Veja estimula ódio e preconceitos
Por Altamiro Borges*
Na noite deste sábado, no caixa de um
supermercado na região central de São Paulo, uma típica senhora da alta
classe média, vestida no pior estilo da perua decadente, pega a última
edição da revista Veja. Na capa, a foto de uma mulher negra, título de
eleitor na mão, e a manchete: “Ela pode decidir a eleição”. No
texto-legenda, a descrição: “Nordestina, 27 anos, educação média, 450
reais por mês, Gilmara Cerqueira retrata o eleitor que será o fiel da
balança em outubro”. A dondoca burguesa, indignada, tenta puxar
conversa, em plena militância eleitoral. “Que absurdo. Onde já se viu
essa gente pobre decidir o destino do país. Eu odeio o Lula. Deus nos
livre dele”.
O episódio, por mais repugnante que possa
parecer, é verídico. Dá ânsia de vomito, mas é real, infelizmente. Ele
revela o grau exacerbado de preconceito da burguesia e de parcelas da
“classe mérdia” contra o presidente Lula e por sua opção, mesmo tímida,
de priorizar os investimentos nas áreas carentes. A extremada reação da
madame deve ter sido exatamente a orquestrada pelos conspiradores da
Editora Abril, asseclas do golpista-mor Roberto Civita. O objetivo
desta e de outras edições da revista Veja é o de criar um clima de ódio
entre as camadas médias contra o atual governo. A publicação não visa
informar, mas sim manipular e gerar preconceitos.
E a perua nem havia lido a revista – bastou a
capa para liberar seus piores instintos de classe. As páginas internas
destilam veneno; são todas editorializadas e não informativas e
imparciais. Num texto leviano, por exemplo, esta edição novamente
vincula os petistas ao crime organizado. Sem provas, afirma: “Fica
evidente a simpatia do PCC pelo PT, bem como a aversão da organização
pelo PSDB” – o que mereceria um imediato processo judicial do partido
contra a Editora Abril. Noutro artigo, não vacila em citar a China –
seu eterno diabo comunista – para atacar o “tímido” crescimento da
economia brasileira, por culpa do “populismo e do corporativismo” do
governo Lula, que “criam um ambiente avesso à competição e a inovação”.
Haja descaramento!
Panfleto da direita
Mas é na reportagem de capa, que ocupa dez
páginas da edição, que a Veja escancara todo o seu preconceito e ódio
de classe. O primeiro artigo tenta desqualificar os 34 milhões de
eleitores do Nordeste, com pouca escolaridade (93% até o nível médio) e
baixa renda (71% ganham até R$ 700). De forma marota, acusa essa “gente
pobre” de ser vítima do assistencialismo. “[Gilmara] não tem dinheiro
para comprar um par de óculos para o filho caçula, mas está satisfeita
com a vida – e com Lula. ‘Ele é um homem bom’, diz ela, que, como
outros 22 milhões de nordestinos, recebe o Bolsa Família – a mais
espetacular alavanca eleitoral de Lula no Nordeste”.
Já o segundo texto reforça o dogma neoliberal de
que os investimentos públicos em programas sociais equivalem à
“gastança” e são ineficientes economicamente. A manipulação é
descarada. O próprio articulista constatou que várias cidades e regiões
do Nordeste tiveram suas economias dinamizadas devido aos programas
sociais do governo. As vendas no varejo cresceram 17,7% – bem acima dos
7% na região Sudeste – e “os nordestinos passaram a comprar mais
alimentos perecíveis, material de limpeza e higiene”. Apesar destes
fatos irretocáveis, o pau-mandado dos Civitas aposta no desastre desta
política e ainda tenta estimular a discriminação regional:
“O Nordeste enfrenta uma bolha de crescimento
inflada pelo aumento do consumo, que, por sua vez, é lastreado em
grande parte no dinheiro que os brasileiros que trabalham e pagam
impostos carreiam para a região em programas assistenciais”. Haja
rancor pequeno-burguês! O último texto é o mais raivoso de todos; já
verte veneno no título: “Reféns do assistencialismo”. Em poucas linhas,
ele bate três vezes na tecla de que os programas sociais do governo
“distribuem dinheiro dos brasileiros que trabalham e pagam impostos a
44 milhões de outros brasileiros” – os nordestinos. A repetição não é
por mera incompetência. Visa exatamente contaminar a madame e outros
individualistas empedernidos das camadas médias.
O medo da democracia
O lamentável episódio deste sábado, que causou
irritação e reforçou a convicção de que a classe “mérdia” é egoísta e
burra, corrobora uma tese defendida pelo historiador Augusto Buonicore,
num excelente artigo na revista Debate Sindical. Conforme ele
demonstra, as classes dominantes fizeram de tudo para evitar a
ampliação dos espaços democráticos. Sempre temeram o sufrágio
universal, exatamente por temerem o voto da “gente pobre” – da mulher,
nordestina, negra, baixa escolaridade e poucas posses. No caso das
mulheres, elas só conquistaram esse direito em 1918, na Inglaterra; em
1920, nos EUA; em 1934, no Brasil; e em 1948, na França. Já os negros
dos EUA, exemplo de democracia para a Editora Abril, só adquiriram
direitos políticos nos anos 60.
Foi John Locke, principal teórico liberal da
revolução inglesa, quem propôs a exclusão dos não-proprietários do
direito ao voto: “Todo governo não possui outra finalidade além da
conservação da propriedade”. Já James Madison, o quarto presidente dos
EUA, confessou: “Se as eleições forem abertas para todas as classes do
povo, a propriedade não será mais segura”. E até John Stuart Mill, um
liberal progressista, tentou desfigurar o sufrágio universal. “Um
empregador é mais inteligente do que um operário por ser necessário que
ele trabalhe com o cérebro e não só com os músculos. Nestas condições,
pode-se atribuir dois ou três votos a toda pessoa que exerce uma dessas
funções de maior relevo”, pregou, ao defender o voto diferenciado entre
as classes.
A conquista destes direitos demandou dos
trabalhadores muitas revoltas, manifestações, greves e revoluções. “A
consigna ‘um homem um voto’, que se tornou paradigma dos estados
modernos, soava como algo subversivo aos liberais burgueses. A própria
palavra democracia era explosiva. Assim, contraditoriamente, o que
conhecemos como democracia burguesa foi uma conquista da luta dos
trabalhadores contra a própria burguesia que tentava excluí-los da vida
pública”, conclui Buonicore. Apesar dos limites e seduções da
democracia burguesa, ela permitiu que um operário grevista, no Brasil,
e um líder camponês, na Bolívia, chegassem à Presidência da República.
Atentado à Constituição
É isso que causa tanta ojeriza, preconceito e
ódio de classe à revista Veja e às madames-peruas. Por mais que o
governo Lula tenha cedido – e cedeu demais ao “deus-mercado” –, as
elites não o toleram. Não aceitam que um novo bloco de forças, oriundo
das camadas populares e das lutas sociais, tenha chegado ao governo
central. Não aceitam que o governo, mesmo que timidamente, inverta
algumas prioridades e invista em programas sociais, na valorização do
salário mínimo, na ampliação do crédito popular, na agricultura
familiar. Elas têm nojo desta “gente pobre” e do que Lula simboliza. A
maioria pobre é para ser uma fiel serviçal e não quem “decide a
eleição”.
Numa democracia mais avançada, a Editora Abril
seria processada por estimular o preconceito e a discriminação
regional, que ferem a Constituição; já a dondoca seria presa por
racismo! Apesar dos limites da “democracia dos proprietários”, seria
saudável para a democracia e para o próprio jornalismo que pipocassem
centenas de processos na Justiça contra esta asquerosa publicação! É
preciso ter a dignidade e ousadia do jornaleiro Fabio Marinho, dono de
uma movimentada banca em Porto Alegre, que se recusou a vender esta
revista! A Veja está passando de todos os limites e merece o forte
repúdio da sociedade.
* Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê
Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro
“As encruzilhadas do sindicalismo” (Editora Anita Garibaldi).