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Kadogos, as crianças-soldados do Congo

03/02/2007
"Kadogos", as crianças-soldados do Congo
subtitulo = 'Crianças foram raptadas por guerrilheiros quando tinham 11-12 anos; eles aprenderam a manejar armas, elas foram "feitas mulher"'; if (subtitulo.length > 2) { document.write (''+subtitulo+'
') }; Crianças foram raptadas por guerrilheiros quando tinham 11-12 anos; eles aprenderam a manejar armas, elas foram "feitas mulher"

Jean-Pierre Tuquoi
Enviado especial a Goma (República Democrática do Congo)


Junto com a guerra na República Democrática do Congo (RDC), uma palavra nova passou a pertencer ao vocabulário: "kadogo". Em suaíli (grupo de línguas faladas na África do Leste), "kadogo" significa "criança-soldado". Todos os grupos armados que ainda estão em atividade neste país que antigamente tinha por nome Zaire contam "kadogos" nas suas fileiras. Tanto o exército chamado de regular quanto as diferentes milícias.

Com o fim progressivo dos confrontos, o número de "kadogos" vem diminuindo. De 30.000 quando a guerra estava no seu auge, ele teria diminuído até ficar limitado a alguns milhares. Os mais felizardos retornaram para a sua família e hoje aprendem uma profissão em centros de formação financiados por ONGs ou pela Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância): eles se tornam marceneiro ou agricultor para os rapazes, costureira para as meninas... Nesses centros, as condições de vida são espartanas e os meios materiais limitados.

Muhima, um sólido rapagão de 17 anos, é um dos pensionários de um centro de aprendizagem em Goma, a capital do Kivu do Norte, no leste da RDC. O seu outro nome é Salomon. Ele tinha 11 ou 12 anos - ele não sabe mais ao certo - quando um dos seus primos, cinco anos mais velho do que ele, o convenceu a segui-lo e a juntar-se a um grupo armado que combatia os movimentos pró-ruandeses que operavam na região.

"Eu não ia mais para a escola. Conseguia apanhar alguns peixes no rio, mas, em casa, as coisas não andavam bem. Nós não tínhamos dinheiro. O meu primo tinha escutado falar de um grupo que parava US$ 30 [R$ 63,26] por mês. Nós dois fugimos sem nada dizer aos pais", conta Muhima.

Os jovens recrutas são bem recebidos pelos militares. Os rapazes da sua idade não são raros no grupo. "Os militares me deram imediatamente um traje e uma arma. No treinamento, eu aprendi rapidamente a desmontar e remontar o fuzil", diz. Muhima é incapaz de explicar de qual tipo de arma se tratava, mas ele a descreve com precisão. Era um fuzil-metralhador.

Começam então cinco anos de uma guerra muito estranha, feita de marchas intermináveis na selva, de acampamentos sumários, de refeições que não chegam realmente a alimentar, de combates episódicos, de fugas, de contra-ataques... O jovem rapaz alistou-se num grupo de várias centenas de guerreiros "Mai Mai", que goza de uma reputação de invencibilidade.

"Antes dos combates, eles faziam escarificações nos nossos braços e colocavam pós tradicionais sobre as feridas. Com isso, ninguém poderia nos matar. Eu vi foguetes explodirem bem ao meu lado, e balas me tocarem sem me machucar", afirma. Com a mesma candura, Muhima garante que os seus chefes, protegidos por talismãs, tinham o poder de se tornarem invisíveis e de "passar do outro lado das linhas inimigas". "Nós matamos muitos inimigos durante os combates", assegura. "Quanto a nós, só tivemos alguns feridos".

"Os Mai Mai não faziam prisioneiros", acrescenta o adolescente. "Eles eram executados". Até mesmo as mulheres? "Sim", responde ele antes de se corrigir. "As mulheres eram integradas no nosso grupo. Nós não as matávamos". Um pouco mais tarde, o ex menino-soldado explicará que o seu chefe - de quem ele se tornara guarda-costas após ter sido nomeado suboficial - havia proibido aos seus homens de matar os gorilas que vivem na região.

Para esquecer a violência e divertir-se, conta ainda Muhima, "havia cânhamo, os cigarros, o 'lutuku' [um álcool à base de banana e de milho]". E as mulheres, para os mais velhos. "Nós, os jovens, não tínhamos mulheres. É por isso que nós éramos verdadeiros guerreiros", diz. Da sua nova vida de aprendiz de marceneiro, ele fala movido por sentimentos moderados. Ela é tranqüila se comparada com aquela que ele levou durante anos na selva. Mas ele teria preferido ser desmobilizado e receber um pecúlio assim como o seu primo, que hoje é adulto.

Moises estava no campo adversário. Ele tinha cerca de 10 anos - ele não sabe exatamente - quando ele foi requisitado à força como carregador por rebeldes tutsis que haviam invadido a sua aldeia. Esses fatos ocorreram em 1998. Era o início de uma história absurda que terminou em 2006 com o fim progressivo das hostilidades no leste do Congo. Nesse meio-tempo, o jovem rapaz aprendeu a manejar as armas e a servir-se delas assim como um adulto.

Da barbárie da guerra, ele fala sem nenhuma emoção aparente. É verdade, quando o inimigo atacava o seu campo, "as garotas eram quase sempre mortas: elas não corriam depressa o bastante para conseguir fugir". Como se comportava o seu próprio grupo na situação inversa? "Quando nós liberávamos uma aldeia, aliciávamos as garotas para integrá-las no nosso grupo. A gente podia brincar com elas. Algumas se tornavam a mulher de um soldado", diz.

O adolescente participou de combates. A prova disso é a dupla cicatriz que ele tem na sua perna direita. Uma delas foi feita por uma bala que o atingiu de raspão; já, a outra é recordação de uma punhalada. "Eu estava lutando pelo meu país", diz ele, sem fornecer maiores precisões. "Nós tínhamos aulas de educação política. O inimigo eram os Mai Mai e os caras do FDLR [os soldados e os membros de milícias que se bandearam para a RDC em 1994, após terem sido expulsos da Ruanda]".

Certa vez, acrescenta Moises, ele foi feito prisioneiro por um grupo de Mai Mai: "Eles me amarraram e me ataram no teto de uma casa, acima do saguão, durante uma semana". Ele explica que conseguiu escapar em circunstâncias misteriosas.

Fazendo eco aos relatos dos rapazes que foram recrutados e empurrados para a guerra, em muitos casos contra a sua vontade, os jovens moças que lutaram ao seu lado ou contra eles também contam as suas histórias. Dos seus anos de guerra, essas adolescentes não hesitam a pintar um retrato sombrio. Elas não se queixam. Elas não acusam ninguém.

Faida recorda-se de que homens de uniforme de brim - um grupo de Mai Mai - a raptaram um dia que ela estava caminhando para buscar água na floresta. Ela tinha então 16 anos. Ela ficou com eles durante dois anos. Faida foi "feita mulher", conforme ela diz, por um soldado de 20 anos de quem ela ignora por que ele a escolheu em vez de uma outra. Ele é o pai, que ela não quer mais rever, da criança que ela está carregando nas costas. Já faz três meses, ela está aprendendo a costurar.

A história de Anouarité, que também tem 18 anos, não é muito diferente. Ela também foi raptada, em 2004, não longe de Goma, por militares - aqueles liderados pelo general Laurent Nkunda, um chefe rebelde que hoje é alvo de um mandato de prisão internacional - e forçada a segui-los enquanto ela estava indo trabalhar na lavoura, certa manhã.

Alertados, os seus pais até que tentaram recuperá-la, indo até o campo dos rebeldes, mas, aos serem ameaçados pelos homens de farda, eles foram obrigados a voltar para trás. Ela viveu por cerca de dois anos com os militares do general rebelde, os quais ela foi forçada a acompanhar como se ela fosse a sua sombra nas suas peregrinações. Ela cozinhava, ajudada pelas "grandes mulheres", mais velhas do que ela.

Um belo dia, um miliciano tomou-a como mulher. "No início, ele era gentil", conta, "mas, depois ele começou a me bater. As outras mulheres vinham para me consolar". No dia em que ela deu à luz um filho na floresta, ele lhe deu duas tangas. Então, ele sumiu. Ela se aproveitou da situação para fugir do campo. Ela voltou para a sua família, que a recebeu muito bem. Hoje, Anouarité está aprendendo a profissão de costureira, e cria o seu filho. Ela lhe deu o nome de Esperança.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Posted on 02/03/2007 5:25 PM Visits: 52
Grace Olsson: 02/17/2008 1:16 AM
Eu não sei o que é pior na RDC:os meninos so ldados ou as crianças feiticeiras. O pior de tudo isso é que o Mundo sabe e nada faz. Fim dos tempos.Eu que faço trabalho com refug iados em Moçambique sei o quanto essas crianç as sofrem.
Abrços
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