June 27, 2006A incrivel historia do garoto que não podia ser tocado
A incrível história... do garoto que não podia ser tocadoJoão Scarpelini Paul Raj passou 21 anos sem ser abraçado por ninguém pela simples razão de ter nascido numa casta que, na Índia, representa a ESCÓRIA DA SOCIEDADE. Ele e sua família eram considerados impuros e ninguém ousava tocá-los
Paul Raj tinha 18 anos quando seu professor de sociologia entrou na sala de aula, desenhou uma pessoa na lousa e começou a explicar a estrutura de castas da sociedade na Índia - seu país de origem. A cabeça (Brahmim) representa os religiosos; os braços (Veishya) são os guerreiros e militares; os joelhos (Kshathriya) representam os nobres e os ricos; os pés (Shudra) são os fazendeiros e comerciantes. A poeira sob os pés não pertence às castas mas também tem um nome: são os párias, os chamados Intocáveis. Eles formam a escória da sociedade indiana. São considerados impuros e, por isso, ninguém ousa nem ao menos encostar neles. Foi só ao ouvir aquilo que Paul finalmente entendeu dezenas de episódios da sua vida. "Me lembro uma vez em que estava trabalhando na cozinha e vi uma barata caindo na panela do molho. Eu gritei e meu supervisor logo apareceu. Ele tirou a barata da panela com a mão, tampou e me mandou servir para as outras crianças sem contar nada sobre o ocorrido. Eu não disse nada porque todas as crianças que questionavam ou reclamavam eram expulsas do orfanato", conta Paul. Quando chegaram à casa de Paul, os amigos não entendiam porque a família se recusava a freqüentar lugares públicos ou a conversar com as pessoas que passavam na rua, mas Paul desconversava quando eles perguntavam alguma coisa. Ele ainda não tinha certeza de que os amigos iriam aceitar a situação. "Só que, durante o jantar, minha mãe, que estava muito feliz com a presença deles, agradeceu a todos por serem meus amigos mesmo nossa família sendo de intocáveis. Na hora, senti que meu mundo estava desmoronando." "Uma vez, meu colega brahmim, o mesmo que havia ido embora da minha casa quando descobriu minha origem, organizou uma festa e convidou todos os 67 alunos da sala, menos a mim. Todos estavam empolgados com a festa, mas quando Shilpa soube que eu não havia sido convidado, foi perguntar a ele por que, na frente de todos. Ele disse que não me convidou porque eu era um intocável e ela disse que, sendo assim, também não iria. Para minha surpresa, várias outras pessoas também decidiram, naquele momento, que não iriam à festa". E essa não foi a única vez que Shilpa se sacrificou por Paul. "Lembro como fiquei impressionado com o banheiro. Era como uma casa para mim: você pode guardar coisas dentro e ainda tem água à vontade", diz já mais acostumado ao ambiente e aos banhos - ele demorou uma semana para ter coragem de entrar debaixo do chuveiro. "No primeiro banho, não sabia nem como ligar o chuveiro. Depois, me senti tomando banho em uma cachoeira, mal podia acreditar que aquilo estava acontecendo dentro de uma casa."
Posted on 06/27/2006 3:33 AM Comments (0)
June 6, 2006A esquerda e a CulturaA esquerda e a culturaAmigo e colaborador do ’Le Monde Diplomatique’, Manuel Vázquez Montalbán, grande escritor e militante que lutou permanentemente contra as injustiças e desigualdades sociais, morreu no dia 18 de outubro do ano passado. Em homenagem a seu talento e seu compromisso político, publicamos este texto inédito, parte de uma Conferência realizada em Alicante, em 2001Enquanto patrimônio, a cultura é um longo rio cujas águas envolvem uma determinada geração de seres humanos, e lhes transmite valores morais e estéticos, ideologias, história, códigos e símbolos...Enfim, um rico patrimônio elaborado por seus ancestrais que as novas gerações recebem quando existe um ponto de passagem e encontro possível entre este tesouro e o receptor dessa enorme oferenda. Os revolucionários sempre questionaram o passado e estabeleceram uma certa distância em relação a este patrimônio, considerando-o como produto das antigas classes dominantes, derrotadas na luta pelo poder e que até ali detinham o controle da história. Assim agiram na revolução francesa e na revolução de outubro: colocaram em quarentena a cultura herdada acusando-a de ser feudal, de pertencer à classe derrotada. Na revolução soviética, sem dúvida a mais radical de todos os tempos, acontece a famosa polêmica entre “cultura proletária” e “cultura de classe”. Alguns teóricos da revolução sustentam a tese da política de fazer tabula rasa e erradicar a herança de seus ancestrais e substituí-la pela cultura da nova classe proletária. A “cultura humana”Os revolucionários sempre questionaram o passado e estabeleceram uma certa distância em relação ao patrimônio cultural, considerando-o como produto das antigas classes dominantesLeon Trotsky, com uma vontade indomável de salvar o patrimônio cultural coloca-se pessoalmente contra essa posição. E afirma que a cultura, exatamente por causa da mudança política, deixava de ser uma «cultura burguesa » para se tornar uma « cultura humana ». Portanto, a revolução deveria agir de maneira que seus valores fossem assimilados pelo conjunto do povo para iniciar uma nova era histórica. Eis o início da solução de um problema. O caráter reacionário do patrimônio cultural não está no patrimônio, mas na maneira como ele é usado pelas forças reacionárias e a impossibilidade dele ser assumido pela maioria da sociedade. Entretanto, é possível mudar isso ao utilizar simples medidas como criar bibliotecas para a expansão do hábito da leitura; um sério programa de vulgarização das artes que favoreça sua pratica e sua difusão; uma política que derrube as barreiras da concepção de cultura como mercadoria que impede um determinado setor social de usufruí-la. Em seguida, temos a cultura como consciência, sua forma mais onipresente. A partir do instante em que estejam conscientes de sua situação e de suas relações com seus congêneres e com a natureza, todos os seres humanos têm uma cultura. Desta constatação emana uma série de concepções culturais. Tudo aquilo que é consciência do ser, da existência, das relações com o mundo e com o outro. É por isso que ousar fazer uma distinção entre aqueles que têm e aqueles que não têm cultura é dar prova de uma arbitrariedade e de um analfabetismo intoleráveis. Cultura: modos de usarToda política cultural da esquerda deveria passar pela assimilação, sem limite, da cultura patrimonial. Em seguida, pela promoção do papel transformador da consciência criticaToda pessoa capaz de ter consciência daquilo que ela é e do que ela faz e, sobretudo, do papel que tem nas relações com o outro, possui uma cultura. Ninguém pode ser excluído do reinado da cultura. Diante destas duas concepções – cultura como patrimônio, cultura como consciência – está o tradicional exercício de duas políticas, duas tentativas de manipulação política. Por um lado, a política cultural da reação consiste em açambarcar a cultura-patrimônio e a cultura-consciência, incorporá-las a um conjunto de verdades estabelecidas e fazer do acesso à cultura uma maneira de se integrar, de estabelecer um processo de comunhão com a ordem estabelecida. Esta política, na melhor da hipóteses, fez da cultura um meio de integração, mas também propicia a sua mutilação, permite o seu controle ditatorial, quando não a sua destruição, a sua falsificação ou a sua mistificação, sobretudo em períodos fascistas. Em geral, as forças progressistas partem de uma tomada de consciência e, portanto de uma posição critica que questiona a ordem estabelecida e tem como propósito modificá-la. Isto se aplica à cultura como consciência. Por outro lado, no que se refere à cultura-patrimônio a esquerda tem evitado dela se assenhorear para tentar enquadrá-la por suas próprias motivações. Assimilação e críticaA cada época corresponde uma tradição cultural que se choca com a consciência crítica do momento; e deste choque emana a possibilidade de uma continuidadeToda política cultural da esquerda deveria primeiramente passar pela assimilação, sem limite, da cultura patrimonial. Em seguida, pela promoção do papel transformador da consciência critica. E finalmente, pela analise da maneira pela qual uma política cultural progressista deve considerar a promoção de uma consciência de classe como uma forma superior de cultura. Ter consciência que uma política cultural deve considerar o grau de desenvolvimento da dinâmica histórica dentro de uma concepção global de progresso, obriga a esquerda fazer um esforço gigantesco: o questionamento do conceito de progresso. Cornelius Castoriadis afirmava que nossa época deveria escolher entre «socialismo ou barbárie ». Ao impor essa escolha, coloca em relação duas culturas diferentes, duas concepções opostas da relação histórica que engloba os sistemas de organização da vida, de produção, das relações humanas. Um baseado no lucro, no sucesso das conquistas materiais para as minorias dirigentes e os setores dominantes. O outro baseado no socialismo, estabelecido como racionalização diante dessa barbárie, e criando novas relações humanas, uma nova cultura, a possibilidade de uma nova autonomia do homem na realidade. O socialismo se apresenta como uma verdadeira encruzilhada para onde convergem todos os parâmetros que dão sentido à circulação da cultura. A essência da culturaA reivindicação da paz é revolucionária porque é a favor da mudança. A paz aposta nas energias criativas do homem, na sua liberdade de expressão, de realização, de transformaçãoT.S. Elliot, excelente poeta de direita, descreveu o que significa cada situação cultural. Para o homem contemporâneo, compreender que o fato cultural se perpetua, que continua a partir de uma troca dialética entre a tradição e a revolução, é a própria essência da cultura. A cada época corresponde uma tradição cultural que se choca com a consciência crítica do momento; e deste choque entre o patrimônio cultural que herdamos e a consciência crítica emana a possibilidade de uma continuidade. Elliot identificou este mecanismo na compreensão da cultura e nós devemos agradecê-lo por isso. Defendendo uma cultura relacionada ao progresso, as forças progressistas, em geral, assumem a tradição e, em conseqüência, o patrimônio cultural; e ao se colocarem a favor da revolução, estabelecem uma consciência critica em relação a esse patrimônio cultural. Mas para chegar até isso, devem oferecer ao mundo uma visão baseada em uma idéia fundamental, próxima da escolha « socialismo ou barbárie »: a necessidade de sobreviver às tendências destrutivas. Uma vez ganha a luta pela sobrevivência- primeiro objetivo- uma cultura da igualdade, que não buscará uniformizar, mas assegurar a satisfação das necessidades, entre elas as culturais, de todos os seres humanos, será o segundo objetivo. Luta contra a alienaçãoO terceiro objetivo será uma cultura de liberação, de luta contra a alienação, não no sentido marxista (segundo a qual o homem desprovido dos meios de produção, não possui aquilo que ele fabrica, fica afastado do produto que criou), mas no sentido mais amplo do termo: a liberação das tendências aos cultos negativos, às comunhões obscurantistas que anulam toda a capacidade crítica. A desalienação no sentido da liberdade de condutas coletivas como também individuais no campo da política, moral ou sexual. O quarto objetivo é a reivindicação da paz como valor cultural supremo. É indispensável denunciar a guerra como valor ideológico contra-revolucionário. A ameaça de guerra busca estabelecer uma cultura de medo, que paralisa as consciências, fazendo-as mais conservadoras. A reivindicação da paz, ao contrário, é revolucionária porque é a favor da mudança. A paz aposta nas energias criativas do homem, na sua liberdade de expressão, de realização, de transformação. As forças do progresso são majoritárias e quando forem conscientes, os partidários de uma ordem arcaica ficarão isolados. A esquerda deve lutar em duas frentes. Defender sua própria consciência e lutar contra esse medo que procuram nos transmitir como valor cultural supremo. Para que os patrimônios culturais permaneçam à disposição da imensa maioria...(Trad.: Celeste Marcondes)
Posted on 06/06/2006 5:53 PM Comments (2)
Ocupação no Iraque![]() Aconteceu em HadithaComo foi cometido (e acobertado...) o massacre que pode mudar o destino da guerra no Iraque. O que ele revela sobre a ocupação, os EUA, a democracia e o controle do imaginárioNem a história da guerra do Iraque, nem a imagem que o mundo tem dos EUA (e eles, de si próprios) serão as mesmas, depois de Haditha. Na manhã de 19 de novembro de 2005, praticou-se um massacre, nesta pequena cidade cercada de palmeiras e debruçada às margens do Rio Eufrates. Depois de sofrerem uma baixa [1], causada por explosão de uma bomba, os soldados da Companhia Kilo, do US Marine Corps [2] decidiram vingar-se contra a população civil. Vinte e quatro pessoas foram assassinadas a sangue-frio. Nenhuma delas esboçou qualquer gesto que pudesse representar ameaça aos marines. Entre as vítimas estão sete mulheres, três crianças, um bebê de um ano e um ancião cego e aleijado, em sua cadeira de rodas. A vingança prolongou-se por cinco horas, o que exclui a hipótese (igualmente brutal) de um acesso de cólera, provocado pela morte do colega de armas. Ao invés de punirem a selvageria, os oficiais que comandavam os soldados a acobertaram. Dois relatórios militares criaram versões fantasiosas para os fatos. O primeiro, de autoria dos próprios autores do massacre, atribui as 24 mortes à explosão que matou o soldado (supostas 16 vítimas) e a fictícia “troca de tiros” com “insurgentes” (outras 8). O segundo é mais grave e perturbador. Foi produzido em fevereiro, após surgirem sinais de que os fatos haviam vazado. Um coronel de infantaria deslocou-se a Haditha e fez, durante uma semana, dezenas de entrevistas – inclusive com testemunhas oculares dos crimes. Embora desconstrua a primeira mentira, seu relatório esconde o essencial – os assassinatos. Trata as mortes como... “danos colaterais” da guerra. Ao invés de esclarecer, o documento lança uma terrível pergunta: quantos episódios semelhantes terão sido abafados, no Iraque, ao serem classificados com tal rótulo, cada vez mais freqüente no jargão das guerras “modernas”? Quando o acobertamento é vazado Duas tendências também contemporâneas – a câmera digital barata e as redes de ONGs – permitiram que, em Haditha, a história fosse diferente. Um dia depois da chacina, o estudante de jornalismo Taher Thabet filmou alguns dos corpos e as quatro casas onde foram mortas 19 das vítimas. Thabet mostrou paredes internas, tetos e pisos estourados por rombos de balas e salpicados por jatos de sangue. Teve o cuidado de filmar, também, as fachadas – intactas – das construções. Demonstrou que não houvera combate: os soldados entraram sem resistência e atiraram. As circunstâncias em que as vítimas foram mortas são tenebrosas. [3] . O estudante de jornalismo enviou o vídeo ao Grupo Hamurabi de Direitos Humanos, que tem sede no Iraque e se articula com o Human Righs Watch, dos EUA. O documento chegou à revista Time. Os repórteres Tim McGirk e Aparisim Ghosh foram ao local dos fatos e investigaram durante oito semanas. Em 27 de março, a revista publicou One morning in Haditha, um texto que, embora em tom ainda inconclusivo, revela todos os fatos essenciais do massacre. Tem início então uma sucessão de fatos contraditória e complexa, muito reveladora sobre a natureza do sistema político e o controle do imaginário, nos Estados Unidos. As instituições da política se movem. O departamento de Defesa abre dois novos inquéritos. O Congresso instala comissões que as acompanham. Os militares exasperam-se tentando responder aos questionamentos feitos por estas. A própria publicação da reportagem revela, aliás, que a liberdade de expressão ainda encontra brechas, no mundo das comunicações oligopolizadas. Mas este jogo democrático não abala o controle que os grupos hegemônicos exercem sobre os símbolos que movem a sociedade. Não há uma comoção nacional comparável, por exemplo, à que se produz no Brasil, com o massacre de Eldorado de Carajás – para não falar nos shows midiáticos em que se transformam as CPIs. Durante nove semanas, tudo se desenrola a frio, em gabinetes. Os fatos não chegam às TVs, não repercutem em outras publicações, não são retomados sequer por Time. Na internet, chama atenção a ausência do filme de Thabet. O momento em que a tensão se rompeNum caso chocante como este, em algum momento a tensão entre democracia e controle sobre o imaginário terá de se resolver. O momento de desenlace foi aberto no final de maio. Aparentemente, a Casa Branca e as correntes que apóiam a guerra prepararam-se para reduzir ao máximo seus possíveis efeitos. Devido à gravidade dos fatos, não é, contudo, algo cujo desfecho esteja definido. A sorte começou a ser jogada no final de maio e ainda não está definida em 6 de junho, momento em que este texto foi revisado. Em 26/5, o New York Times revelou que um dos novos inquéritos abertos pelo Pentágono após a reportagem de Time estava próximo ao fim. O coronel Gregory Watt, seu condutor, havia apurado que muitos dos mortos em Haditha morreram com tiros na cabeça e no peito, típicos de chacina. Também havia apontado o sargento Frank Wuterich como um dos protagonistas dos crimes. Em 31/5 – exatos 64 dias depois de os fatos se tornarem públicos... – o presidente George Bush foi inquirido pela primeira vez sobre o tema, numa entrevista coletiva. “Se as leis foram violadas, haverá punição”, limitou-se a responder. Em 1/6, numa medida típica de relações públicas (mas que teve enorme repercussão, em todo o mundo), o general George Casey, comandante-geral das tropas dos EUA no Iraque, anunciou (sem oferecer qualquer dado complementar) que os soldados norte-americanos seriam agora submetidos a “treinamento” sobre “valores essenciais". Três anos depois de mergulhados numa guerra sangrenta, eles teriam finalmente a oportunidade de “refletir sobre os valores que nos separam de nossos inimigos”... A operação não foi suficiente para neutralizar o potencial explosivo dos fatos. Ao contrário: em 2/6, surgiram duas novas denúncias. Um outro massacre teria ocorrido, em Ishaqui (80 quilômetros a norte de Bagdá), em março – e, neste caso, parece haver imagens. Num terceiro episódio, sete marines e um oficial estariam sendo acusados de assassinato, seqüestro e conspiração, cometidos em abril. “Parece que o assassinato de civis iraquianos está se transformando num fenômeno diário", afirmou o presidente da Associação de Direitos Humanos do Iraque, Muayed al-Anbaki, após assistir ao novo vídeo. Dois dias mais tarde, um texto do Washington Post sustentava que Bush sabia dos fatos desde o início de março; e sugeria que uma das questões cruciais era investigar até onde tinha se estendido a rede de autoridades envolvidas no acobertamento do massacre, antes da publicação da reportagem do Time. Dois pontos muito vulneráveisNo caso Haditha, além deste, há dois pontos vulneráveis ao extremo. O primeiro são duas séries de fotos feitas após os assassinatos. Com exceção de algumas (uma é a que ilustra esta matéria), as imagens permanecem sob censura, acessíveis apenas às comissões de inquérito do Pentágono. A primeira série retrata os corpos dos iraquianos já ensacados. A segunda teria sido feita pelos próprios soldados, momentos após cometerem a chacina. Mostraria, por exemplo, um pai de família atingido enquanto rezava, diante do Corão. O segundo ponto vulnerável é a punição – e, pior, o julgamento – dos assassinos. Eles foram identificados, a crer no New York Times. Segundo as leis norte-americanas, pode-se aplicar, no caso de assassinato cometido em tempo de guerra, a própria pena de morte. Qual seria a repercussão midiática (e política) de um júri militar, no qual cidadãos norte-americanos podem ser executados por atos cometidos em uma guerra que o Estado quer levar adiante, mas a maioria já rejeita? E no exterior: como prosseguir com o julgamento de Saddam Hussein, que pode ser condenado à morte precisamente porque seus soldados teriam promovido a execução de civis inocentes? O que estamos fazendo no Iraque? Após 27 meses de ocupação americana e da escalada de violência e mortes que acarreta por todos os lados, a guerra inventada por Bush segue vitimando também os norte-americanos, sua juventude, suas liberdades e seu modo de viverO Iraque não é um país libertado, e sim um país ocupado. Isto é uma evidência. O termo "país ocupado" tornou-se familiar a nós durante a Segunda Guerra Mundial. Falávamos então de "França ocupada pelos alemães, de Europa sob ocupação alemã". Depois da guerra, falamos da Hungria, da Checoslováquia e do Leste Europeu ocupados pelos soviéticos. Os Nazistas e os Soviéticos ocuparam muitos países. Nós os libertamos dessas ocupações. Agora, os ocupantes somos nós. Certamente libertamos o Iraque de Saddam Hussein, mas não de nós. Do mesmo modo como libertamos Cuba, em 1898, do jugo espanhol, mas não do nosso. A tirania espanhola foi vencida, mas os Estados Unidos transformaram a ilha em base militar, como o que estamos fazendo no Iraque. As grandes companhias americanas implantaram-se em Cuba, como a Bechtel, a Halliburton e as empresas petrolíferas se instalam no Iraque. Os Estados Unidos redigiram e impuseram, com cúmplices locais, a Constituição que deveria reger Cuba, exatamente como nosso governo elaborou, com a ajuda de grupos políticos locais, uma Constituição para o Iraque. Não, isso não tem nada de libertação. É ocupação mesmo. E é uma ocupação suja. Já em 7 de agosto de 2003, o New York Times relatava que o general americano Ricardo Sanchez, em Bagdá, "preocupava-se" com a reação iraquiana diante da ocupação. Os dirigentes iraquianos pró-americanos apresentaram-lhe uma mensagem que ele nos retransmitiu: "Quando vocês prendem um pai na presença de sua família, cobrem-lhe a cabeça com um saco e fazea-no ajoelhar-se, vocês atingem pesadamente, aos olhos de sua família, sua dignidade e respeito." (nota particularmente perspicaz). Humilhação e violênciaAgora, os ocupantes somos nós. Certamente libertamos o Iraque de Saddam Hussein, mas não de nós. Do mesmo modo como libertamos Cuba, em 1898, do jugo espanhol, mas não do nossoA rede CBS News relatava já em 19 de julho de 2003, bem antes da descoberta dos casos confirmados de torturas na prisão de Abu Graib em Bagdá: "A Anistia Internacional está examinando um certo número de casos de presumidas torturas cometidas no Iraque pelas autoridades americanas. Dos quais um é o caso Khaisan Al-Aballi. A casa de Al-Aballi foi arrasada por soldados americanos que apareceram atirando por todos os lados; prenderem Al-Aballi e também seu velho pai, de 80 anos. Eles acertaram e feriram seu irmão... os três homens foram levados... Al-Aballi diz ter declarado a seus sequestradores: "Nao sei o que vocês querem. Não tenho nada." "Eu pedi a eles que me matassem", conta Al-Aballi. "Oito dias depois, eles o deixaram ir, acompanhado de seu pai... Os oficiais americanos não responderam aos inúmeros pedidos que lhes foram feitos para discutir esse assunto..." Sabe-se que três quartos da cidade de Falluja (360 000 habitantes) foram destruídos e que centenas de seus habitantes foram mortos durante a ofensiva americana de novembro de 2004 deflagrada sob o pretexto de limpar a cidade dos bandos terroristas que teriam agido dentro de uma "conspiração baathista”. Mas esquecemos que em 16 de junho de 2003, nem um mês e meio depois da "vitória" no Iraque e da "missão cumprida" proclamada pelo presidente Bush, dois repórteres da rede Knight-Rider tinham escrito sobre a zona de Falluja: "Ao longo dos cinco últimos dias, a maior parte dos habitantes desta região afirmaram que não havia conspiração alguma, baathista ou sunita, contra o exército americano mas homens prontos para lutar porque seus parentes tinham sido feridos ou mortos ou eles mesmos tinham sofrido humilhações durante revistas ou barreiras de rua... Uma mulher declarou, depois da prisão de seu marido por causa de caixotes de madeira vazios que eles tinham comprado para (fazer fogo) para se aquecer, que os Estados Unidos eram culpados de terrorismo." Esses mesmos repórteres afirmavam: "Residentes de Agilia – uma aldeia ao norte de Bagdá – alegaram que dois camponeses de lá e mais cinco de uma aldeia vizinha foram mortos por tiros americanos quando estavam tranquilamente regando suas plantações de girassóis, tomates e pepinos". Soldados nervosos e amedrontadosO mais monstruoso dessas mentiras é que qualquer ato cometido pelos Estados Unidos deve ser perdoado porque estamos envolvidos numa "guerra contra o terrorismo"Os soldados enviados a este país – a quem haviam dito que as pessoas os acolheriam como libertadores – e que se vêem cercados por uma população hostil, tornaram-se medrosos, estão deprimidos e puxam o gatilho facilmente, como se viu na libertação, em Bagdá, da jornalista italiana Giuliana Sgrena, em março de 2005, quando o oficial italiano dos serviços de informação Nicola Calipari foi abatido na barreira por soldados americanos nervosos e amedrontados. Lemos os relatos de GIs furiosos por serem mantidos no Iraque. Um repórter da rede ABC News no Iraque declarou recentemente que um sargento o tinha chamado em particular para dizer-lhe: "Eu tenho minha própria lista dos mais procurados" (Most wanted list). Ele aludia ao famoso baralho publicado pelo governo americano, representando Saddam Hussein, seus filhos e outros membros do regime baathista iraquiano: "Os ases do meu baralho – dizia ele – são George Bush, Dick Cheney, Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz". Tais sentimentos, assim como os de muitos desertores que se recusam a voltar ao inferno do Iraque depois de uma licença em casa, são agora conhecidos do público americano. Em maio de 2003, uma pesquisa de opinião anunciava que só 13% dos americanos pensava que a guerra estava indo por um caminho ruim. Em dois anos, as coisas mudaram radicalmente. Segundo uma pesquisa publicada sexta-feira, 17 de junho de 2005 pelo New York Times e a rede CBS News, 51% dos americanos acham agora que os Estados Unidos não deviam ter invadido o Iraque e não deviam ter começado esta guerra. Agora 59¨% desaprovam a gestão do presídente Bush da situação no Iraque. E me parece interessante notar que as pesquisas realizadas entre a população afro-americana revelaram constantemente uma oposição de 60% à guerra no Iraque. A ocupação dos EUAEsperemos para ver os efeitos do urânio empobrecido sobre nossas moças e jovens enviados ao IraqueMas existe uma ocupação de pior augúrio ainda que a do Iraque, é a ocupação dos Estados Unidos. Eu me levantei hoje de manhã, li o jornal e tive a sensação de que estávamos mesmo em um país ocupado, que uma potência estrangeira nos tinha invadido. Esses trabalhadores mexicanos que tentam atravessar a fronteira – arriscando a vida para escapar dos funcionários da imigração (na esperança de alcançar uma terra que, cúmulo da ironia, pertencia a eles antes dos Estados Unidos dela se apoderarem em 1848) – esses trabalhadores não são estrangeiros aos meus olhos. Esses 20 milhões de pessoas que vivem nos Estados Unidos, que não têm o estatuto de cidadãos e que em consequência e em virtude do Patriot Act (a lei Patriota), são suscetíveis de serem jogados fora de suas casas e detidos indefinidamente pelo FBI, sem direito constitucional algum – essas pessoas, para mim, não são estrangeiras.. Ao contrário, o grupúsculo de indivíduos que tomou o poder em Washington (George W. Bush, Richard Cheney, Donald Rumsfeld e o resto da camarilha), esses sim, são estrangeiros. Eu acordei dizendo a mim mesmo que este país estava nas garras de um presidente que foi eleito uma primeira vez, em novembro de 2000, em circunstâncias que se conhece, graças a todo tipo de trapaça na Flórida e por uma decisão do Supremo Tribunal. Um presidente que continua, depois de sua segunda eleição em novembro de 2004, cercado de "falcões" de terno que não se preocupam com a vida humana nem aqui nem em lugar nenhum, cuja menor preocupação é a liberdade, aqui ou em outro lugar e que se lixam para o que será da Terra, da água, do ar e do mundo que deixaremos a nossos filhos ou netos. Muitos americanos se põem a pensar, como os soldados do Iraque, que alguma coisa está errada, que este país não se parece com a imagem que fazemos dele. Cada dia traz sua dose de mentiras à praça pública. O mais monstruoso dessas mentiras é que qualquer ato cometido pelos Estados Unidos deve ser perdoado porque estamos envolvidos numa "guerra contra o terrorismo". Passando por cima do fato de que a própria guerra é terrorismo; que chegar na casa das pessoas, levar os membros de uma família e submetê-los à tortura é terrorismo, que invadir e bombardear outros países não nos traz mais segurança, muito pelo contrário. O sofisma de RumsfeldA pretensa "guerra contra o terrorismo" não é somente uma guerra contra um povo inocente em um país estrangeiro, mas uma guerra contra o povo dos Estados UnidosTem-se uma pequena idéia do que o governo entende por "guerra contra o terrorrismo" quando lembramos da célebre declaração feita pelo secretário americano da defesa, Donald Rumsfeld (um dos "mais procurados " da lista do sargento), quando ele se dirigiu aos ministros da OTAN, em Bruxelas, na véspera da invasão do Iraque. Ele explicou então as ameaças que pesavam sobre o Ocidente (imaginem – ainda falamos do "Ocidente" como uma entidade sagrada, enquanto que os Estados Unidos, que fracassaram em arrebanhar para seu projeto de invasão do Iraque vários países da Europa (entre os quais a França e a Alemanha), tentava cortejar a qualquer preço os países do Leste persuadindo-os de que nosso único objetivo era libertar os iraquianos como os havíamos libertado, a eles, do domínio soviético). Rumsfeld, então, explicando quais eram essas ameaças e porque eram "invisíveis e não identificáveis", pronunciou seu sofisma imortal: "Há coisas que conhecemos. E há outras que sabemos não conhecer. Quer dizer que há coisas que sabemos que, no momento, não conhecemos. Mas há também coisas desconhecidas que não conhecemos. Há coisas que não sabemos que não conhecemos. Em resumo, a ausência de provas não é a prova de uma ausência... Não ter a prova de que alguma coisa existe não quer dizer que temos a prova de que ela não existe." Felizmente Rumsfeld está aí para nos esclarecer. Isto explica porque a administração Bush, incapaz de capturar os autores do atentado de 11 de setembro continuou seu ataque, invadiu e bombardeou o Afeganistão já em dezembro de 2001, matando milhares de civis e provocando a fuga de centenas de milhares de outros, e não sabe até hoje onde se esconderam os criminosos. Isto explica também porque o governo, sem saber de fato que tipo de armas Saddam Hussein escondia, decidiu bombardear e invadir o Iraque em maio de 2003 contra a ONU, matando milhares de civis e de soldados e aterrorizando a população. Isso explica porque o governo, sem saber quem é ou não é terrorrista, decidiu prender centenas de pessoas no cárcere de Guantânamo em condições tais que dezoito deles tentaram suicidar-se. Tortura "edulcorada"O poderio de um governo – seja quais forem as armas que possuir, ou o dinheiro de que dispõe – é frágil. Quando perde sua legitimidade aos olhos do seu povo, seus dias estão contadosEm seu relatório de 2005 sobre as violações dos direitos humanos no mundo, tornado público em 25 de maio de 2005, a Anistia Internacional não hesitou em afirmar que "o centro de detenção de Guantanamo tornou-se o Gulag de nossa época". A secretária geral da organização, Irene Khan acrescentou: "Quando o país mais poderoso do planeta esmaga sob os pés a primazia da lei e dos direitos humanos, está autorizando os outros a infringir as regras sem escrúpulos, convencidos de ficarem impunes". Irene Khan denunciou também as tentativas dos Estados Unidos de banalizar a tortura. Os americanos, sublinhou ela, tentam tirar o caráter absoluto da proibição à tortura "redefinindo-a" e "edulcorando-a". Ora, lembrou ela, "a tortura ganha terreno desde que sua condenação oficial deixa de ser absoluta". Apesar da indignação suscitada pelas torturas cometidas na prisão de Abu Graib (Iraque), deplorou a Anistia, nem o governo nem o Congresso dos Estados Unidos pediram a abertura de uma investigação aprofundada e independente. A pretensa "guerra contra o terrorismo" não é somente uma guerra contra um povo inocente em um país estrangeiro, mas uma guerra contra o povo dos Estados Unidos. Uma guerra contra nossas liberdades, uma guerra contra o nosso modo de viver. A riqueza do país é roubada do povo para ser distribuída com os super-ricos. Roubam também a vida dos nossos jovens. Não há dúvida alguma de que essa guerra que já dura dois anos e três meses fará ainda muitas vítimas não somente no estrangeiro, mas no próprio território dos Estados Unidos. A administração diz a quem quiser ouvir que a gente se safará bem dessa guerra porque ao contrário do Vietnã, há poucas vítimas1. É verdade, "apenas" algumas centenas de mortos em combate. Mas quando a guerra terminar, então as vítimas das consequências dessa guerra – doenças, traumatismos – não cessarão de aumentar. Vítimas da mentira de EstadoA história das mudanças sociais é feita de milhões de ações, pequenas ou grandes, que se acumulam em um certo momento da históriaDepois da guerra no Vietnã, veteranos assinalaram malformações congênitas em suas famílias, causadas pelo agente laranja, um potente herbicida muito tóxico, pulverizado sobre as populações vietnamitas Durante a primeira guerra do Golfo em 1991, contaram-se apenas algumas centenas de perdas, mas a Associação dos Veteranos recentemente denunciou a morte de 8 000 deles ao longo destes dez últimos anos. Duzentos mil veteranos, dos seiscentos mil que participaram da primeira guerra do Golfo, queixam-se de mal-estares, de patologias devidas às armas e munições utilizadas durante essa guerra. Esperemos para ver os efeitos do urânio empobrecido sobre nossas moças e jovens enviados ao Iraque. Qual é nosso dever? Denunciar tudo isso. Estamos convencidos de que os soldados enviados ao Iraque só suportam o terror e a violência porque mentiram para eles. E quando souberem a verdade – como aconteceu durante a guerra do Vietnã – eles se voltarão contra seu governo. O resto do mundo nos apóia. A administração dos Estados Unidos não pode ignorar indefinidamente os dez milhões de pessoas que protestaram no mundo inteiro em 15 de fevereiro de 2003 e cujo número aumenta a cada dia. O poderio de um governo – seja quais forem as armas que possuir, ou o dinheiro de que dispõe – é frágil. Quando perde sua legitimidade aos olhos do seu povo, seus dias estão contados. Devemos engajar-nos em todas as ações tendo por fim parar com esta guerra. Nunca será demais. A história das mudanças sociais é feita de milhões de ações, pequenas ou grandes, que se acumulam em um certo momento da história. Até constituir um poder que nenhum governo pode reprimir. (Trad. : Betty Almeida)
Posted on 06/06/2006 5:50 PM Comments (0)
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