August 27, 2005

Alguma coisa x o mesmo

Alguma coisa x o mesmo

 Eis que Fernando Henrique Cardoso vem em defesa de Luiz Inácio Lula da Silva justamente quando, salvo alguns "lulistas" que praticam o culto à personalidade, ninguém agüenta mais a discurseira vazia e caótica do presidente.
Ao atacar Lula, FHC justifica Lula. Contradição? Vejamos. Diz o ex-presidente que "é impossível ter havido tanta coisa equivocada e ninguém ter percebido. Será que o presidente Lula nunca viu nada? Se o sujeito nunca viu nada, como pode chegar a ser presidente?" (em entrevista de quarta-feira à rádio CBN).
Ora, quando perguntado sobre seu próprio "mensalão", tão comprovado quanto o do atual governo, FHC sai pela tangente: não foi ele que pagou (nem Lula) e não sabe quem foi. Como pode, então, ter sido presidente? Foi, e por oito anos, o que, se esse é o parâmetro, dá direito a Lula de ter a mesma coisa.
Tem mais: FHC reclama que, "neste momento, estamos patinando". Não é bem assim: "estamos patinando" há dez anos e meio, principalmente nos oito anos do tucanato. É só procurar as estatísticas para verificar que o crescimento econômico nos nove primeiros trimestres com Lula (os únicos até agora medidos) foi medíocre, mas ainda assim foi superior ao de FHC no mesmo período.
Não justifica o governo Lula, mas muito menos ainda dá lustro póstumo ao governo anterior.
Bom, aí FHC vem com a história de que o PSDB precisa ter "capacidade de propor alguma coisa para o país". Como alguma coisa? Se isso é tudo o que tem a oferecer um notável sociólogo, com oito anos de Presidência e uma penca deles no Senado, então estamos ferrados.
Recuso-me a crer que o Brasil esteja condenado, nas eleições do ano que vem, a escolher entre "alguma coisa" e "mais do mesmo".
Seria de inaudita crueldade com uma população cansada de ver brotar a esperança a cada tanto apenas para derrapar na primeira curva pela mediocridade e/ou pela lama.


Posted on 08/27/2005 6:12 PM Comments (0)

August 25, 2005

Democracídio

Democracídio por Izaías Almada 5:30 a.m, sul da Flórida. Um dia qualquer de 1996. No pequeno aeroporto próximo a Miami, dois homens dirigem-se até ao bimotor que os aguarda já com os motores ligados. Munidos de autorização para vôos de instrução, caminham em silêncio. Um deles, loiro, alto, de olhos azuis, parece ser o instrutor. O outro, mas baixo, pele morena, é – pelos documentos apresentados – o aluno. A avioneta decola exatamente às 5:34 a.m.

6:45 a.m, noroeste da ilha de Cuba. Um dia qualquer de 1996. Alguns camponeses já estão a trabalhar quando são surpreendidos pelo vôo rasante de uma avioneta que vai deixando um rastro de fumaça branca sobre as lavouras.
Entreolham-se, sem saber muito bem se alguma atividade de espargir algum remédio sobre a plantação havia sido autorizada pelo governo.

Da Flórida, o governo cubano recebe informações de cidadãos cubanos que ali vivem que grupos anticastristas e mafiosos cubanos têm preparadas ações contra o território e o povo de Cuba, com invasões do seu espaço aéreo.

Nas semanas seguintes ao vôo do bimotor que partiu da Flórida, na região noroeste de Cuba é constatada a presença de um vírus de dengue hemorrágico. Morrem 158 pessoas, dentre elas 101 crianças.

Em outra parte da ilha, a epidemia Trip Asiática se abateu sobre parte da agricultura de milho, tomates e cenouras.

1998, são presos na Flórida alguns cidadãos cubanos, acusados de espionagem e conspiração contra o governo dos EUA. Seu “crime”: alertar sobre as ações das pequenas avionetas e de outros eventuais atentados contra a soberania cubana. Seus nomes: Gerardo Hernández, Ramon Labañino, Fernando González, Antonio Guerrero e René González. Dezessete meses incomunicáveis antes do julgamento, julgamento de sete meses, no Estado da Flórida, vigiado e controlado pela máfia cubana que exerce enorme influência sobre o governo local (governado por um irmão de George W. Bush) e mesmo nacional, Estado onde Bush venceu fraudulentamente as eleições de 2000.

As penas: René González, pena de quinze anos na prisão de Exxcel (Carolina do Sul), Gerardo Hernández, condenado a duas prisões perpétuas e mais quinze anos (sic) a cumprir na prisão de Victorville (Califórnia); Ramon Labañino, prisão perpétua e mais quinze anos de reclusão (sic), preso em Dumont (Texas); Fernando González, condenado a dezenove anos de reclusão, cumpre pena em Oxford (Wisconsin); e finalmente Antonio Guerrero, prisão perpétua e mais dez anos (sic), que está preso em Florence (Colorado). Nenhum dos presos pode receber a visita de familiares. Aqui, como no cinema, cortamos para:

Ano de 2005, Falujah, Iraque. Militares americanos, em defesa dos valores da democracia de Bush, Rumsfeld & Cia., cometem mais um massacre contra a população civil iraquiana, a pretexto de ir atrás de insurgentes. Entre os civis estão mais de 22 crianças. Tudo começou com a busca de armas químicas e destruição em massa, mentira já admitida pela mídia norte-americana e também para levar a democracia cristã ocidental, civilizada, aos “povos bárbaros” do Oriente Médio e Ásia.

A essa política selvagem, genocida, imoral, praticada sob o olhar apático – e por vezes cúmplice – de grande parte dos países do mundo, gera-se e fomenta-se o terrorismo de facções muçulmanas e de pequenos partidos radicais árabes, num cenário de violência que só interessa àqueles cuja política econômica prevê a exclusão de 80 por cento da humanidade da riqueza produzida e dos benefícios sociais daí advindos.

Política que já nos dá a liberdade de criar o neologismo “democracídio”, democracia imposta pela força das armas, com a ampliação e a sustentação da miséria e desigualdade social e com a paz dos cemitérios.



Izaías Almada é escritor e dramaturgo
Posted on 08/25/2005 3:57 PM Comments (0)

August 18, 2005

APRENDA A VER UM POLITICO

Gosto de política. Assistir aos altos e baixos que se desenvolvem no cenário político, para quem está de fora, eu diria que é uma coisa mais ou menos, assim, como o beisebol. Quem não está acostumado a assistir aos jogos, acha tudo bastante estranho. Um cara joga a bola, de uma maneira engraçada, em direção a outro cara vestido de um jeito estranho que a rebate com um taco e todos saem correndo em várias direções até que decidem parar. Os jogos são longos, dá para se levantar, comprar um cachorro- quente, bater papo e voltar a assistir ao que está acontecendo. Só quem conhece os jogadores, as regras, os recordes a serem quebrados, o histórico de cada um, é que desfruta do espetáculo. Das vitórias, das derrotas, da estratégia.

Desnude um político
Política também é um espetáculo, mas, me parece, bem mais dramático. Também tem seus jogadores e, claro, suas regras [se bem que elas parecem existir apenas para serem implodidas]. Demora um certo tempo para se acostumar, assimilar a performance de cada um deles. É claro que para quem nunca se interessou pelo jogo de espelhos das palavras e dos discursos é uma selva que parece impenetrável e chata. Mas tenho uma sugestão.

Um deputado ou o que seja
Escolha um deles, um dos políticos de quem você tanto ouve falar. Pode ser um deputado, senador, governador ou o que seja. Acompanhe a trajetória do personagem durante um certo tempo. Não preste atenção aos outros, siga aquele que você escolheu. O escolhido pode ser pelas suas qualidades ou pelos seus defeitos. Acompanhe-o por um tempo. Leia seus discursos, ouça suas declarações. Em poucas semanas você vai saber quem ele é de verdade. As virtudes e defeitos aparecerão com certeza, porque a mentira tem a perna curta, a verdade sempre aparece e a coerência não tem preço. Sugiro que depois espalhe seu interesse para outras figuras e, fatalmente, você vai saber se a pessoa que discursa na televisão fala a verdade ou apenas tenta te enrolar e se esconde atrás de um palavreado vazio.

Um primo meu, de Barcelona, diz que consegue andar pelo mundo sem se dar mal porque sempre lembra de um ditado que diz: “Como dice San Ginés: quien parece lo és”. Em política esse ditado não falha. É um bom momento para fazer essa experiência. O país passa por uns meses peculiares, com CPIs a torto e a direito e com políticos falando pelos cotovelos. Os ânimos se exaltam e as declarações se sustentam por pouco tempo no ar no meio de um tiroteio de acusações. Preste um pouco de atenção porque com o tempo você vai aprender a conhecer quem é quem no cenário político nacional e, aí então, vai ser fácil escolher seus candidatos nas próximas eleições. O Brasil vai te agradecer.

 

*J. R. Duran, 52, fotógrafo, escritor e, mais que tudo, observador privilegiado, aprendeu a arte de enxergar além do que vê. Seu e-mail é: studio@jrduran.com.br



Posted on 08/18/2005 6:05 PM Comments (1)
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