December 25, 2006

Islã

Entrevista

O Islã tal como é

por Daniel Lopes

 

As escolhas para quem quer ler um livro sobre o islã fundamentalista, terrorista, misógino, são muitas, infinitas. Se você procura uma visão da religião fundada por Maomé que vá contra a ideologia do “choque de civilizações”, terá que se esforçar um pouco mais na busca, mas quando encontrar e ler No god but God – the origins, evolution and future of Islam, é provável que a obra, lançada ano passado, lhe baste.

Escrito pelo pesquisador Reza Aslan – iraniano desde 1979 radicado nos Estados Unidos, onde conseguiu um bacharelado e dois mestrados, um deles em Estudos Teológicos pela Universidade de Harvard – o livro (recentemente lançado em paperback pela Arrow Books) traça um alentado percurso pelos caminhos a que se propõe no subtítulo. É uma escrita de rara beleza em uma obra de não-ficção, e, nos vários momentos em que lida com reconstituições de acontecimentos históricos, a qualidade é nada menos que literária. O que, junto com uma abrangente e respeitável bibliografia de apoio, só ajuda na tarefa que o autor se propôs: desconstruir a visão monolítica que grande parte dos ocidentais temos do mundo muçulmano.

Em meio a uma corrida rotina – pesquisador na Universidade do Sul da Califórnia, candidato a um doutorado em História das Religiões na Universidade da Califórnia e colaborador de veículos como New York Times, Washington Post e The Nation – Aslan arrumou tempo para conceder por e-mail uma entrevista a Caros Amigos, onde aborda temas como Irã, Israel, a condição da mulher no mundo muçulmano e o desenvolvimento da democracia no Oriente Médio.

Como é ser um estudioso heterodoxo do Islã nos EUA de G. Bush?
A administração Bush alienou todo o mundo muçulmano com sua beligerância e sua política externa míope. A maioria dos estadunidenses, independente de suas crenças religiosas, deu as costas a este presidente. Entretanto, não há nenhum país no mundo – incluindo o mundo muçulmano – no qual os muçulmanos podem praticar sua fé com mais liberdade e mais abertura do que nos EUA. Aliás, apesar da retórica antiislâmica que freqüentemente se revela em certos setores da sociedade estadunidense, os estadunidenses se orgulham de sua capacidade de inclusão e de seu pluralismo. Hoje, o Islã é a religião mais popular para se estudar nas universidades estadunidenses. É importante entender que os muçulmanos estadunidenses configuram a maior minoria religiosa nos EUA. Há cerca de quatro milhões de muçulmanos a mais do que judeus. Mais do que isso, os muçulmanos estadunidenses estão completamente integrados em todos os níveis da sociedade. De modo que, nos Estados Unidos de George Bush, não sinto qualquer reação violenta contra mim enquanto universitário e ativista muçulmano-estadunidense. Pelo contrário, são pessoas como eu que têm desempenhado um importante papel na tentativa de fazer retroceder a onda de antiamericanismo no mundo muçulmano.

Os conservadores diriam que liberais como você, com pontos de vista tolerantes em relação ao Islã, sempre tiveram um espaço predominante no campo de idéias (mídia e academia), o que eles dizem ter levado a uma subestimação do Islã radical e, em última instância, ao 11 de Setembro. O ponto de vista heterodoxo do Islã é predominante no debate estadunidense hoje?
Primeiro eu gostaria de dizer que o Islã, ao contrário do Cristianismo, não é uma religião de credo. E nem há algo como uma autoridade religiosa centralizada – um papa ou um Vaticano – no Islã, para definir o que é e o que não é islâmico. Certamente existem muitas pessoas que pensam falar pelos muçulmanos de todo o mundo, mas elas não têm autoridade política ou religiosa sobre aquela que é inquestionavelmente a mais diversa e eclética comunidade religiosa que o mundo já viu. Isso dito, simplesmente não é verdade que os chamados moderados ou liberais têm um espaço predominante na sociedade. Universidades não são um espaço predominante; muito pelo contrário. Quanto à mídia nos EUA, sua preocupação prioritária é vender produtos, não distribuir informação. E não é moderação ou liberalismo que vende produto, mas sim violência e medo. E é isso que é entregue pelos radicais e militantes que são a maior parte das vozes muçulmanas na TV estadunidense.

Nos primeiros capítulos de Not god but God, no meio de várias informações e estórias que nos são contadas, uma se sobressai, aquela sobre como os ensinamentos de Maomé foram desvirtuados por uma série de hadiths dos chamados Companheiros, que você identifica como “a primeira geração de muçulmanos”. De que maneira e por que esses homens deturparam as idéias de Maomé?
As hadiths são anedotas orais acerca do profeta Maomé e seus primeiros companheiros. Elas foram transmitidas oralmente por centenas de anos antes de serem finalmente reunidas em duas ou três edições confiáveis. Atualmente existem centenas de milhares de hadiths que dizem ter origem no profeta Maomé, mas que na verdade foram fabricadas pelos sucessores do Profeta para legitimarem suas próprias agendas sociais ou políticas. Na verdade, um grande número dessas hadiths contradiz o Corão, particularmente no que diz respeito ao tratamento dispensado às mulheres. Mas a razão de elas serem tão poderosas é que o Corão, ao contrário do Torá [livrosagrado do Judaísmo], não é um livro de leis. Existem umas poucas passagens tratando de questões legais, mas em sua maior parte o Corão é inadequado para responder às questões que foram levantadas na época em que o Islã se espalhou de uma pequena comunidade na Arábia para ser o maior império que o mundo tinha visto até então. Muitas hadiths foram fabricadas para justificar ações e crenças que já eram inteiramente aceitas e para as quais não havia uma resposta óbvia no Corão. Infelizmente, nos dias de hoje muitos muçulmanos tradicionalistas parecem dar mais ênfase a essas hadiths que ao próprio Corão. Isso vai contra tudo o que o Profeta pregou.

Isso pode nos lembrar de alguma forma a famosa afirmação de Nietzsche no Anticristo, de que “o Evangelho morreu na cruz” junto com Cristo. O autor aborda como Paulo distorceu ensinamentos de Jesus para avançar sua própria agenda. Essa é uma analogia correta?
Sim, é. Nós temos uma tendência para pensar que profetas “inventam” religiões. Nada poderia estar mais longe da verdade. Profetas não criam religiões. Profetas são reformistas que reinterpretam o meio religioso, cultural, social, político e mesmo econômico em que vivem. Moisés não inventou o Judaísmo; ele reformou a religião tribal israelita. Jesus não inventou o Cristianismo; ele reformou o Judaísmo. Buda reformou o hinduísmo. E Maomé, como ele próprio admitiu, nunca criou uma nova religião, mas meramente remodelou o Judaísmo e o Cristianismo para os povos árabes, “um povo sem um livro”. Aos seguidores dos profetas é que é confiada a impossível tarefa de pegar as palavras e os feitos do profeta e, a partir deles, criar uma religião unificada. E é precisamente na institucionalização dessa ideologia que as idéias do profeta às vezes se perdem.

Seria correto afirmar que o Islã é uma religião na qual os seguidores têm um maior sentimento de grupo e de união, mais do que, digamos, nas outras duas grandes religiões monoteístas?
Desde o início, o Islã vê a si mesmo como uma religião comunal. Para explicar de uma maneira fácil: a comunidade é a igreja no Islã. Ela é a fonte de salvação. Parte disso tem a ver com as origens tribais do Islã. Mas mesmo quando o Islã se espalhou para além do mundo árabe, ele tentou desesperadamente manter sua identidade comunal. Isso começou a mudar durante o último século, quando os muçulmanos foram forçados a olhar a si mesmos menos como membros de uma comunidade de alcance global do que como cidadãos de Estados-nação. E criou-se um inflado senso de individualismo que começou a prejudicar essa fé antes quintessencialmente universal. Aliás, essa fragmentação geopolítica levou a um grande racha no mundo muçulmano sobre quem possui a autoridade para definir a fé: as instituições ou os indivíduos.

Então as últimas ações israelenses no Líbano não ajudam muito na boa imagem de Israel no mundo muçulmano, ajudam?
Durante as duas últimas décadas Israel tem trabalhado energicamente para derrotar seus inimigos. Agora é tempo de ele trabalhar melhor para fazer amigos. Se a tendência demográfica de Israel/Palestina não mudar, em cinqüenta anos não haverá mais uma maioria judaica em Israel. As lideranças israelenses devem começar a pensar sobre sua sobrevivência a longo prazo mais do que quaisquer ganhos ou perdas no curto prazo. Há apenas uma maneira de Israel sobreviver no século 21: canalizar todas as suas energias e recursos para garantir que exista um Estado palestino estável e próspero, com muitos empregos, hospitais, livrarias e escolas. Isso é tão importante para a sobrevivência de Israel que deveria ser sua prioridade. Apenas quando os palestinos estiverem bem vestidos, alimentados e abrigados, eles irão parar de olhar Israel como um inimigo.

Você é um iraniano. Qual sua visão do país natal hoje? É ele todo esse amontoado de problemas que vemos nas notícias? Você colocaria Mahmoud Ahmadinejad como um “acidente” ou como um personagem previsível na cena iraniana?
O Irã é uma sociedade extremamente complexa: ao mesmo tempo moderna e tradicional, secular e religiosa. Não há nada de simplista ou monolítico acerca da sociedade ou do governo iranianos. Os iranianos são ferozmente nacionalistas e, ainda que abominem seu governo, não apoiariam nenhuma ameaça à sua soberania. Quase 70% dos iranianos têm menos de trinta anos de idade. Então é inevitável que o Irã segue no caminho para mais democracia e liberdade – se deixado em paz!

Você fala sobre deixar o Irã em paz se o desejamos mais democrático. Você pensa o mesmo de países como Arábia Saudita e Síria? Salameh Nematt, do jornal londrino em língua árabe Al-Hayat, disse em 2004 numa entrevista à Newsweek que “a propaganda de que a democracia [no OrienteMédio] deveria ter origem doméstica, e não ser imposta de fora, é uma piada”, e disse também que as duas primeiras democracias que nós iríamos ter na região, Afeganistão e Iraque, só ocorreriam por conta da intervenção dos EUA.
O Irã não é a Arábia Saudita. Este país está apodrecido desde seu centro de poder e provavelmente entrará em colapso graças à sua própria corrupção, em vez de qualquer ameaça externa. O Irã também não é a Síria, que está sob um severo controle militar. O Irã tem um processo político vivo, uma população politicamente ativa, uma imprensa vibrante e a maioria dos movimentos pelos direitos da mulher do mundo muçulmano. Mas o isolamento do Irã da comunidade internacional arruinou completamente sua economia e fortaleceu a elite clerical não-eleita. Os iranianos precisam de emprego, não de uma intervenção dos EUA. Apenas quando puderem alimentar suas famílias eles irão voltar seus esforços para livrar o país desse odioso regime.

Em seus textos lemos com freqüência que a “exportação da democracia” propagada pelos EUA está fadada ao fracasso, porque o conceito de democracia radicalmente secular não agrada aos muçulmanos. Que tipo de democracia o mundo muçulmano teria a oferecer?
Apenas nos EUA a democracia estadunidense é possível; ela não pode ser isolada das tradições e valores estadunidenses. A democracia não é uma peça única que serve a todos. Ela não pode ser importada; ela deve ser erguida de dentro de um país. O fato é que a vasta maioria dos mais de um bilhão de muçulmanos no mundo aceita os princípios fundamentais da democracia. A maioria dos muçulmanos adequam sem nenhum problema a linguagem da democracia aos termos islâmicos. Ideais tais como representação popular, participação política, sufrágio universal, constitucionalismo, prestação de contas do governo, pluralismo e direitos humanos são amplamente aceitos no mundo muçulmano. O que não é necessariamente aceito, entretanto, é a distinta noção ocidental de que a religião e o Estado devem ser inteiramente separados, de que o secularismo deve ser a base de uma sociedade democrática. Mas uma chamada democracia islâmica não está destinada a ser uma “teocracia”, e sim um sistema democrático baseado numa estrutura moral islâmica, devotada a preservar ideais islâmicos de pluralismo e direitos humanos, e aberto ao inevitável processo de secularização política. O Islã pode até esquivar-se do secularismo, mas não há nada nos valores islâmicos fundamentais que se oponha ao processo de secularização política.

Você também costuma analisar os muçulmanos moderados, liberais. Hoje, eles estão em condições de se contrapor ao poder dos fundamentalistas? E como o Ocidente ajuda ou atrapalha o desenvolvimento de um Islã mais aberto?
A chamada “Guerra ao Terrorismo” fortaleceu os jihadistas e os ajudou a espalhar a propaganda de que o Ocidente, e especialmente os EUA, está conduzindo outra cruzada contra o mundo muçulmano. Claro, foi exatamente esse o propósito dos ataques de 11 setembro de 2001. Por admissão do próprio Bin Laden, os ataques foram especificamente planejados para provocar os Estados Unidos a retaliarem exageradamente contra o mundo islâmico, de modo a mobilizar os muçulmanos a, nas palavras de George W. Bush, “escolherem lados”. Infelizmente isso é exatamente o que aconteceu, à medida que mais e mais muçulmanos se convencem – graças ao Iraque, Guantánamo, Abu Ghraib, etc. – de que a “Guerra ao Terror” é, na verdade, uma guerra contra o Islã. Nesse tipo de ambiente, torna-se muito difícil que vozes moderadas sejam ouvidas acima da cacofonia de violência e extremismo.

Seu livro lida também com o complexo tema do papel da mulher no Islã. Você levanta uma curiosa história acerca daquele que é o símbolo da opressão à mulher, o véu. Conte um pouco sobre as origens do véu e como você vê o atual estado da mulher nas sociedades muçulmanas.
Embora visto como o mais peculiar emblema do Islã, o véu, surpreendentemente, não é usado por muçulmanas em nenhuma passagem do Corão. A tradição de pôr véu e isolar (conhecidas conjuntamente como hijab) foi introduzida na Arábia muito antes de Maomé, principalmente através de contatos árabes com a Síria e o Irã, onde o hijab era um sinal de status social. Afinal de contas, apenas a uma mulher que não precisava trabalhar nos campos poderia ser permitida a permanência em isolamento e com o véu. Entre os muçulmanos não havia uma tradição de se usar o véu até por volta de 627 D.C., quando o chamado “verso de hijab” repentinamente desceu sobre a comunidade. Esse verso, entretanto, era destinado não a todas as mulheres em geral, mas exclusivamente para as esposas de Maomé: “Crentes, não entrem na casa do Profeta... a menos que pedidos. E se forem convidados... não se demorem. E quando forem perguntar algo às esposas do Profeta, o faça por detrás de uma hijab. Isso garantirá a pureza de seus corações bem como os delas” (33:53).

É difícil dizer com certeza quando o véu foi adotado pelo resto da Ummah [comunidade formada por Maomé e seusprimeirosseguidores], embora provavelmente tenha sido muito depois da morte de Maomé. As muçulmanas começaram a vestir o véu provavelmente como uma forma de emular as esposas do Profeta, que eram reverenciadas como “as Mães da Ummah”. Mas o véu não era nem obrigatório nem, tampouco, inteiramente aceito até gerações após a morte de Maomé, quando um grande número de eruditos responsáveis pelas escrituras e pela autoridade legal começaram a usar sua autoridade religiosa e política para retomar o domínio que haviam perdido na sociedade em decorrência das reformas igualitárias do Profeta.
Hoje, o véu é tanto um símbolo da “degradação das mulheres” quanto um que significa a castidade feminina, devoção, e, mais do que tudo, um desafio à imagem ocidental de mulher (dependendo a quem você pergunta). Ambas as imagens são enganosas e simplistas. O véu pode não ser nada disso ou pode ser tudo isso, mas são as muçulmanas que têm de decidir por elas mesmas.

Qual é o futuro do Islã?
O Islã, como todas as grandes religiões, está em constante estado de evolução. Ele sempre está se adaptando a quaisquer situações sociais, políticas ou econômicas em que se encontre. E continuará a ser assim. Acho que nós estamos vendo uma rápida individualização no mundo muçulmano, particularmente entre muçulmanos no Ocidente, que está fadada a ter um forte impacto no futuro da fé. Ainda mais importante é o papel das mulheres muçulmanas em definirem elas mesmas o significado e a mensagem do Islã, ao invés de dependerem dos eruditos. É difícil dizer o que acontecerá. Mas a maré de reforma no Islã não pode ser contida.

 


Posted on 12/25/2006 2:01 PM Comments (1)

Desaviso

Desaviso

Marilene Felinto

O homem mais alto do mundo e os homens mais gordos da televisão

Numa sociedade regida por princípios quantitativos, o realismo numérico é ferventado a todo instante pela mídia (para usar uma idéia do crítico Fábio Lucas). A televisão, por exemplo, é povoada por elementos, indivíduos e situações inspiradas nesse princípio dos “recordes” numéricos (de peso, de altura, de distância, de velocidade etc.). Basta analisar a coleção de homens obesos ou quase obesos que desfila por telejornais e programas de “entretenimento” nas redes de televisão nacionais: Faustão e Jô Soares são apenas espécimes clássicos (da Rede Globo). Seguem-se a eles Datena e Gilberto Barros, da Rede Bandeirantes, e Luciano Faccioli, da Rede Record, para citar os que mais aparecem. Como profissionais (do jornalismo ou do showbiz, que uma coisa aqui já não se dissocia da outra) são mais ou menos medíocres, e tudo indica que aparecem mais pelo excesso de gordura do que pelo “serviço” que prestam.

Outro dia, no início de novembro, juntaram-se numa única cena – algo grotesca – o apresentador Jô Soares, que se vende corporalmente na mídia como “o gordo”, e o chamado “homem mais alto do mundo”, assim apelidado por uma dessas bíblias da imbecilidade contemporânea, o tal “livro dos recordes” ou Guinness World Records. Nada sobraria do que teria sido uma entrevista do apresentador com o tal homem mais alto do mundo, o chinês Xi Shun, 55 anos e 2,36 metros de altura: Jô Soares, por meio de sua veia cômica de baixa extração, não fez outra coisa senão ressaltar, a golpes de sensacionalismo, o ridículo a que estavam expostos o homem gigante, mercadoria do Guinness que perambulava mundo afora divulgando a tal bíblia e um tal “Dia Mundial dos Recordes” (9 de novembro!) e ele próprio, “o gordo”.

Nada de interesse foi perguntado ao chinês na pseudo-entrevista: se sua altura insólita era coisa de família, questão de genética, se seus parentes eram igualmente altos, se a altura lhe causava algum problema físico (que explicasse a bengala que usava, por exemplo). Na entrevista onde tudo era falso – o chinês, que não falava uma única palavra em português e dependia de uma intérprete, permaneceu o tempo todo alheio às piadas de mau gosto do apresentador –, sobressaíam a deformidade apenas, as formas distorcidas do espetáculo grotesco. Afinal, no universo do grotesco, destaca-se aquilo que se presta ao riso ou à repulsa por seu aspecto inverossímil, bizarro, estapafúrdio ou caricato. Trata-se da visualização do monstruoso, do insólito, do ridículo, do extravagante e do kitsch.

Por que se exibem tantos homens gordos na televisão se não por isso, se não como elemento da espetaculosidade banal que configura este meio de comunicação cheio de falsas sugestões? Não seria mera coincidência. E não se trata de os gordos estarem na contramão da vocação narcísica sob a qual o sentido da vida é buscado, na esfera estética, na beleza produzida nos laboratórios, nas academias de ginástica, nos regimes de alimentação e nas cirurgias plásticas. Não – trata-se da mesma vocação ao inverso. Trata-se, além do mais, de um reforço no ideário machista de que homem pode ser qualquer coisa, fazer qualquer coisa e aparecer de qualquer jeito: até mesmo como o “gordo” grotesco. Ora, por que não se exibem mulheres balofas na televisão, nos telejornais, nos programas de “variedades”? Pelo motivo óbvio de que está consumada no mercado de mídia a idéia de que mulher é objeto sexual e tem, portanto, que aparecer como tal – quando não anoréxica e bulímica, os quase-cadáveres dos desfiles de moda.

Este comentário não tem nenhuma intenção preconceituosa contra gordos. O que se diz aqui é que a presença específica de homens obesos nas redes de televisão nacionais tem a ver com o fato de a imagem gorda deles combinar com a concepção de “consumo” e “devoração” em que se funda a mídia hoje – “devorar” no sentido mesmo de destruir rápida e completamente, de apoderar-se, de usurpar.

É antes por seu peso e tamanho físico que o apresentador-jornalista Luciano Faccioli, da Rede Record, é homem de televisão. Não é por excelência profissional. No telejornal matinal São Paulo no Ar, o apresentador dá um show de obviedade piegas nos comentários e análises descabidas do noticiário que apresenta. Para não falar da espetacularidade perversa operada por Datena (Brasil Urgente, Rede Bandeirantes) à custa da exploração da violência no universo das classes pobres. Para não falar de outra nulidade chamada Gilberto Barros (Boa Noite Brasil, Rede Bandeirantes).

Num conto antológico e genial chamado “A Menor Mulher do Mundo” (em Laços de Família, 1960), a escritora Clarice Lispector esgotou essa característica de apropriação devoradora da mídia que transforma pessoas em exóticas notícias de jornal ou televisão (como Jô Soares fez com “o homem mais alto do mundo”). 

A narrativa de Clarice vai apresentando o processo de “devoração” de que é vítima a personagem “Pequena Flor”, a menor mulher do mundo, descoberta “nas profundezas da África Equatorial” pelo explorador Marcel Pretre. “No Congo Central descobriu realmente os menores pigmeus do mundo. E (...), entre os menores pigmeus do mundo, estava o menor dos menores pigmeus do mundo.” Era uma mulher, que estava grávida, e a quem o explorador apelidou de “Pequena Flor”: “Marcel Pretre defrontou-se com uma mulher de quarenta e cinco centímetros, madura, negra, calada”. Todo o conto é a expressão do contraditório sentimento de amar sem devorar nem ser devorado: “E então ela estava rindo (...). E ela continuou fruindo o próprio riso macio, ela que não estava sendo devorada. Não ser devorado é o sentimento mais perfeito. Não ser devorado é o objetivo secreto de toda uma vida”.

Primeiro conta-se como a raça de Pequena Flor estava sendo aos poucos exterminada, a devoração real: “Sua raça de gente está aos poucos sendo exterminada. (...) Os bantos os caçam em redes, como fazem com os macacos. E os comem. Assim: caçam-nos em redes e os comem. A racinha de gente, sempre a recuar e a recuar, terminou aquarteirando-se no coração da África, onde o explorador afortunado a descobriria”.

Num segundo momento, Pequena Flor é vítima de uma devoração simbólica: a de seu aparecimento num veículo de imprensa. “A fotografia de Pequena Flor foi publicada no suplemento colorido dos jornais de domingo, onde coube em tamanho natural. Enrolada num pano, com a barriga em estado adiantado. O nariz chato, a cara preta, os olhos fundos, os pés espalmados. Parecia um cachorro.” Pequena Flor é então vítima da reação da gente gorda que a vê no jornal e quer também comê-la, apoderar-se dela, usurpá-lá. Em uma casa, um menino leitor diz à mãe perplexa diante da foto da menor mulher do mundo:

“– Mamãe, se eu botasse essa mulherzinha africana na cama de Paulinho, enquanto ele está dormindo? Quando ele acordasse, que susto, hein! Que berro, vendo ela sentada na cama! E a gente então brincava tanto com ela! A gente fazia ela o brinquedo da gente, hein!”

 

Marilene Felinto é escritora.


Posted on 12/25/2006 1:57 PM Comments (0)
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