro que alguns ainda conseguem se agarrar à nave espacial dos mais ricos, que decola célere em direção à economia moderna e globalizada. Mas esses são cidadãos do mundo e só fazem cálculos em dólares porque não acreditam, de fato, que o real seja uma moeda forte.</P>
<P>&nbsp;<B>A coisa degringolou.</B> Os que continuam acreditando nesta balela contam os tostões para pagar dívidas, têm pesadelos com o desemprego ou fecham os seus negócios porque o faturamento mergulha em parafuso. A situação mais dramática é a dos desempregados que, sonhando em ser patrões de si mesmos, não encontram um Estado capaz de construir um ambiente de negócios propício ao bom desempenho dos novos empreendimentos. </P>
<P>&nbsp;Mas os mitos em que aprendeu a acreditar impedem o cidadão remediado de avaliar as verdadeiras razões de suas decepções. Para ele, o indivíduo é o único responsável por suas desditas. Se quebrou a cara, é porque não teve competência para fazer melhor, não soube vencer os competidores nem ultrapassar as suas circunstâncias. O seu individualismo é tão visceral, tão patológico e tão tragicamente cômico que é também essencial para a reprodução de uma sociedade que funda a sua justificação moral na “sobrevivência do mais forte”.</P>
<P>&nbsp;Sobrevivem realmente os mais fortes, mas os mais fortes são mais fortes há muito tempo e o resultado da luta competitiva só pode ser a dizimação dos incautos que se julgavam aptos a concorrer. É verdade que alguns conseguem se agarrar à espaçonave que arranca em alta velocidade. Mas a maioria é tragada pelos buracos da vida.</P>Os planos de saúde, a escola privada, esses pesadelos não foram ainda suficientes para ensinar às vitimas do individualismo as lições da vida. Faltam ainda os ensinamentos da previdência privada. Mas eles não tardarão. Assim, desde as crianças até os velhos, passando pelos de idade adulta, todos poderão provar das delícias do privatismo. </DIV>]]></description>
		  		  <category>Buzznet</category>
	      <dc:creator>raladoo</dc:creator>
	      <dc:date>2007-02-01T06:11:28Z</dc:date>
	    </item>
		    <item>
	      <title><![CDATA[Islã]]></title>
	      <link>http://raladoo.buzznet.com/user/journal/90362/</link>
	      <description><![CDATA[<SPAN class=ft1><A onclick="TamFonte(1, 'corpo')" href="http://carosamigos.terra.com.br/nova/ed117/so_no_site_entrevista_aslan.asp#"><IMG style="MARGIN: -6px 16px 5px 455px" height=18 src="http://carosamigos.terra.com.br/nova/graficos/apq.gif" width=18></A></SPAN> <SPAN class=ft2><A onclick="TamFonte(2, 'corpo')" href="http://carosamigos.terra.com.br/nova/ed117/so_no_site_entrevista_aslan.asp#"><IMG style="MARGIN: -6px 16px 5px 0px" height=18 src="http://carosamigos.terra.com.br/nova/graficos/amd.gif" width=18></A></SPAN> <SPAN class=ft3><A onclick="TamFonte(3, 'corpo')" href="http://carosamigos.terra.com.br/nova/ed117/so_no_site_entrevista_aslan.asp#"><IMG style="FLOAT: none; MARGIN: -6px 0px 5px" height=25 src="http://carosamigos.terra.com.br/nova/graficos/agd2.gif" width=18></A></SPAN> 
<DIV id=corpo>
<P><IMG height=150 alt=Entrevista src="http://carosamigos.terra.com.br/nova/ed117/graficos/reza_aslan.jpg" width=160></P>
<H3>O Islã tal como é </H3>
<P><IMG height=8 src="http://carosamigos.terra.com.br/nova/graficos/fio_hor.gif" width=548></P>
<P align=right>por<STRONG> Daniel Lopes</STRONG></P>
<P align=justify>&nbsp;</P>
<P align=justify>As escolhas para quem quer ler um livro sobre o islã fundamentalista, terrorista, misógino, são muitas, infinitas. Se você procura uma visão da religião fundada por Maomé que vá contra a ideologia do “choque de civilizações”, terá que se esforçar um pouco mais na busca, mas quando encontrar e ler <EM>No god but God – the origins, evolution and future of Islam</EM>, é provável que a obra, lançada ano passado, lhe baste.</P>
<P align=justify>Escrito pelo pesquisador Reza Aslan – iraniano desde 1979 radicado nos Estados Unidos, onde conseguiu um bacharelado e dois mestrados, um deles em Estudos Teológicos pela Universidade de Harvard – o livro (recentemente lançado em <EM>paperback</EM> pela Arrow Books) traça um alentado percurso pelos caminhos a que se propõe no subtítulo. É uma escrita de rara beleza em uma obra de não-ficção, e, nos vários momentos em que lida com reconstituições de acontecimentos históricos, a qualidade é nada menos que literária. O que, junto com uma abrangente e respeitável bibliografia de apoio, só ajuda na tarefa que o autor se propôs: desconstruir a visão monolítica que grande parte dos ocidentais temos do mundo muçulmano.</P>
<P align=justify>Em meio a uma corrida rotina – pesquisador na Universidade do Sul da Califórnia, candidato a um doutorado em História das Religiões na Universidade da Califórnia e colaborador de veículos como <EM>New York Times</EM>, <EM>Washington Post</EM> e <EM>The Nation</EM> – Aslan arrumou tempo para conceder por e-mail uma entrevista a <EM>Caros Amigos</EM>, onde aborda temas como Irã, Israel, a condição da mulher no mundo muçulmano e o desenvolvimento da democracia no Oriente Médio.</P>
<P align=justify><STRONG>Como é ser um estudioso heterodoxo do Islã nos EUA de G. Bush?</STRONG><BR>A administração Bush alienou todo o mundo muçulmano com sua beligerância e sua política externa míope. A maioria dos estadunidenses, independente de suas crenças religiosas, deu as costas a este presidente. Entretanto, não há nenhum país no mundo – incluindo o mundo muçulmano – no qual os muçulmanos podem praticar sua fé com mais liberdade e mais abertura do que nos EUA. Aliás, apesar da retórica antiislâmica que freqüentemente se revela em certos setores da sociedade estadunidense, os estadunidenses se orgulham de sua capacidade de inclusão e de seu pluralismo. Hoje, o Islã é a religião mais popular para se estudar nas universidades estadunidenses. É importante entender que os muçulmanos estadunidenses configuram a maior minoria religiosa nos EUA. Há cerca de quatro milhões de muçulmanos a mais do que judeus. Mais do que isso, os muçulmanos estadunidenses estão completamente integrados em todos os níveis da sociedade. De modo que, nos Estados Unidos de George Bush, não sinto qualquer reação violenta contra mim enquanto universitário e ativista muçulmano-estadunidense. Pelo contrário, são pessoas como eu que têm desempenhado um importante papel na tentativa de fazer retroceder a onda de antiamericanismo no mundo muçulmano.</P>
<P align=justify><STRONG>Os conservadores diriam que liberais como você, com pontos de vista tolerantes em relação ao Islã, sempre tiveram um espaço predominante no campo de idéias (mídia e academia), o que eles dizem ter levado a uma subestimação do Islã radical e, em última instância, ao 11 de Setembro. O ponto de vista heterodoxo do Islã é predominante no debate estadunidense hoje?</STRONG> <BR>Primeiro eu gostaria de dizer que o Islã, ao contrário do Cristianismo, não é uma religião de credo. E nem há algo como uma autoridade religiosa centralizada – um papa ou um Vaticano – no Islã, para definir o que é e o que não é islâmico. Certamente existem muitas pessoas que <EM>pensam</EM> falar pelos muçulmanos de todo o mundo, mas elas não têm autoridade política ou religiosa sobre aquela que é inquestionavelmente a mais diversa e eclética comunidade religiosa que o mundo já viu. Isso dito, simplesmente não é verdade que os chamados moderados ou liberais têm um espaço predominante na sociedade. Universidades não são um espaço predominante; muito pelo contrário. Quanto à mídia nos EUA, sua preocupação prioritária é vender produtos, não distribuir informação. E não é moderação ou liberalismo que vende produto, mas sim violência e medo. E é isso que é entregue pelos radicais e militantes que são a maior parte das vozes muçulmanas na TV estadunidense.</P>
<P align=justify><STRONG>Nos primeiros capítulos de <EM>Not god but God</EM>, no meio de várias informações e estórias que nos são contadas, uma se sobressai, aquela sobre como os ensinamentos de Maomé foram desvirtuados por uma série de <EM>hadiths</EM> dos chamados Companheiros, que você identifica como “a primeira geração de muçulmanos”. De que maneira e por que esses homens deturparam as idéias de Maomé?</STRONG><BR>As <EM>hadiths</EM> são anedotas orais acerca do profeta Maomé e seus primeiros companheiros. Elas foram transmitidas oralmente por centenas de anos antes de serem finalmente reunidas em duas ou três edições confiáveis. Atualmente existem centenas de milhares de <EM>hadiths</EM> que dizem ter origem no profeta Maomé, mas que na verdade foram fabricadas pelos sucessores do Profeta para legitimarem suas próprias agendas sociais ou políticas. Na verdade, um grande número dessas <EM>hadiths</EM> contradiz o Corão, particularmente no que diz respeito ao tratamento dispensado às mulheres. Mas a razão de elas serem tão poderosas é que o Corão, ao contrário do Torá [<EM>livro</EM><EM>sagrado</EM><EM> do </EM><EM>Judaísmo</EM>], não é um livro de leis. Existem umas poucas passagens tratando de questões legais, mas em sua maior parte o Corão é inadequado para responder às questões que foram levantadas na época em que o Islã se espalhou de uma pequena comunidade na Arábia para ser o maior império que o mundo tinha visto até então. Muitas <EM>hadiths</EM> foram fabricadas para justificar ações e crenças que já eram inteiramente aceitas e para as quais não havia uma resposta óbvia no Corão. Infelizmente, nos dias de hoje muitos muçulmanos tradicionalistas parecem dar mais ênfase a essas <EM>hadiths</EM> que ao próprio Corão. Isso vai contra tudo o que o Profeta pregou.</P>
<P align=justify><STRONG>Isso pode nos lembrar de alguma forma a famosa afirmação de Nietzsche no <EM>Anticristo</EM>, de que “o Evangelho morreu na cruz” junto com Cristo. O autor aborda como Paulo distorceu ensinamentos de Jesus para avançar sua própria agenda. Essa é uma analogia correta?</STRONG><BR>Sim, é. Nós temos uma tendência para pensar que profetas “inventam” religiões. Nada poderia estar mais longe da verdade. Profetas não criam religiões. Profetas são reformistas que reinterpretam o meio religioso, cultural, social, político e mesmo econômico em que vivem. Moisés não inventou o Judaísmo; ele reformou a religião tribal israelita. Jesus não inventou o Cristianismo; ele reformou o Judaísmo. Buda reformou o hinduísmo. E Maomé, como ele próprio admitiu, nunca criou uma nova religião, mas meramente remodelou o Judaísmo e o Cristianismo para os povos árabes, “um povo sem um livro”. Aos seguidores dos profetas é que é confiada a impossível tarefa de pegar as palavras e os feitos do profeta e, a partir deles, criar uma religião unificada. E é precisamente na institucionalização dessa ideologia que as idéias do profeta às vezes se perdem.</P>
<P align=justify><STRONG>Seria correto afirmar que o Islã é uma religião na qual os seguidores têm um maior sentimento de grupo e de união, mais do que, digamos, nas outras duas grandes religiões monoteístas?</STRONG><BR>Desde o início, o Islã vê a si mesmo como uma religião comunal. Para explicar de uma maneira fácil: a comunidade é a igreja no Islã. Ela é a fonte de salvação. Parte disso tem a ver com as origens tribais do Islã. Mas mesmo quando o Islã se espalhou para além do mundo árabe, ele tentou desesperadamente manter sua identidade comunal. Isso começou a mudar durante o último século, quando os muçulmanos foram forçados a olhar a si mesmos menos como membros de uma comunidade de alcance global do que como cidadãos de Estados-nação. E criou-se um inflado senso de individualismo que começou a prejudicar essa fé antes quintessencialmente universal. Aliás, essa fragmentação geopolítica levou a um grande racha no mundo muçulmano sobre quem possui a autoridade para definir a fé: as instituições ou os indivíduos.</P>
<P align=justify><STRONG>Então as últimas ações israelenses no Líbano não ajudam muito na boa imagem de Israel no mundo muçulmano, ajudam?</STRONG><BR>Durante as duas últimas décadas Israel tem trabalhado energicamente para derrotar seus inimigos. Agora é tempo de ele trabalhar melhor para fazer amigos. Se a tendência demográfica de Israel/Palestina não mudar, em cinqüenta anos não haverá mais uma maioria judaica em Israel. As lideranças israelenses devem começar a pensar sobre sua sobrevivência a longo prazo mais do que quaisquer ganhos ou perdas no curto prazo. Há apenas uma maneira de Israel sobreviver no século 21: canalizar todas as suas energias e recursos para garantir que exista um Estado palestino estável e próspero, com muitos empregos, hospitais, livrarias e escolas. Isso é tão importante para a sobrevivência de Israel que deveria ser sua prioridade. Apenas quando os palestinos estiverem bem vestidos, alimentados e abrigados, eles irão parar de olhar Israel como um inimigo.</P>
<P align=justify><STRONG>Você é um iraniano. Qual sua visão do país natal hoje? É ele todo esse amontoado de problemas que vemos nas notícias? Você colocaria Mahmoud Ahmadinejad como um “acidente” ou como um personagem previsível na cena iraniana?</STRONG><BR>O Irã é uma sociedade extremamente complexa: ao mesmo tempo moderna e tradicional, secular e religiosa. Não há nada de simplista ou monolítico acerca da sociedade ou do governo iranianos. Os iranianos são ferozmente nacionalistas e, ainda que abominem seu governo, não apoiariam nenhuma ameaça à sua soberania. Quase 70% dos iranianos têm menos de trinta anos de idade. Então é inevitável que o Irã segue no caminho para mais democracia e liberdade – se deixado em paz!</P>
<P align=justify><STRONG>Você fala sobre deixar o Irã em paz se o desejamos mais democrático. Você pensa o mesmo de países como Arábia Saudita e Síria? Salameh Nematt, do jornal londrino em língua árabe <EM>Al-Hayat</EM>, disse em 2004 numa entrevista à <EM>Newsweek</EM> que “a propaganda de que a democracia [<EM>no OrienteMédio</EM>] deveria ter origem doméstica, e não ser imposta de fora, é uma piada”, e disse também que as duas primeiras democracias que nós iríamos ter na região, Afeganistão e Iraque, só ocorreriam por conta da intervenção dos EUA.</STRONG><BR>O Irã não é a Arábia Saudita. Este país está apodrecido desde seu centro de poder e provavelmente entrará em colapso graças à sua própria corrupção, em vez de qualquer ameaça externa. O Irã também não é a Síria, que está sob um severo controle militar. O Irã tem um processo político vivo, uma população politicamente ativa, uma imprensa vibrante e a maioria dos movimentos pelos direitos da mulher do mundo muçulmano. Mas o isolamento do Irã da comunidade internacional arruinou completamente sua economia e fortaleceu a elite clerical não-eleita. Os iranianos precisam de emprego, não de uma intervenção dos EUA. Apenas quando puderem alimentar suas famílias eles irão voltar seus esforços para livrar o país desse odioso regime. </P>
<P align=justify><STRONG>Em seus textos lemos com freqüência que a “exportação da democracia” propagada pelos EUA está fadada ao fracasso, porque o conceito de democracia radicalmente secular não agrada aos muçulmanos. Que tipo de democracia o mundo muçulmano teria a oferecer?</STRONG><BR>Apenas nos EUA a democracia estadunidense é possível; ela não pode ser isolada das tradições e valores estadunidenses. A democracia não é uma peça única que serve a todos. Ela não pode ser importada; ela deve ser erguida de dentro de um país. O fato é que a vasta maioria dos mais de um bilhão de muçulmanos no mundo aceita os princípios fundamentais da democracia. A maioria dos muçulmanos adequam sem nenhum problema a linguagem da democracia aos termos islâmicos. Ideais tais como representação popular, participação política, sufrágio universal, constitucionalismo, prestação de contas do governo, pluralismo e direitos humanos são amplamente aceitos no mundo muçulmano. O que não é necessariamente aceito, entretanto, é a distinta noção ocidental de que a religião e o Estado devem ser inteiramente separados, de que o secularismo deve ser a base de uma sociedade democrática. Mas uma chamada democracia islâmica não está destinada a ser uma “teocracia”, e sim um sistema democrático baseado numa estrutura moral islâmica, devotada a preservar ideais islâmicos de pluralismo e direitos humanos, e aberto ao inevitável processo de secularização política. O Islã pode até esquivar-se do secularismo, mas não há nada nos valores islâmicos fundamentais que se oponha ao processo de secularização política.</P>
<P align=justify><STRONG>Você também costuma analisar os muçulmanos moderados, liberais. Hoje, eles estão em condições de se contrapor ao poder dos fundamentalistas? E como o Ocidente ajuda ou atrapalha o desenvolvimento de um Islã mais aberto?</STRONG><BR>A chamada “Guerra ao Terrorismo” fortaleceu os jihadistas e os ajudou a espalhar a propaganda de que o Ocidente, e especialmente os EUA, está conduzindo outra cruzada contra o mundo muçulmano. Claro, foi exatamente esse o propósito dos ataques de 11 setembro de 2001. Por admissão do próprio Bin Laden, os ataques foram especificamente planejados para provocar os Estados Unidos a retaliarem exageradamente contra o mundo islâmico, de modo a mobilizar os muçulmanos a, nas palavras de George W. Bush, “escolherem lados”. Infelizmente isso é exatamente o que aconteceu, à medida que mais e mais muçulmanos se convencem – graças ao Iraque, Guantánamo, Abu Ghraib, etc. – de que a “Guerra ao Terror” é, na verdade, uma guerra contra o Islã. Nesse tipo de ambiente, torna-se muito difícil que vozes moderadas sejam ouvidas acima da cacofonia de violência e extremismo.</P>
<P align=justify><STRONG>Seu livro lida também com o complexo tema do papel da mulher no Islã. Você levanta uma curiosa história acerca daquele que é o símbolo da opressão à mulher, o véu. Conte um pouco sobre as origens do véu e como você vê o atual estado da mulher nas sociedades muçulmanas.</STRONG><BR>Embora visto como o mais peculiar emblema do Islã, o véu, surpreendentemente, não é usado por muçulmanas em nenhuma passagem do Corão. A tradição de pôr véu e isolar (conhecidas conjuntamente como <EM>hijab</EM>) foi introduzida na Arábia muito antes de Maomé, principalmente através de contatos árabes com a Síria e o Irã, onde o <EM>hijab</EM> era um sinal de status social. Afinal de contas, apenas a uma mulher que não precisava trabalhar nos campos poderia ser permitida a permanência em isolamento e com o véu. Entre os muçulmanos não havia uma tradição de se usar o véu até por volta de 627 D.C., quando o chamado “verso de <EM>hijab</EM>” repentinamente desceu sobre a comunidade. Esse verso, entretanto, era destinado não a todas as mulheres em geral, mas exclusivamente para as esposas de Maomé: “Crentes, não entrem na casa do Profeta... a menos que pedidos. E se forem convidados... não se demorem. E quando forem perguntar algo às esposas do Profeta, o faça por detrás de uma <EM>hijab</EM>. Isso garantirá a pureza de seus corações bem como os delas” (33:53).<BR><BR>É difícil dizer com certeza quando o véu foi adotado pelo resto da Ummah [<EM>comunidade</EM><EM> formada </EM><EM>por</EM><EM> Maomé e </EM><EM>seus</EM><EM>primeiros</EM><EM>seguidores</EM>], embora provavelmente tenha sido muito depois da morte de Maomé. As muçulmanas começaram a vestir o véu provavelmente como uma forma de emular as esposas do Profeta, que eram reverenciadas como “as Mães da Ummah”. Mas o véu não era nem obrigatório nem, tampouco, inteiramente aceito até gerações após a morte de Maomé, quando um grande número de eruditos responsáveis pelas escrituras e pela autoridade legal começaram a usar sua autoridade religiosa e política para retomar o domínio que haviam perdido na sociedade em decorrência das reformas igualitárias do Profeta.<BR>Hoje, o véu é tanto um símbolo da “degradação das mulheres” quanto um que significa a castidade feminina, devoção, e, mais do que tudo, um desafio à imagem ocidental de mulher (dependendo a quem você pergunta). Ambas as imagens são enganosas e simplistas. O véu pode não ser nada disso ou pode ser tudo isso, mas são as muçulmanas que têm de decidir por elas mesmas.</P>
<P align=justify><STRONG>Qual é o futuro do Islã?</STRONG><BR>O Islã, como todas as grandes religiões, está em constante estado de evolução. Ele sempre está se adaptando a quaisquer situações sociais, políticas ou econômicas em que se encontre. E continuará a ser assim. Acho que nós estamos vendo uma rápida individualização no mundo muçulmano, particularmente entre muçulmanos no Ocidente, que está fadada a ter um forte impacto no futuro da fé. Ainda mais importante é o papel das mulheres muçulmanas em definirem elas mesmas o significado e a mensagem do Islã, ao invés de dependerem dos eruditos. É difícil dizer o que acontecerá. Mas a maré de reforma no Islã não pode ser contida.</P>
<P>&nbsp;</P></DIV>]]></description>
		  		  <category>Buzznet</category>
	      <dc:creator>raladoo</dc:creator>
	      <dc:date>2006-12-25T14:01:26Z</dc:date>
	    </item>
		    <item>
	      <title><![CDATA[Desaviso]]></title>
	      <link>http://raladoo.buzznet.com/user/journal/90359/</link>
	      <description><![CDATA[<H3>Desaviso</H3>
<P align=right><EM>Marilene Felinto</EM></P>
<P><STRONG>O homem mais alto do mundo e os homens mais gordos da televisão </STRONG></P>
<P align=justify>Numa sociedade regida por princípios quantitativos, o realismo numérico é ferventado a todo instante pela mídia (para usar uma idéia do crítico Fábio Lucas). A televisão, por exemplo, é povoada por elementos, indivíduos e situações inspiradas nesse princípio dos “recordes” numéricos (de peso, de altura, de distância, de velocidade etc.). Basta analisar a coleção de homens obesos ou quase obesos que desfila por telejornais e programas de “entretenimento” nas redes de televisão nacionais: Faustão e Jô Soares são apenas espécimes clássicos (da Rede Globo). Seguem-se a eles Datena e Gilberto Barros, da Rede Bandeirantes, e Luciano Faccioli, da Rede Record, para citar os que mais aparecem. Como profissionais (do jornalismo ou do <EM>showbiz</EM>, que uma coisa aqui já não se dissocia da outra) são mais ou menos medíocres, e tudo indica que aparecem mais pelo excesso de gordura do que pelo “serviço” que prestam. </P>
<P align=justify>Outro dia, no início de novembro, juntaram-se numa única cena – algo grotesca – o apresentador Jô Soares, que se vende corporalmente na mídia como “o gordo”, e o chamado “homem mais alto do mundo”, assim apelidado por uma dessas bíblias da imbecilidade contemporânea, o tal “livro dos recordes” ou <EM>Guinness World Records</EM>. Nada sobraria do que teria sido uma entrevista do apresentador com o tal homem mais alto do mundo, o chinês Xi Shun, 55 anos e 2,36 metros de altura: Jô Soares, por meio de sua veia cômica de baixa extração, não fez outra coisa senão ressaltar, a golpes de sensacionalismo, o ridículo a que estavam expostos o homem gigante, mercadoria do <EM>Guinness </EM>que perambulava mundo afora divulgando a tal bíblia e um tal “Dia Mundial dos Recordes” (9 de novembro!) e ele próprio, “o gordo”. </P>
<P align=justify>Nada de interesse foi perguntado ao chinês na pseudo-entrevista: se sua altura insólita era coisa de família, questão de genética, se seus parentes eram igualmente altos, se a altura lhe causava algum problema físico (que explicasse a bengala que usava, por exemplo). Na entrevista onde tudo era falso – o chinês, que não falava uma única palavra em português e dependia de uma intérprete, permaneceu o tempo todo alheio às piadas de mau gosto do apresentador –, sobressaíam a deformidade apenas, as formas distorcidas do espetáculo grotesco. Afinal, no universo do grotesco, destaca-se aquilo que se presta ao riso ou à repulsa por seu aspecto inverossímil, bizarro, estapafúrdio ou caricato. Trata-se da visualização do monstruoso, do insólito, do ridículo, do extravagante e do <EM>kitsch</EM>.</P>
<P align=justify>Por que se exibem tantos homens gordos na televisão se não por isso, se não como elemento da espetaculosidade banal que configura este meio de comunicação cheio de falsas sugestões? Não seria mera coincidência. E não se trata de os gordos estarem na contramão da vocação narcísica sob a qual o sentido da vida é buscado, na esfera estética, na beleza produzida nos laboratórios, nas academias de ginástica, nos regimes de alimentação e nas cirurgias plásticas. Não – trata-se da mesma vocação ao inverso. Trata-se, além do mais, de um reforço no ideário machista de que homem pode ser qualquer coisa, fazer qualquer coisa e aparecer de qualquer jeito: até mesmo como o “gordo” grotesco. Ora, por que não se exibem mulheres balofas na televisão, nos telejornais, nos programas de “variedades”? Pelo motivo óbvio de que está consumada no mercado de mídia a idéia de que mulher é objeto sexual e tem, portanto, que aparecer como tal – quando não anoréxica e bulímica, os quase-cadáveres dos desfiles de moda.</P>
<P align=justify>Este comentário não tem nenhuma intenção preconceituosa contra gordos. O que se diz aqui é que a presença específica de homens obesos nas redes de televisão nacionais tem a ver com o fato de a imagem gorda deles combinar com a concepção de “consumo” e “devoração” em que se funda a mídia hoje – “devorar” no sentido mesmo de destruir rápida e completamente, de apoderar-se, de usurpar.</P>
<P align=justify>É antes por seu peso e tamanho físico que o apresentador-jornalista Luciano Faccioli, da Rede Record, é homem de televisão. Não é por excelência profissional. No telejornal matinal <EM>São Paulo no Ar</EM>, o apresentador dá um <EM>show</EM> de obviedade piegas nos comentários e análises descabidas do noticiário que apresenta. Para não falar da espetacularidade perversa operada por Datena (<EM>Brasil Urgente</EM>, Rede Bandeirantes) à custa da exploração da violência no universo das classes pobres. Para não falar de outra nulidade chamada Gilberto Barros (<EM>Boa Noite Brasil</EM>, Rede Bandeirantes). </P>
<P align=justify>Num conto antológico e genial chamado “A Menor Mulher do Mundo” (em <EM>Laços de Família</EM>, 1960), a escritora Clarice Lispector esgotou essa característica de apropriação devoradora da mídia que transforma pessoas em exóticas notícias de jornal ou televisão (como Jô Soares fez com “o homem mais alto do mundo”).&nbsp; </P>
<P align=justify>A narrativa de Clarice vai apresentando o processo de “devoração” de que é vítima a personagem “Pequena Flor”, a menor mulher do mundo, descoberta “nas profundezas da África Equatorial” pelo explorador Marcel Pretre. “No Congo Central descobriu realmente os menores pigmeus do mundo. E (...), entre os menores pigmeus do mundo, estava o menor dos menores pigmeus do mundo.” Era uma mulher, que estava grávida, e a quem o explorador apelidou de “Pequena Flor”: “Marcel Pretre defrontou-se com uma mulher de quarenta e cinco centímetros, madura, negra, calada”. Todo o conto é a expressão do contraditório sentimento de amar sem devorar nem ser devorado: “E então ela estava rindo (...). E ela continuou fruindo o próprio riso macio, ela que não estava sendo devorada. Não ser devorado é o sentimento mais perfeito. Não ser devorado é o objetivo secreto de toda uma vida”.</P>
<P align=justify>Primeiro conta-se como a raça de Pequena Flor estava sendo aos poucos exterminada, a devoração real: “Sua raça de gente está aos poucos sendo exterminada. (...) Os bantos os caçam em redes, como fazem com os macacos. E os comem. Assim: caçam-nos em redes e os comem. A racinha de gente, sempre a recuar e a recuar, terminou aquarteirando-se no coração da África, onde o explorador afortunado a descobriria”.</P>
<P align=justify>Num segundo momento, Pequena Flor é vítima de uma devoração simbólica: a de seu aparecimento num veículo de imprensa. “A fotografia de Pequena Flor foi publicada no suplemento colorido dos jornais de domingo, onde coube em tamanho natural. Enrolada num pano, com a barriga em estado adiantado. O nariz chato, a cara preta, os olhos fundos, os pés espalmados. Parecia um cachorro.” Pequena Flor é então vítima da reação da gente gorda que a vê no jornal e quer também comê-la, apoderar-se dela, usurpá-lá. Em uma casa, um menino leitor diz à mãe perplexa diante da foto da menor mulher do mundo: </P>
<P align=justify>“– Mamãe, se eu botasse essa mulherzinha africana na cama de Paulinho, enquanto ele está dormindo? Quando ele acordasse, que susto, hein! Que berro, vendo ela sentada na cama! E a gente então brincava tanto com ela! A gente fazia ela o brinquedo da gente, hein!” </P>
<P>&nbsp;</P>
<P><STRONG>Marilene Felinto</STRONG> é escritora.</P>]]></description>
		  		  <category>Buzznet</category>
	      <dc:creator>raladoo</dc:creator>
	      <dc:date>2006-12-25T13:57:45Z</dc:date>
	    </item>
		    <item>
	      <title><![CDATA[amor verbo intransitivo]]></title>
	      <link>http://raladoo.buzznet.com/user/journal/51836/</link>
	      <description><![CDATA[<div style="position: relative; width: 550px;">
									<div style="float: right; width: 397px; height: 205px;">
									<div><strong class="titulos">Amor: verba intransitiva </strong>
									<br>
									<strong class="subtitulos">Pesquisando o amor e o ódio em Zâmbia,</strong>
										
									
									<div style="background: transparent url(img/bg_destaque.gif) repeat scroll center top; position: relative; width: 397px; -moz-background-clip: -moz-initial; -moz-background-origin: -moz-initial; -moz-background-inline-policy: -moz-initial; text-align: right; height: 142px;">
												<div style="position: absolute; left: -153px; top: 20px; width: 280px; height: 18px; text-align: right; padding-right: 5px; background-color: rgb(0, 208, 236);">
												<strong class="f11-white">por Henrique Goldman</strong></div>

							
																									<img src="http://www.trip.com.br/admin/smarty/templates/img_upload/violinista.jpg" alt="" height="142" width="260">
												
							
									</div>
									

									</div>
									</div>
									
									</div>
									
									
											
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;">&nbsp;O nome dela é
Salomé. Ela tem 22 anos, é portadora de uma bunda nababesca e um par de
peitos estonteantes -- poderia perfeitamente ser a Trip Girl, se
houvesse uma edição zambiana da nossa revista. Mora sozinha num barraco
sem janelas, sem água corrente e sem eletricidade em Missis, uma favela
fétida de Lusaka, capital da Zâmbia. Ela cobra dez dólares por um
boquete e 20 por uma foda completa. Sem camisinha, o preço sobe para
30. Salome é a única sobrevivente de uma família inteira dizimada pela
Aids. Há alguns meses ela fez o exame para saber se estava infectada,
mas nunca teve coragem de buscar o resultado.</p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;">&nbsp;</p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;">Deixei
claro que eu não queria sexo e, por 500 dólares semanais, consegui
conquistar a sua amizade. Ela foi o meu guia pelos bares e prostíbulos
da Zâmbia, onde eu estou fazendo uma pesquisa sobre amor e ódio entre
ricos e pobres. Estávamos almoçando quando eu perguntei para a Salomé
se ela já tinha se apaixonado. Ela me olhou com olhos gélidos, sorriu
amargamente e disse, entre uma mordida e outra numa coxa de frango: “Eu
vejo as pessoas se apaixonando nas novelas, eu vejo casaizinhos brancos
bem vestidos andando pelas ruas de Lusaka de mãos dadas, eu ouço
canções românticas no rádio e acho tudo muito lindo. Mas esse negócio
de amor é coisa só pra rico. Pobre, que passa fome, que mora em favela
e que não pode pagar dentista quando tem dor de dente, nem sabe o que é
amor. Pensa só em sobreviver”.</p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;">&nbsp;</p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;">Fiquei alguns instantes absorvendo suas palavras.</p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;">Fiquei
parado, olhando para ela sem conseguir engolir a comida, querendo
continuar a entrevista mas sem imaginação para pensar na próxima
pergunta. Indiferente, ela terminou a coxa do frango e começou a comer
a asa. Aos poucos percebi que o que ela acabara de me dizer era muito
profundo e revelador. Percebi que foi para ouvir isso que vim até a
África.</p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;">&nbsp;</p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;">Amor,
no sentido de uma relação romântica entre dois seres humanos, é um
conceito universal, inerente a todos, ou uma mera construção cultural?
Pão vale mais do que beijo? O quanto mais ou menos? E o tesão? Tesão é
mais pão, mais beijo ou só uma confusão a mais? Na extrema miséria de
Auschwitz, as pessoas não se apaixonavam? Onde existe mais verdade – em
O Capital, de Karl Marx, ou no Romeu e Julieta, de William Shakespeare?
</p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;">&nbsp;</p><p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;">Minha
pesquisa deveria ter gerado resultados, dados e conclusões. Mas, longe
disso, este encontro com a Salomé deu mais um, entre tantos nós na
minha cabeça. Se é verdadeira a equação menos dinheiro, menos amor, o
Bill Gates deve ser o homem mais romântico do mundo, muito mais
romântico do que o Roberto Carlos.<br><br>ilustração de stephan
doitschinoff reproduzida do livro Palavra Cigana – seis contos nômades,
de Florencia Ferrari (Coleção Mitos do Mundo, CosacNaify, 2005)</p>&nbsp;<br><br>*Henrique Goldman, 44, cineasta, sempre teve saldo suficiente para se apaixonar. Seu e-mail é: <a href="mailto:hgoldman@trip.com.br">hgoldman@trip.com.br</a>]]></description>
		  		  <category>Buzznet</category>
	      <dc:creator>raladoo</dc:creator>
	      <dc:date>2006-09-07T21:30:41Z</dc:date>
	    </item>
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