February 10, 2007

Globalização não reduz desigualdade e pobreza no mundo, diz ONU

Globalização não reduz desigualdade e pobreza no mundo, diz ONU
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A globalização e liberalização, como motores do crescimento econômico e o desenvolvimento dos países, não reduziram as desigualdades e a pobreza nas últimas décadas, segundo livro divulgado neste sábado pela ONU (Organização das Nações Unidas).

A publicação, que leva o título "Flat World, Big Gaps" (Um Mundo Plano, Grandes Disparidades, em tradução livre), foi editado por Jomo Sundaram, secretário-geral adjunto da ONU para o Desenvolvimento Econômico, e Jacques Baudot, economista especializado em temas de globalização.

Seu lançamento coincide com a realização da 45ª sessão da Comissão sobre Desenvolvimento Social da ONU, que revisa os objetivos da cúpula mundial de Copenhague de 1995.

"A redução da desigualdade não está separada de questões como a pobreza e a falta de emprego", disse Baudot. "A idéia do livro é recuperar e situar como uma prioridade na agenda internacional o vínculo existente entre estes indicadores."

Para Baudot, centrar as atividades para reduzir a pobreza no crescimento econômico conduz a estratégias nacionais e regionais que não respeitam o meio ambiente, outro fator para continuar com a desigualdade e a pobreza.

No trabalho se constata que a distribuição das receitas individuais melhorou levemente, graças ao crescimento econômico na China e Índia, mas mesmo assim a repartição da riqueza mundial piorou e os índices de pobreza se mantiveram sem mudanças entre 1980 e 2000.

A desigualdade na renda per capita aumentou em vários países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) durante essas duas décadas, o que sugere que a desregulação dos mercados teve como resultado uma maior concentração do poder econômico.

O livro indica que a desigualdade econômica nos países do Oriente Médio e o Norte da África não mudou, ao contrário da crença generalizada, mas aumentou na maioria dos outros países em desenvolvimento.

Deste modo, constata que a globalização e a liberalização comercial não ajudou a reduzir a pobreza e a desigualdade na maioria de países da África.

No livro se conclui que só uma pequena porção do crescimento da economia mundial contribuiu na redução da pobreza.

"Houve uma tremenda liberalização financeira e se pensava que o fluxo de capital iria dos países ricos aos pobres, mas ocorreu o contrário", anotou Sundaram.

Como exemplo, citou que os EUA recebem investimentos dos países em desenvolvimento, concretamente nos bônus e obrigações do Tesouro, e em outros setores.
Posted on 02/10/2007 2:02 PM Comments (0)

February 3, 2007

Kadogos, as crianças-soldados do Congo

03/02/2007
"Kadogos", as crianças-soldados do Congo
subtitulo = 'Crianças foram raptadas por guerrilheiros quando tinham 11-12 anos; eles aprenderam a manejar armas, elas foram "feitas mulher"'; if (subtitulo.length > 2) { document.write (''+subtitulo+'
') }; Crianças foram raptadas por guerrilheiros quando tinham 11-12 anos; eles aprenderam a manejar armas, elas foram "feitas mulher"

Jean-Pierre Tuquoi
Enviado especial a Goma (República Democrática do Congo)


Junto com a guerra na República Democrática do Congo (RDC), uma palavra nova passou a pertencer ao vocabulário: "kadogo". Em suaíli (grupo de línguas faladas na África do Leste), "kadogo" significa "criança-soldado". Todos os grupos armados que ainda estão em atividade neste país que antigamente tinha por nome Zaire contam "kadogos" nas suas fileiras. Tanto o exército chamado de regular quanto as diferentes milícias.

Com o fim progressivo dos confrontos, o número de "kadogos" vem diminuindo. De 30.000 quando a guerra estava no seu auge, ele teria diminuído até ficar limitado a alguns milhares. Os mais felizardos retornaram para a sua família e hoje aprendem uma profissão em centros de formação financiados por ONGs ou pela Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância): eles se tornam marceneiro ou agricultor para os rapazes, costureira para as meninas... Nesses centros, as condições de vida são espartanas e os meios materiais limitados.

Muhima, um sólido rapagão de 17 anos, é um dos pensionários de um centro de aprendizagem em Goma, a capital do Kivu do Norte, no leste da RDC. O seu outro nome é Salomon. Ele tinha 11 ou 12 anos - ele não sabe mais ao certo - quando um dos seus primos, cinco anos mais velho do que ele, o convenceu a segui-lo e a juntar-se a um grupo armado que combatia os movimentos pró-ruandeses que operavam na região.

"Eu não ia mais para a escola. Conseguia apanhar alguns peixes no rio, mas, em casa, as coisas não andavam bem. Nós não tínhamos dinheiro. O meu primo tinha escutado falar de um grupo que parava US$ 30 [R$ 63,26] por mês. Nós dois fugimos sem nada dizer aos pais", conta Muhima.

Os jovens recrutas são bem recebidos pelos militares. Os rapazes da sua idade não são raros no grupo. "Os militares me deram imediatamente um traje e uma arma. No treinamento, eu aprendi rapidamente a desmontar e remontar o fuzil", diz. Muhima é incapaz de explicar de qual tipo de arma se tratava, mas ele a descreve com precisão. Era um fuzil-metralhador.

Começam então cinco anos de uma guerra muito estranha, feita de marchas intermináveis na selva, de acampamentos sumários, de refeições que não chegam realmente a alimentar, de combates episódicos, de fugas, de contra-ataques... O jovem rapaz alistou-se num grupo de várias centenas de guerreiros "Mai Mai", que goza de uma reputação de invencibilidade.

"Antes dos combates, eles faziam escarificações nos nossos braços e colocavam pós tradicionais sobre as feridas. Com isso, ninguém poderia nos matar. Eu vi foguetes explodirem bem ao meu lado, e balas me tocarem sem me machucar", afirma. Com a mesma candura, Muhima garante que os seus chefes, protegidos por talismãs, tinham o poder de se tornarem invisíveis e de "passar do outro lado das linhas inimigas". "Nós matamos muitos inimigos durante os combates", assegura. "Quanto a nós, só tivemos alguns feridos".

"Os Mai Mai não faziam prisioneiros", acrescenta o adolescente. "Eles eram executados". Até mesmo as mulheres? "Sim", responde ele antes de se corrigir. "As mulheres eram integradas no nosso grupo. Nós não as matávamos". Um pouco mais tarde, o ex menino-soldado explicará que o seu chefe - de quem ele se tornara guarda-costas após ter sido nomeado suboficial - havia proibido aos seus homens de matar os gorilas que vivem na região.

Para esquecer a violência e divertir-se, conta ainda Muhima, "havia cânhamo, os cigarros, o 'lutuku' [um álcool à base de banana e de milho]". E as mulheres, para os mais velhos. "Nós, os jovens, não tínhamos mulheres. É por isso que nós éramos verdadeiros guerreiros", diz. Da sua nova vida de aprendiz de marceneiro, ele fala movido por sentimentos moderados. Ela é tranqüila se comparada com aquela que ele levou durante anos na selva. Mas ele teria preferido ser desmobilizado e receber um pecúlio assim como o seu primo, que hoje é adulto.

Moises estava no campo adversário. Ele tinha cerca de 10 anos - ele não sabe exatamente - quando ele foi requisitado à força como carregador por rebeldes tutsis que haviam invadido a sua aldeia. Esses fatos ocorreram em 1998. Era o início de uma história absurda que terminou em 2006 com o fim progressivo das hostilidades no leste do Congo. Nesse meio-tempo, o jovem rapaz aprendeu a manejar as armas e a servir-se delas assim como um adulto.

Da barbárie da guerra, ele fala sem nenhuma emoção aparente. É verdade, quando o inimigo atacava o seu campo, "as garotas eram quase sempre mortas: elas não corriam depressa o bastante para conseguir fugir". Como se comportava o seu próprio grupo na situação inversa? "Quando nós liberávamos uma aldeia, aliciávamos as garotas para integrá-las no nosso grupo. A gente podia brincar com elas. Algumas se tornavam a mulher de um soldado", diz.

O adolescente participou de combates. A prova disso é a dupla cicatriz que ele tem na sua perna direita. Uma delas foi feita por uma bala que o atingiu de raspão; já, a outra é recordação de uma punhalada. "Eu estava lutando pelo meu país", diz ele, sem fornecer maiores precisões. "Nós tínhamos aulas de educação política. O inimigo eram os Mai Mai e os caras do FDLR [os soldados e os membros de milícias que se bandearam para a RDC em 1994, após terem sido expulsos da Ruanda]".

Certa vez, acrescenta Moises, ele foi feito prisioneiro por um grupo de Mai Mai: "Eles me amarraram e me ataram no teto de uma casa, acima do saguão, durante uma semana". Ele explica que conseguiu escapar em circunstâncias misteriosas.

Fazendo eco aos relatos dos rapazes que foram recrutados e empurrados para a guerra, em muitos casos contra a sua vontade, os jovens moças que lutaram ao seu lado ou contra eles também contam as suas histórias. Dos seus anos de guerra, essas adolescentes não hesitam a pintar um retrato sombrio. Elas não se queixam. Elas não acusam ninguém.

Faida recorda-se de que homens de uniforme de brim - um grupo de Mai Mai - a raptaram um dia que ela estava caminhando para buscar água na floresta. Ela tinha então 16 anos. Ela ficou com eles durante dois anos. Faida foi "feita mulher", conforme ela diz, por um soldado de 20 anos de quem ela ignora por que ele a escolheu em vez de uma outra. Ele é o pai, que ela não quer mais rever, da criança que ela está carregando nas costas. Já faz três meses, ela está aprendendo a costurar.

A história de Anouarité, que também tem 18 anos, não é muito diferente. Ela também foi raptada, em 2004, não longe de Goma, por militares - aqueles liderados pelo general Laurent Nkunda, um chefe rebelde que hoje é alvo de um mandato de prisão internacional - e forçada a segui-los enquanto ela estava indo trabalhar na lavoura, certa manhã.

Alertados, os seus pais até que tentaram recuperá-la, indo até o campo dos rebeldes, mas, aos serem ameaçados pelos homens de farda, eles foram obrigados a voltar para trás. Ela viveu por cerca de dois anos com os militares do general rebelde, os quais ela foi forçada a acompanhar como se ela fosse a sua sombra nas suas peregrinações. Ela cozinhava, ajudada pelas "grandes mulheres", mais velhas do que ela.

Um belo dia, um miliciano tomou-a como mulher. "No início, ele era gentil", conta, "mas, depois ele começou a me bater. As outras mulheres vinham para me consolar". No dia em que ela deu à luz um filho na floresta, ele lhe deu duas tangas. Então, ele sumiu. Ela se aproveitou da situação para fugir do campo. Ela voltou para a sua família, que a recebeu muito bem. Hoje, Anouarité está aprendendo a profissão de costureira, e cria o seu filho. Ela lhe deu o nome de Esperança.

Tradução: Jean-Yves de Neufville
Posted on 02/03/2007 5:25 PM Comments (1)

Feministas de Burca

Feministas de burca
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Charlotte Eagar

Quando os EUA, Reino Unido e seus parceiros na coalizão invadiram o Afeganistão, há mais de cinco anos, uma de suas principais preocupações - depois do terrorismo e do plantio de ópio - era o tratamento das mulheres pelo Taleban. A degradação das mulheres no Afeganistão conquistou grande parte da aprovação liberal para a guerra.

afp 
Sob o Taleban, as mulheres era forçadas a usar burcas sob a pena de serem chicoteadas

Sob o Taleban, as mulheres eram proibidas de trabalhar ou ir à escola. Elas eram forçadas a usar longas burcas e esvoaçavam como lamparinas azuis pelas ruas. Se pegas descobertas eram chicoteadas. A punição pelo adultério era a execução em um campo de esportes cercado por multidões, para quem as matanças semanais tomavam o lugar da televisão, cinema, música e outros entretenimentos proibidos.

Depois da queda de Cabul, vieram vários "especialistas em discriminação sexual", dedicados a dar poder às mulheres no Afeganistão. Mesmo assim, um relatório no ano passado de uma ONG que trabalha no Afeganistão desde 2003, Womankind Worldwide, afirma que o status das mulheres no Afeganistão não melhorou significativamente nos últimos cinco anos.

Nem todas as notícias são más. Graças à discriminação positiva na constituição, inspirada pelo Ocidente, que requer que ao menos 25% dos membros do parlamento sejam mulheres, há hoje 68 mulheres parlamentares. O parlamento Afegão tem uma proporção maior de mulheres (27%) do que o Reino Unido (19%) ou os EUA (22%). A escola é obrigatória para meninas entre 7 e 12 anos. A idade de consentimento para o casamento mudou de 7 para 16 anos para meninas. A igualdade das mulheres agora está garantida pela constituição, que afirma: "Cidadãos do Afeganistão -homens ou mulheres- têm direitos e deveres iguais perante a lei."

De acordo com os próprios afegãos, entretanto, e para muitos assistentes sociais que conhecem bem o país, esses avanços freqüentemente não passam de sonhos ministeriais. Muitas meninas em idade escolar não estão na escola; 85% da população feminina é analfabeta (mas também 71% da população é analfabeta) e 1.600 mulheres em cada 100.000 (1,6%) morrem de parto, comparadas com 12 nos EUA (0,012%).

Assassinatos de honra são comuns, casamento de crianças ainda mais. No verão passado, conheci um produtor de papoula em Helmand que me disse que tinha acabado de vender uma de suas filhas, de 9 anos, para casar-se com um traficante de ópio. Ele não revelou quanto ia receber, e disse que não podia alimentar as meninas. A tarifa atual para uma menina saudável é em torno de US$ 3.000 (em torno de R$ 6.600), ou mais, se vier de uma família rica.

De acordo com agentes de desenvolvimento no Afeganistão, o novo Ministério de Assuntos da Mulher recebe pouco apoio em suas tentativas de mudar as coisas. Tanto a ex-ministra Massouda Jalal quanto assistentes sociais ocidentais dizem que ninguém no governo leva o ministério a sério. "Tivemos ameaças de bomba. Mas não temos carros blindados ou segurança adequada", disse Jalal no verão passado. "O governo paga nossos guardas US$ 20 (aproximadamente R$ 44) por mês. Quem vai arriscar a vida por US$ 20?"

Por outro lado, ocidentais que trabalharam dentro dos ministérios afegãos dizem que os novos ministros são mais dedicados a tirar o máximo de proveito para si mesmos e seus acompanhantes do que cumprir seu serviço. O Ministério de Assuntos da Mulher aparentemente não é exceção: suas ocupantes definem "oportunidade igual" para seus próprios propósitos. "Elas acham: 'Finalmente as mulheres têm uma chance de também aproveitar um pouco'", diz um diplomata em Cabul. "Elas passam a maior parte do tempo em viagens ao exterior. Não conseguem resolver nada enquanto estão viajando para os EUA e para a Austrália o tempo todo."

Enquanto isso, a segurança continua uma grande preocupação entre as mulheres trabalhadoras. Jamila Niazi é diretora da principal escola em Lashkagar, capital da província de Helmand, que atende 6.000 meninas e 2.000 meninos.

"Às 9h da manhã de hoje eu tive outra ameaça contra minha vida", ela me contou no final do ano passado. "Um homem veio à escola e disse que queria conversar comigo. Meu guarda-costas encontrou uma arma escondida em suas roupas, e o homem fugiu." Jamila, que ganha US$ 50 por mês, teve várias ameaças à sua vida somente neste ano, tudo porque está educando meninas.

Ao caminhar pelas ruas, o visitante vê que a emancipação estilo ocidental está bem distante. Há poucas mulheres nas ruas das cidades afegãs. Apesar de nem todas as mulheres usarem burca em Cabul, todas cobrem a cabeça em público. Todas dizem que a lei exige.

De fato, a constituição e a lei não exigem nada desse tipo -a constituição meramente afirma que as leis não devem "ser contrárias às crenças e condições" do islã- mas o governo "pediu" às mulheres que cobrissem suas cabeças.

Graças às guerras intermináveis no Afeganistão, há 2 milhões de viúvas no país. Ainda assim a maior parte dos afegãos acredita que é ilegal mulheres viverem sozinhas. Assim como as cabeças descobertas, a verdade é que não é ilegal - mas quase impossível.

Habiba Danish, 26, é uma das mais jovens parlamentares. Ela foi entregue em casamento aos 18 anos, ainda estudante, por seu pai, proprietário de terras e juiz, para ser a segunda esposa de um senhor de guerra em Tahar. Alta e bela, com cabelos negros e longos e pele clara, traços valorizados pela alta classe afegã, Habiba ficou viúva após 38 dias, quando seu marido foi assassinado por seus rivais.

"Todo mundo quer encontrar seu próprio marido e se apaixonar", diz Habiba, na sala de estar acarpetada de sua pequena casa em Cabul. "Mas meu pai me disse que cortaria minha garganta se eu falasse com um rapaz. Eu não vi meu marido até o dia do meu casamento."

Habiba vive cercada por vários parentes homens, mas dá para perceber que a dinâmica tradicional entre eles está mudando. Seus irmãos a obedecem - nos deixam a sós para conversar na sala e trazem o carro para levá-la ao parlamento. Como ela diz, não é só que ela é "uma mulher rica, com terras e cavalos". Seus irmãos também são ricos. A diferença é que sua posição no parlamento parece, por enquanto, superar a deles de homens.

É claro que enfrentam os problemas que as mulheres emancipadas enfrentam em toda parte, problemas que Habiba e suas colegas no parlamento estão começando a descobrir - lidar com o trabalho e o cuidado das crianças, encontrar um parceiro que não seja inibido por uma mulher forte e bem sucedida.

"Decidi casar-me novamente, mas não tive tempo de encontrar alguém ainda", diz ela. "Preciso de um marido que possa me apoiar no meu trabalho, me ajudar com minhas obrigações. Preciso de uma pessoa que possa ir comigo às aldeias. Preciso de uma esposa", ela ri.

Um dos amigos da família - solteiro, 30, que precisa desesperadamente de uma esposa - fica abismado quando pergunto se gostaria de se casar com ela.

"Claro que não, ela é viúva!"

"E qual é o problema? Ela é bela, tem um bom emprego, muito dinheiro."

Encabulado, ele diz: "Bem... eu queria uma virgem."

Ainda assim, no geral, a posição da mulher é muito melhor do que era há cinco anos. Atualmente não se arranca as unhas das mulheres que usam esmalte. Elas -ao menos na classe média- podem pensar em arrumar emprego, exceto, é claro, nas regiões dominadas por islâmicos.

Ceri Hayes da Womankind Worldwide e Anne Johnson da Afghanaid querem deixar claro para mim que as afegãs estão desesperadas por independência. "Nossas parceiras nos dizem: 'Por favor, diga à mídia ocidental que não somos mulheres oprimidas de burca'", diz Hayes. "Elas têm visão muito clara sobre o futuro do país, sobre como reconstruir suas comunidades e forjar elos entre diferentes clãs."

Azarbaijani-Moghaddam tem origem iraniana mas fala dari fluentemente e pode se passar por afegã. Ela acha que o problema é mais profundo do que as guerras, a religião ou a lei. "Está profundamente arraigado na cultura diária, para os dois sexos. Muitas mulheres se sentem nuas sem o hijab. Elas têm pavor das conseqüências. Temos muitas pessoas trabalhando em programas de conscientização de discriminação sexual, mas elas mal tocam nesses comportamentos."

Charlotte Eagar escreve para o The Evening Standard

Tradução: Deborah Weinberg
Posted on 02/03/2007 5:19 PM Comments (0)

February 2, 2007

Política à brasileira

Seu País

Política à brasileira

por Leandro Fortes

Velhos hábitos afloram na disputa pela presidência da Câmara

Eleito presidente da Câmara, em segundo turno, na quinta-feira 1º, o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) manteve a tradição retórica da ocasião ao cumprimentar os adversários Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e Gustavo Fruet (PSDB-PR) e conclamar todos ao trabalho duro e democrático. Também usou o rápido discurso de vencedor para enveredar-se por um paradoxo típico do jeito de fazer política no Brasil. Ao agrado da platéia, disse que iria trabalhar “para recuperar a autoridade” da Casa. Pouco antes da votação, falava em “não assistir passivamente aos ataques injustos à instituição e a um parlamentar”. Entronizado, capitulou, finalmente, à tese de que nunca houve Legislatura pior do que a encerrada naquele dia.

No Senado Federal, Renan Calheiros, ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso e ex-líder de Fernando Collor na Câmara, foi reeleito presidente com o apoio do PT e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Também posou de escaldado pela onda de escândalos da Legislatura passada. Por isso, garantiram os correligionários, optou por uma campanha discreta, sem outdoors ou banners, livre de ostentações materiais. Assim como Chinaglia, agregou para si um tipo de hipocrisia comum aos parlamentares brasileiros. Uma reação, no dizer do escritor americano Norman Mailer, “cheia de indignação moral e, também, de vacuidade moral”.

A Câmara que Chinaglia vai comandar ainda é o mesmo vespeiro político que promovia “trens da alegria” durante a ditadura militar, “anões do Orçamento”, no início dos anos 1990 e, na era FHC, serviu de balcão de compra de votos para a reeleição. Sem falar nos sanguessugas do último mandato. O mesmo vale para o Senado, novamente presidido por Renan. Em alguns casos, escândalos e protagonistas ainda são os mesmos. O fato de os eleitos se alinharem, de imediato, a uma tese difundida em uníssono pela oposição e por articulistas dos grandes jornais revela um bocado sobre a cultura política tupiniquim.

Embora a eleição no Senado tenha sido relativamente acirrada, foi na Câmara que o jeitinho brasileiro de fazer política se fez mais presente. Até o surgimento da candidatura de Gustavo Fruet, os deputados Arlindo Chinaglia e Aldo Rebelo disputavam, na prática, quem seria mais leal ao presidente Lula. Ninguém falava em “recuperar a autoridade” da Casa. Mas, apesar de advertidos pelos pares, pela imprensa e, provavelmente, pelos motoristas e ascensoristas do Congresso Nacional, a dupla insistiu na divisão da base governista, exatamente como fez o PT, em 2005. Na época, os petistas Luiz Eduardo Greenhalgh (SP) e Virgílio Guimarães (MG) ensaiaram uma sinistra disputa palaciana, enquanto, no baixo clero, um típico vilão do Brasil profundo, Severino Cavalcante, aproveitava a contenda para usurpar o trono petista.

Nesse esboço de ópera-bufa, Aldo era o preferido do presidente Lula porque se manteve fiel ao governo mesmo quando, ministro das Relações Institucionais, era fustigado noite e dia pelo então chefe da Casa Civil, o deputado cassado José Dirceu. Que, inclusive, conta com Chinaglia, agora, para lutar por uma anistia política, a vir como proposta de iniciativa popular.

Com a queda de Severino, em 2006, acusado de receber propinas de um concessionário de restaurantes da Câmara, Aldo impôs-se como o mocinho do momento. Disputou, voto a voto, contra Thomaz Nonô, do PFL de Alagoas, o direito de comandar a Casa. A imagem do comunista de 50 anos e cinco mandatos à espera da contagem dos votos, com os músculos do rosto contraídos, mas sem sinais de emoção, virou uma marca dessa transição.


Posted on 02/02/2007 2:18 PM Comments (3)

February 1, 2007

O público e o privado

O público e o privado

O individualismo do cidadão remediado é tão visceral, tão patológico e tão tragicamente cômico que é também essencial para uma sociedade baseada na “lei do mais forte”

Luiz Gonzaga Belluzzo

O desabamento da estação Pinheiros da Linha 4 do Metrô foi um painel de desgraças: narra os percalços da vida contemporânea no Brasil brasileiro. O desastre vai além das intermináveis discussões sobre a qualidade das avaliações geológicas ou desencontros sobre a propriedade (ou impropriedade) das técnicas de escavação de túneis. O povo de São Paulo de Piratininga presenciou uma tragédia humana, urbanística, social e midiática.

Primeiro o óbvio: nas últimas décadas, consolidou-se, entre as camadas dominantes e bem-pensantes, a convicção de que a vida coletiva e os riscos dos cidadãos podem ser resguardados ou administrados pelos critérios do lucro privado. Saiba o leitor que não embarco na maré acusatória fomentada pela mídia do espetáculo macabro. Nem mesmo pretendo descartar a possibilidade de relações virtuosas entre o Estado e o Mercado. Muito ao contrário: julgo que o período glorioso da vida social e do progresso econômico deve seu desempenho às articulações que, na segunda metade do século XX, enlaçaram o público e o privado.

Cuido aqui de um processo de deformação do imaginário social estimulado pelos mesmos que se valem da tragédia para endurecer o indicador ou produzir factóides e inventar personagens. Há quem diga que o lucro é a conquista suprema da raça humana e tudo o que existe ou está para existir deve se submeter às normas do ganho monetário. Alguns brasileiros, da classe média para cima, vêm tentando transformar esse axioma em orientação para a vida prática. Não é de hoje que tentam safar a onça entregando a sua saúde e a de seus filhos à iniciativa dos privados. Não apenas a saúde, mas também a educação, a segurança, a aposentadoria etc.

É claro que o repúdio dessa gente à saúde pública, à escola pública, à segurança pública é um gesto de diferenciação, de distinção em relação aos de baixo, uma espécie de grife que os identifica como consumidores de bom gosto em oposição à rafaméia vestida em andrajos. A grande vantagem dessa atitude é que, de quebra, fica justificado o descumprimento das obrigações coletivas – desde o estacionamento em lugar proibido até a esperteza de furar filas e trafegar pelo acostamento –, ensejando uma espécie de anarquismo de remediados. Há fortes evidências, neste momento, de que, salvo para os de cima – descontados os desabamentos de túneis –, a experiência foi desastrosa.

Quando entro em tais considerações, os amigos me censuram: “Mas você é da classe média”. Respondo: “Com muita honra”. Mas emendo de primeira: “Não sei por quanto tempo”. A verdade é que, de uns tempos a esta parte, a chamada classe média precipita-se ladeira abaixo. É claro que alguns ainda conseguem se agarrar à nave espacial dos mais ricos, que decola célere em direção à economia moderna e globalizada. Mas esses são cidadãos do mundo e só fazem cálculos em dólares porque não acreditam, de fato, que o real seja uma moeda forte.

 A coisa degringolou. Os que continuam acreditando nesta balela contam os tostões para pagar dívidas, têm pesadelos com o desemprego ou fecham os seus negócios porque o faturamento mergulha em parafuso. A situação mais dramática é a dos desempregados que, sonhando em ser patrões de si mesmos, não encontram um Estado capaz de construir um ambiente de negócios propício ao bom desempenho dos novos empreendimentos.

 Mas os mitos em que aprendeu a acreditar impedem o cidadão remediado de avaliar as verdadeiras razões de suas decepções. Para ele, o indivíduo é o único responsável por suas desditas. Se quebrou a cara, é porque não teve competência para fazer melhor, não soube vencer os competidores nem ultrapassar as suas circunstâncias. O seu individualismo é tão visceral, tão patológico e tão tragicamente cômico que é também essencial para a reprodução de uma sociedade que funda a sua justificação moral na “sobrevivência do mais forte”.

 Sobrevivem realmente os mais fortes, mas os mais fortes são mais fortes há muito tempo e o resultado da luta competitiva só pode ser a dizimação dos incautos que se julgavam aptos a concorrer. É verdade que alguns conseguem se agarrar à espaçonave que arranca em alta velocidade. Mas a maioria é tragada pelos buracos da vida.

Os planos de saúde, a escola privada, esses pesadelos não foram ainda suficientes para ensinar às vitimas do individualismo as lições da vida. Faltam ainda os ensinamentos da previdência privada. Mas eles não tardarão. Assim, desde as crianças até os velhos, passando pelos de idade adulta, todos poderão provar das delícias do privatismo.

Posted on 02/01/2007 6:11 AM Comments (1)
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