February 3, 2006

De Bonner para Homer

De Bonner para Homer

Willian Bonner, apresentador e chefe de jornalismo do Jornal Nacional e sua equipe consideram o expectador burro, preguiçoso e sem motivações políticas. Os temas do maior telejornal do país são pautados de maneira frívola, descompromissada, preconceituosa e elitista. Matéria da revista Carta Capital, vale a pena ler!



O editor-chefe considera o obtuso pai dos Simpsons como o espectador padrão do Jornal Nacional

Perplexidade no ar. Um grupo de professores da USP está reunido em torno da mesa onde o apresentador de tevê William Bonner realiza a reunião de pauta matutina do Jornal Nacional, na quarta-feira, 23 de novembro.

Perfil.
Ele é preguiçoso, burro e passa o tempo no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja
Alguns custam a acreditar no que vêem e ouvem. A escolha dos principais assuntos a serem transmitidos para milhões de pessoas em todo o Brasil, dali a algumas horas, é feita superficialmente, quase sem discussão.

Os professores estão lá a convite da Rede Globo para conhecer um pouco do funcionamento do Jornal Nacional e algumas das instalações da empresa no Rio de Janeiro. São nove, de diferentes faculdades e foram convidados por terem dado palestras num curso de telejornalismo promovido pela emissora juntamente com a Escola de Comunicações e Artes da USP. Chegaram ao Rio no meio da manhã e do Santos Dumont uma van os levou ao Jardim Botânico.

A conversa com o apresentador, que é também editor-chefe do jornal, começa um pouco antes da reunião de pauta, ainda de pé numa ante-sala bem suprida de doces, salgados, sucos e café. E sua primeira informação viria a se tornar referência para todas as conversas seguintes. Depois de um simpático “bom-dia”, Bonner informa sobre uma pesquisa realizada pela Globo que identificou o perfil do telespectador médio do Jornal Nacional. Constatou-se que ele tem muita dificuldade para entender notícias complexas e pouca familiaridade com siglas como BNDES, por exemplo. Na redação, foi apelidado de Homer Simpson. Trata-se do simpático mas obtuso personagem dos Simpsons, uma das séries estadunidenses de maior sucesso na televisão em todo o mundo. Pai da família Simpson, Homer adora ficar no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja. É preguiçoso e tem o raciocínio lento.

A explicação inicial seria mais do que necessária. Daí para a frente o nome mais citado pelo editor-chefe do Jornal Nacional é o do senhor Simpson. “Essa o Homer não vai entender”, diz Bonner, com convicção, antes de rifar uma reportagem que, segundo ele, o telespectador brasileiro médio não compreenderia.



Pauta.
Na reunião matinal, é Bonner quem decide o que vai ou não para o ar
Mal-estar entre alguns professores. Dada a linha condutora dos trabalhos – atender ao Homer –, passa-se à reunião para discutir a pauta do dia. Na cabeceira, o editor-chefe; nas laterais, alguns jornalistas responsáveis por determinadas editorias e pela produção do jornal; e na tela instalada numa das paredes, imagens das redações de Nova York, Brasília, São Paulo e Belo Horizonte, com os seus representantes. Outras cidades também suprem o JN de notícias (Pequim, Porto Alegre, Roma), mas elas não entram nessa conversa eletrônica. E, num círculo maior, ainda ao redor da mesa, os professores convidados. É a teleconferência diária, acompanhada de perto pelos visitantes.

Todos recebem, por escrito, uma breve descrição dos temas oferecidos pelas “praças” (cidades onde se produzem reportagens para o jornal) que são analisados pelo editor-chefe. Esse resumo é transmitido logo cedo para o Rio e depois, na reunião, cada editor tenta explicar e defender as ofertas, mas eles não vão muito além do que está no papel. Ninguém contraria o chefe.

A primeira reportagem oferecida pela “praça” de Nova York trata da venda de óleo para calefação a baixo custo feita por uma empresa de petróleo da Venezuela para famílias pobres do estado de Massachusetts. O resumo da “oferta” jornalística informa que a empresa venezuelana, “que tem 14 mil postos de gasolina nos Estados Unidos, separou 45 milhões de litros de combustível” para serem “vendidos em parcerias com ONGs locais a preços 40% mais baixos do que os praticados no mercado americano”. Uma notícia de impacto social e político.

O editor-chefe do Jornal Nacional apenas pergunta se os jornalistas têm a posição do governo dos Estados Unidos antes de, rapidamente, dizer que considera a notícia imprópria para o jornal. E segue em frente.

Na seqüência, entre uma imitação do presidente Lula e da fala de um argentino, passa a defender com grande empolgação uma matéria oferecida pela “praça” de Belo Horizonte. Em Contagem, um juiz estava determinando a soltura de presos por falta de condições carcerárias. A argumentação do editor-chefe é sobre o perigo de criminosos voltarem às ruas. “Esse juiz é um louco”, chega a dizer, indignado. Nenhuma palavra sobre os motivos que levaram o magistrado a tomar essa medida e, muito menos, sobre a situação dos presídios no Brasil. A defesa da matéria é em cima do medo, sentimento que se espalha pelo País e rende preciosos pontos de audiência.



Notícia.
A decisão do juiz Livingsthon Machado, de soltar presos, é considerada coisa de “louco”
Sobre a greve dos peritos do INSS, que completava um mês – matéria oferecida por São Paulo –, o comentário gira em torno dos prejuízos causados ao órgão. “Quantos segurados já poderiam ter voltado ao trabalho e, sem perícia, continuam onerando o INSS”, ouve-se. E sobre os grevistas? Nada.

De Brasília é oferecida uma reportagem sobre “a importância do superávit fiscal para reduzir a dívida pública”. Um dos visitantes, o professor Gilson Schwartz, observou como a argumentação da proponente obedecia aos cânones econômicos ortodoxos e ressaltou a falta de visões alternativas no noticiário global.

Encerrada a reunião segue-se um tour pelas áreas técnica e jornalística, com a inevitável parada em torno da bancada onde o editor-chefe senta-se diariamente ao lado da esposa para falar ao Brasil. A visita inclui a passagem diante da tela do computador em que os índices de audiência chegam em tempo real. Líder eterna, a Globo pela manhã é assediada pelo Chaves mexicano, transmitido pelo SBT. Pelo menos é o que dizem os números do Ibope.

E no almoço, antes da sobremesa, chega o espelho do Jornal Nacional daquela noite (no jargão, espelho é a previsão das reportagens a serem transmitidas, relacionadas pela ordem de entrada e com a respectiva duração). Nenhuma grande novidade. A matéria dos presos libertados pelo juiz de Contagem abriria o jornal. E o óleo barato do Chávez venezuelano foi para o limbo.

Diante de saborosas tortas e antes de seguirem para o Projac – o centro de produções de novelas, seriados e programas de auditório da Globo em Jacarepaguá – os professores continuam ouvindo inúmeras referências ao Homer. A mesa é comprida e em torno dela notam-se alguns olhares constrangidos.


Sociólogo e jornalista, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP
Posted on 02/03/2006 10:20 AM Comments (0)

February 2, 2006

Hammas um voto pela luta

DEMÉTRIO MAGNOLI

A ruína do Estado postiço

A maioria absoluta conquistada pelo Hamas nas eleições palestinas representa a porção emersa de um fenômeno mais amplo. Entre os candidatos do Fatah que não se elegeram contam-se o presidente do Parlamento palestino e o antigo chefe das forças de segurança de Iasser Arafat. Mas, no derrotado Fatah, elegeram-se Marwan Barghouti, o líder que, de uma prisão em Israel, desafia a direção oficial, e vários de seus companheiros de facção. A (FPLP) Frente Popular de Libertação da Palestina, oposição de esquerda ao Fatah, elegeu seu secretário-geral, Ahmed Sadate, preso pelas próprias forças de segurança de Iasser Arafat e até hoje encarcerado sem julgamento.
Engendradas para consolidar o poder do sucessor de Arafat, as eleições produziram o resultado oposto. Os palestinos disseram que Abu Mazen não passa da imagem espectral de um processo de paz há muito enterrado. Eles votaram no Hamas, uma organização integrista, não para realizar o reino de Deus na terra, mas para conduzir a luta nacional à qual renunciaram os nacionalistas. Mas, sobretudo, rejeitaram a ANP (Autoridade Nacional Palestina), um proto-Estado criado como entidade transitória que acabou calcificando-se na condição de instrumento de mediação entre a potência ocupante e a população dos territórios ocupados.
Diante do resultado eleitoral, Israel congelou a transferência de impostos destinados à ANP. Os EUA e a União Européia exigem, sob pena de cortar sua ajuda à ANP, que o Hamas cometa suicídio político, reconhecendo incondicionalmente o Estado de Israel e renunciando às armas. Aparentemente, essas iniciativas evidenciam uma vontade de estrangular o proto-Estado palestino. Contudo a sua finalidade é outra.
No passado, o império britânico utilizou-se do regime do "self-government" para estabilizar a sua soberania sobre os territórios coloniais. Desde o fracasso do processo de paz, a ANP cumpre exatamente essa função nos territórios ocupados, cobrindo os palestinos com os andrajos de uma vida política autônoma e eximindo Israel da carga da repressão policial direta. Mas a entidade palestina aperfeiçoou o modelo britânico, livrando Israel das responsabilidades de potência ocupante inscritas nos tratados internacionais, aí incluídos os custos financeiros de manutenção dos serviços básicos para a população dos territórios ocupados.
Israel precisa da ANP para prosseguir sua estratégia de definição unilateral das fronteiras do Estado judaico. O congelamento israelense dos recursos destinados à entidade palestina e as ameaças americanas e européias têm a finalidade de conferir uma segunda vida a Abu Mazen, promovendo uma coalizão entre o Hamas e a direção derrotada do Fatah. Sintomaticamente, já circulam idéias loucas como o uso de ONGs para mediar a transferência da ajuda européia à ANP.
É possível restaurar a ANP? No Fatah medra a revolta contra os dirigentes corruptos que desgraçaram a organização. Líderes do Hamas elaboram uma proposta de unificação das milícias palestinas rivais num exército nacional e falam até na reconstituição da OLP (Organização de Libertação da Palestina), que hiberna desde a formação da ANP. Na OLP, ao contrário do que ocorre na ANP, o direito de voto estendia-se aos palestinos da diáspora. Há vida na Palestina.


Posted on 02/02/2006 11:30 AM Comments (0)
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