May 13, 2007Guerra na IgrejaExistem duas posições claramente opostas que, na prática, podem se entrelaçar LEONARDO BOFF
Posted on 05/13/2007 9:10 AM Comments (2)
April 12, 2007O migrante e os usineiros
O migrante e os usineiros
RICARDO ANTUNES RICARDO LUIZ COLTRO ANTUNES, 54, é professor titular de sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (Universidade de Campinas) e autor, entre outros livros, de "Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil" (Boitempo, 2006).
Posted on 04/12/2007 8:21 PM Comments (0)
February 10, 2007Globalização não reduz desigualdade e pobreza no mundo, diz ONU
Globalização não reduz desigualdade e pobreza no mundo, diz ONU
Publicidade on error resume next ShockMode = (IsObject(CreateObject("ShockwaveFlash.ShockwaveFlash.6"))) A globalização e liberalização, como motores do crescimento econômico e o desenvolvimento dos países, não reduziram as desigualdades e a pobreza nas últimas décadas, segundo livro divulgado neste sábado pela ONU (Organização das Nações Unidas). A publicação, que leva o título "Flat World, Big Gaps" (Um Mundo Plano, Grandes Disparidades, em tradução livre), foi editado por Jomo Sundaram, secretário-geral adjunto da ONU para o Desenvolvimento Econômico, e Jacques Baudot, economista especializado em temas de globalização. Seu lançamento coincide com a realização da 45ª sessão da Comissão sobre Desenvolvimento Social da ONU, que revisa os objetivos da cúpula mundial de Copenhague de 1995. "A redução da desigualdade não está separada de questões como a pobreza e a falta de emprego", disse Baudot. "A idéia do livro é recuperar e situar como uma prioridade na agenda internacional o vínculo existente entre estes indicadores." Para Baudot, centrar as atividades para reduzir a pobreza no crescimento econômico conduz a estratégias nacionais e regionais que não respeitam o meio ambiente, outro fator para continuar com a desigualdade e a pobreza. No trabalho se constata que a distribuição das receitas individuais melhorou levemente, graças ao crescimento econômico na China e Índia, mas mesmo assim a repartição da riqueza mundial piorou e os índices de pobreza se mantiveram sem mudanças entre 1980 e 2000. A desigualdade na renda per capita aumentou em vários países da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) durante essas duas décadas, o que sugere que a desregulação dos mercados teve como resultado uma maior concentração do poder econômico. O livro indica que a desigualdade econômica nos países do Oriente Médio e o Norte da África não mudou, ao contrário da crença generalizada, mas aumentou na maioria dos outros países em desenvolvimento. Deste modo, constata que a globalização e a liberalização comercial não ajudou a reduzir a pobreza e a desigualdade na maioria de países da África. No livro se conclui que só uma pequena porção do crescimento da economia mundial contribuiu na redução da pobreza. "Houve uma tremenda liberalização financeira e se pensava que o fluxo de capital iria dos países ricos aos pobres, mas ocorreu o contrário", anotou Sundaram. Como exemplo, citou que os EUA recebem investimentos dos países em desenvolvimento, concretamente nos bônus e obrigações do Tesouro, e em outros setores.
Posted on 02/10/2007 2:02 PM Comments (0)
February 3, 2007Kadogos, as crianças-soldados do Congo
03/02/2007
"Kadogos", as crianças-soldados do Congo subtitulo = 'Crianças foram raptadas por guerrilheiros quando tinham 11-12 anos; eles aprenderam a manejar armas, elas foram "feitas mulher"'; if (subtitulo.length > 2) { document.write (''+subtitulo+' ') }; Crianças foram raptadas por guerrilheiros quando tinham 11-12 anos; eles aprenderam a manejar armas, elas foram "feitas mulher" Jean-Pierre Tuquoi Enviado especial a Goma (República Democrática do Congo) Junto com a guerra na República Democrática do Congo (RDC), uma palavra nova passou a pertencer ao vocabulário: "kadogo". Em suaíli (grupo de línguas faladas na África do Leste), "kadogo" significa "criança-soldado". Todos os grupos armados que ainda estão em atividade neste país que antigamente tinha por nome Zaire contam "kadogos" nas suas fileiras. Tanto o exército chamado de regular quanto as diferentes milícias. Com o fim progressivo dos confrontos, o número de "kadogos" vem diminuindo. De 30.000 quando a guerra estava no seu auge, ele teria diminuído até ficar limitado a alguns milhares. Os mais felizardos retornaram para a sua família e hoje aprendem uma profissão em centros de formação financiados por ONGs ou pela Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância): eles se tornam marceneiro ou agricultor para os rapazes, costureira para as meninas... Nesses centros, as condições de vida são espartanas e os meios materiais limitados. Muhima, um sólido rapagão de 17 anos, é um dos pensionários de um centro de aprendizagem em Goma, a capital do Kivu do Norte, no leste da RDC. O seu outro nome é Salomon. Ele tinha 11 ou 12 anos - ele não sabe mais ao certo - quando um dos seus primos, cinco anos mais velho do que ele, o convenceu a segui-lo e a juntar-se a um grupo armado que combatia os movimentos pró-ruandeses que operavam na região. "Eu não ia mais para a escola. Conseguia apanhar alguns peixes no rio, mas, em casa, as coisas não andavam bem. Nós não tínhamos dinheiro. O meu primo tinha escutado falar de um grupo que parava US$ 30 [R$ 63,26] por mês. Nós dois fugimos sem nada dizer aos pais", conta Muhima. Os jovens recrutas são bem recebidos pelos militares. Os rapazes da sua idade não são raros no grupo. "Os militares me deram imediatamente um traje e uma arma. No treinamento, eu aprendi rapidamente a desmontar e remontar o fuzil", diz. Muhima é incapaz de explicar de qual tipo de arma se tratava, mas ele a descreve com precisão. Era um fuzil-metralhador. Começam então cinco anos de uma guerra muito estranha, feita de marchas intermináveis na selva, de acampamentos sumários, de refeições que não chegam realmente a alimentar, de combates episódicos, de fugas, de contra-ataques... O jovem rapaz alistou-se num grupo de várias centenas de guerreiros "Mai Mai", que goza de uma reputação de invencibilidade. "Antes dos combates, eles faziam escarificações nos nossos braços e colocavam pós tradicionais sobre as feridas. Com isso, ninguém poderia nos matar. Eu vi foguetes explodirem bem ao meu lado, e balas me tocarem sem me machucar", afirma. Com a mesma candura, Muhima garante que os seus chefes, protegidos por talismãs, tinham o poder de se tornarem invisíveis e de "passar do outro lado das linhas inimigas". "Nós matamos muitos inimigos durante os combates", assegura. "Quanto a nós, só tivemos alguns feridos". "Os Mai Mai não faziam prisioneiros", acrescenta o adolescente. "Eles eram executados". Até mesmo as mulheres? "Sim", responde ele antes de se corrigir. "As mulheres eram integradas no nosso grupo. Nós não as matávamos". Um pouco mais tarde, o ex menino-soldado explicará que o seu chefe - de quem ele se tornara guarda-costas após ter sido nomeado suboficial - havia proibido aos seus homens de matar os gorilas que vivem na região. Para esquecer a violência e divertir-se, conta ainda Muhima, "havia cânhamo, os cigarros, o 'lutuku' [um álcool à base de banana e de milho]". E as mulheres, para os mais velhos. "Nós, os jovens, não tínhamos mulheres. É por isso que nós éramos verdadeiros guerreiros", diz. Da sua nova vida de aprendiz de marceneiro, ele fala movido por sentimentos moderados. Ela é tranqüila se comparada com aquela que ele levou durante anos na selva. Mas ele teria preferido ser desmobilizado e receber um pecúlio assim como o seu primo, que hoje é adulto. Moises estava no campo adversário. Ele tinha cerca de 10 anos - ele não sabe exatamente - quando ele foi requisitado à força como carregador por rebeldes tutsis que haviam invadido a sua aldeia. Esses fatos ocorreram em 1998. Era o início de uma história absurda que terminou em 2006 com o fim progressivo das hostilidades no leste do Congo. Nesse meio-tempo, o jovem rapaz aprendeu a manejar as armas e a servir-se delas assim como um adulto. Da barbárie da guerra, ele fala sem nenhuma emoção aparente. É verdade, quando o inimigo atacava o seu campo, "as garotas eram quase sempre mortas: elas não corriam depressa o bastante para conseguir fugir". Como se comportava o seu próprio grupo na situação inversa? "Quando nós liberávamos uma aldeia, aliciávamos as garotas para integrá-las no nosso grupo. A gente podia brincar com elas. Algumas se tornavam a mulher de um soldado", diz. O adolescente participou de combates. A prova disso é a dupla cicatriz que ele tem na sua perna direita. Uma delas foi feita por uma bala que o atingiu de raspão; já, a outra é recordação de uma punhalada. "Eu estava lutando pelo meu país", diz ele, sem fornecer maiores precisões. "Nós tínhamos aulas de educação política. O inimigo eram os Mai Mai e os caras do FDLR [os soldados e os membros de milícias que se bandearam para a RDC em 1994, após terem sido expulsos da Ruanda]". Certa vez, acrescenta Moises, ele foi feito prisioneiro por um grupo de Mai Mai: "Eles me amarraram e me ataram no teto de uma casa, acima do saguão, durante uma semana". Ele explica que conseguiu escapar em circunstâncias misteriosas. Fazendo eco aos relatos dos rapazes que foram recrutados e empurrados para a guerra, em muitos casos contra a sua vontade, os jovens moças que lutaram ao seu lado ou contra eles também contam as suas histórias. Dos seus anos de guerra, essas adolescentes não hesitam a pintar um retrato sombrio. Elas não se queixam. Elas não acusam ninguém. Faida recorda-se de que homens de uniforme de brim - um grupo de Mai Mai - a raptaram um dia que ela estava caminhando para buscar água na floresta. Ela tinha então 16 anos. Ela ficou com eles durante dois anos. Faida foi "feita mulher", conforme ela diz, por um soldado de 20 anos de quem ela ignora por que ele a escolheu em vez de uma outra. Ele é o pai, que ela não quer mais rever, da criança que ela está carregando nas costas. Já faz três meses, ela está aprendendo a costurar. A história de Anouarité, que também tem 18 anos, não é muito diferente. Ela também foi raptada, em 2004, não longe de Goma, por militares - aqueles liderados pelo general Laurent Nkunda, um chefe rebelde que hoje é alvo de um mandato de prisão internacional - e forçada a segui-los enquanto ela estava indo trabalhar na lavoura, certa manhã. Alertados, os seus pais até que tentaram recuperá-la, indo até o campo dos rebeldes, mas, aos serem ameaçados pelos homens de farda, eles foram obrigados a voltar para trás. Ela viveu por cerca de dois anos com os militares do general rebelde, os quais ela foi forçada a acompanhar como se ela fosse a sua sombra nas suas peregrinações. Ela cozinhava, ajudada pelas "grandes mulheres", mais velhas do que ela. Um belo dia, um miliciano tomou-a como mulher. "No início, ele era gentil", conta, "mas, depois ele começou a me bater. As outras mulheres vinham para me consolar". No dia em que ela deu à luz um filho na floresta, ele lhe deu duas tangas. Então, ele sumiu. Ela se aproveitou da situação para fugir do campo. Ela voltou para a sua família, que a recebeu muito bem. Hoje, Anouarité está aprendendo a profissão de costureira, e cria o seu filho. Ela lhe deu o nome de Esperança. Tradução: Jean-Yves de Neufville
Posted on 02/03/2007 5:25 PM Comments (1)
Feministas de Burca
Feministas de burca
subtitulo = ''; if (subtitulo.length > 2) { document.write (''+subtitulo+' ') }; Charlotte Eagar Quando os EUA, Reino Unido e seus parceiros na coalizão invadiram o Afeganistão, há mais de cinco anos, uma de suas principais preocupações - depois do terrorismo e do plantio de ópio - era o tratamento das mulheres pelo Taleban. A degradação das mulheres no Afeganistão conquistou grande parte da aprovação liberal para a guerra.
Sob o Taleban, as mulheres eram proibidas de trabalhar ou ir à escola. Elas eram forçadas a usar longas burcas e esvoaçavam como lamparinas azuis pelas ruas. Se pegas descobertas eram chicoteadas. A punição pelo adultério era a execução em um campo de esportes cercado por multidões, para quem as matanças semanais tomavam o lugar da televisão, cinema, música e outros entretenimentos proibidos. Depois da queda de Cabul, vieram vários "especialistas em discriminação sexual", dedicados a dar poder às mulheres no Afeganistão. Mesmo assim, um relatório no ano passado de uma ONG que trabalha no Afeganistão desde 2003, Womankind Worldwide, afirma que o status das mulheres no Afeganistão não melhorou significativamente nos últimos cinco anos. Nem todas as notícias são más. Graças à discriminação positiva na constituição, inspirada pelo Ocidente, que requer que ao menos 25% dos membros do parlamento sejam mulheres, há hoje 68 mulheres parlamentares. O parlamento Afegão tem uma proporção maior de mulheres (27%) do que o Reino Unido (19%) ou os EUA (22%). A escola é obrigatória para meninas entre 7 e 12 anos. A idade de consentimento para o casamento mudou de 7 para 16 anos para meninas. A igualdade das mulheres agora está garantida pela constituição, que afirma: "Cidadãos do Afeganistão -homens ou mulheres- têm direitos e deveres iguais perante a lei." De acordo com os próprios afegãos, entretanto, e para muitos assistentes sociais que conhecem bem o país, esses avanços freqüentemente não passam de sonhos ministeriais. Muitas meninas em idade escolar não estão na escola; 85% da população feminina é analfabeta (mas também 71% da população é analfabeta) e 1.600 mulheres em cada 100.000 (1,6%) morrem de parto, comparadas com 12 nos EUA (0,012%). Assassinatos de honra são comuns, casamento de crianças ainda mais. No verão passado, conheci um produtor de papoula em Helmand que me disse que tinha acabado de vender uma de suas filhas, de 9 anos, para casar-se com um traficante de ópio. Ele não revelou quanto ia receber, e disse que não podia alimentar as meninas. A tarifa atual para uma menina saudável é em torno de US$ 3.000 (em torno de R$ 6.600), ou mais, se vier de uma família rica. De acordo com agentes de desenvolvimento no Afeganistão, o novo Ministério de Assuntos da Mulher recebe pouco apoio em suas tentativas de mudar as coisas. Tanto a ex-ministra Massouda Jalal quanto assistentes sociais ocidentais dizem que ninguém no governo leva o ministério a sério. "Tivemos ameaças de bomba. Mas não temos carros blindados ou segurança adequada", disse Jalal no verão passado. "O governo paga nossos guardas US$ 20 (aproximadamente R$ 44) por mês. Quem vai arriscar a vida por US$ 20?" Por outro lado, ocidentais que trabalharam dentro dos ministérios afegãos dizem que os novos ministros são mais dedicados a tirar o máximo de proveito para si mesmos e seus acompanhantes do que cumprir seu serviço. O Ministério de Assuntos da Mulher aparentemente não é exceção: suas ocupantes definem "oportunidade igual" para seus próprios propósitos. "Elas acham: 'Finalmente as mulheres têm uma chance de também aproveitar um pouco'", diz um diplomata em Cabul. "Elas passam a maior parte do tempo em viagens ao exterior. Não conseguem resolver nada enquanto estão viajando para os EUA e para a Austrália o tempo todo." Enquanto isso, a segurança continua uma grande preocupação entre as mulheres trabalhadoras. Jamila Niazi é diretora da principal escola em Lashkagar, capital da província de Helmand, que atende 6.000 meninas e 2.000 meninos. "Às 9h da manhã de hoje eu tive outra ameaça contra minha vida", ela me contou no final do ano passado. "Um homem veio à escola e disse que queria conversar comigo. Meu guarda-costas encontrou uma arma escondida em suas roupas, e o homem fugiu." Jamila, que ganha US$ 50 por mês, teve várias ameaças à sua vida somente neste ano, tudo porque está educando meninas. Ao caminhar pelas ruas, o visitante vê que a emancipação estilo ocidental está bem distante. Há poucas mulheres nas ruas das cidades afegãs. Apesar de nem todas as mulheres usarem burca em Cabul, todas cobrem a cabeça em público. Todas dizem que a lei exige. De fato, a constituição e a lei não exigem nada desse tipo -a constituição meramente afirma que as leis não devem "ser contrárias às crenças e condições" do islã- mas o governo "pediu" às mulheres que cobrissem suas cabeças. Graças às guerras intermináveis no Afeganistão, há 2 milhões de viúvas no país. Ainda assim a maior parte dos afegãos acredita que é ilegal mulheres viverem sozinhas. Assim como as cabeças descobertas, a verdade é que não é ilegal - mas quase impossível. Habiba Danish, 26, é uma das mais jovens parlamentares. Ela foi entregue em casamento aos 18 anos, ainda estudante, por seu pai, proprietário de terras e juiz, para ser a segunda esposa de um senhor de guerra em Tahar. Alta e bela, com cabelos negros e longos e pele clara, traços valorizados pela alta classe afegã, Habiba ficou viúva após 38 dias, quando seu marido foi assassinado por seus rivais. "Todo mundo quer encontrar seu próprio marido e se apaixonar", diz Habiba, na sala de estar acarpetada de sua pequena casa em Cabul. "Mas meu pai me disse que cortaria minha garganta se eu falasse com um rapaz. Eu não vi meu marido até o dia do meu casamento." Habiba vive cercada por vários parentes homens, mas dá para perceber que a dinâmica tradicional entre eles está mudando. Seus irmãos a obedecem - nos deixam a sós para conversar na sala e trazem o carro para levá-la ao parlamento. Como ela diz, não é só que ela é "uma mulher rica, com terras e cavalos". Seus irmãos também são ricos. A diferença é que sua posição no parlamento parece, por enquanto, superar a deles de homens. É claro que enfrentam os problemas que as mulheres emancipadas enfrentam em toda parte, problemas que Habiba e suas colegas no parlamento estão começando a descobrir - lidar com o trabalho e o cuidado das crianças, encontrar um parceiro que não seja inibido por uma mulher forte e bem sucedida. "Decidi casar-me novamente, mas não tive tempo de encontrar alguém ainda", diz ela. "Preciso de um marido que possa me apoiar no meu trabalho, me ajudar com minhas obrigações. Preciso de uma pessoa que possa ir comigo às aldeias. Preciso de uma esposa", ela ri. Um dos amigos da família - solteiro, 30, que precisa desesperadamente de uma esposa - fica abismado quando pergunto se gostaria de se casar com ela. "Claro que não, ela é viúva!" "E qual é o problema? Ela é bela, tem um bom emprego, muito dinheiro." Encabulado, ele diz: "Bem... eu queria uma virgem." Ainda assim, no geral, a posição da mulher é muito melhor do que era há cinco anos. Atualmente não se arranca as unhas das mulheres que usam esmalte. Elas -ao menos na classe média- podem pensar em arrumar emprego, exceto, é claro, nas regiões dominadas por islâmicos. Ceri Hayes da Womankind Worldwide e Anne Johnson da Afghanaid querem deixar claro para mim que as afegãs estão desesperadas por independência. "Nossas parceiras nos dizem: 'Por favor, diga à mídia ocidental que não somos mulheres oprimidas de burca'", diz Hayes. "Elas têm visão muito clara sobre o futuro do país, sobre como reconstruir suas comunidades e forjar elos entre diferentes clãs." Azarbaijani-Moghaddam tem origem iraniana mas fala dari fluentemente e pode se passar por afegã. Ela acha que o problema é mais profundo do que as guerras, a religião ou a lei. "Está profundamente arraigado na cultura diária, para os dois sexos. Muitas mulheres se sentem nuas sem o hijab. Elas têm pavor das conseqüências. Temos muitas pessoas trabalhando em programas de conscientização de discriminação sexual, mas elas mal tocam nesses comportamentos." Charlotte Eagar escreve para o The Evening Standard Tradução: Deborah Weinberg
Posted on 02/03/2007 5:19 PM Comments (0)
February 2, 2007Política à brasileiraSeu País
Política à brasileirapor Leandro Fortes Velhos hábitos afloram na disputa pela presidência da Câmara Eleito presidente da Câmara, em segundo turno, na quinta-feira 1º, o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) manteve a tradição retórica da ocasião ao cumprimentar os adversários Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e Gustavo Fruet (PSDB-PR) e conclamar todos ao trabalho duro e democrático. Também usou o rápido discurso de vencedor para enveredar-se por um paradoxo típico do jeito de fazer política no Brasil. Ao agrado da platéia, disse que iria trabalhar “para recuperar a autoridade” da Casa. Pouco antes da votação, falava em “não assistir passivamente aos ataques injustos à instituição e a um parlamentar”. Entronizado, capitulou, finalmente, à tese de que nunca houve Legislatura pior do que a encerrada naquele dia. No Senado Federal, Renan Calheiros, ex-ministro de Fernando Henrique Cardoso e ex-líder de Fernando Collor na Câmara, foi reeleito presidente com o apoio do PT e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Também posou de escaldado pela onda de escândalos da Legislatura passada. Por isso, garantiram os correligionários, optou por uma campanha discreta, sem outdoors ou banners, livre de ostentações materiais. Assim como Chinaglia, agregou para si um tipo de hipocrisia comum aos parlamentares brasileiros. Uma reação, no dizer do escritor americano Norman Mailer, “cheia de indignação moral e, também, de vacuidade moral”. A Câmara que Chinaglia vai comandar ainda é o mesmo vespeiro político que promovia “trens da alegria” durante a ditadura militar, “anões do Orçamento”, no início dos anos 1990 e, na era FHC, serviu de balcão de compra de votos para a reeleição. Sem falar nos sanguessugas do último mandato. O mesmo vale para o Senado, novamente presidido por Renan. Em alguns casos, escândalos e protagonistas ainda são os mesmos. O fato de os eleitos se alinharem, de imediato, a uma tese difundida em uníssono pela oposição e por articulistas dos grandes jornais revela um bocado sobre a cultura política tupiniquim. Embora a eleição no Senado tenha sido relativamente acirrada, foi na Câmara que o jeitinho brasileiro de fazer política se fez mais presente. Até o surgimento da candidatura de Gustavo Fruet, os deputados Arlindo Chinaglia e Aldo Rebelo disputavam, na prática, quem seria mais leal ao presidente Lula. Ninguém falava em “recuperar a autoridade” da Casa. Mas, apesar de advertidos pelos pares, pela imprensa e, provavelmente, pelos motoristas e ascensoristas do Congresso Nacional, a dupla insistiu na divisão da base governista, exatamente como fez o PT, em 2005. Na época, os petistas Luiz Eduardo Greenhalgh (SP) e Virgílio Guimarães (MG) ensaiaram uma sinistra disputa palaciana, enquanto, no baixo clero, um típico vilão do Brasil profundo, Severino Cavalcante, aproveitava a contenda para usurpar o trono petista. Nesse esboço de ópera-bufa, Aldo era o preferido do presidente Lula porque se manteve fiel ao governo mesmo quando, ministro das Relações Institucionais, era fustigado noite e dia pelo então chefe da Casa Civil, o deputado cassado José Dirceu. Que, inclusive, conta com Chinaglia, agora, para lutar por uma anistia política, a vir como proposta de iniciativa popular. Com a queda de Severino, em 2006, acusado de receber propinas de um concessionário de restaurantes da Câmara, Aldo impôs-se como o mocinho do momento. Disputou, voto a voto, contra Thomaz Nonô, do PFL de Alagoas, o direito de comandar a Casa. A imagem do comunista de 50 anos e cinco mandatos à espera da contagem dos votos, com os músculos do rosto contraídos, mas sem sinais de emoção, virou uma marca dessa transição.
Posted on 02/02/2007 2:18 PM Comments (3)
February 1, 2007O público e o privadoO público e o privadoO individualismo do cidadão remediado é tão visceral, tão patológico e tão tragicamente cômico que é também essencial para uma sociedade baseada na “lei do mais forte” Luiz Gonzaga Belluzzo O desabamento da estação Pinheiros da Linha 4 do Metrô foi um painel de desgraças: narra os percalços da vida contemporânea no Brasil brasileiro. O desastre vai além das intermináveis discussões sobre a qualidade das avaliações geológicas ou desencontros sobre a propriedade (ou impropriedade) das técnicas de escavação de túneis. O povo de São Paulo de Piratininga presenciou uma tragédia humana, urbanística, social e midiática. Primeiro o óbvio: nas últimas décadas, consolidou-se, entre as camadas dominantes e bem-pensantes, a convicção de que a vida coletiva e os riscos dos cidadãos podem ser resguardados ou administrados pelos critérios do lucro privado. Saiba o leitor que não embarco na maré acusatória fomentada pela mídia do espetáculo macabro. Nem mesmo pretendo descartar a possibilidade de relações virtuosas entre o Estado e o Mercado. Muito ao contrário: julgo que o período glorioso da vida social e do progresso econômico deve seu desempenho às articulações que, na segunda metade do século XX, enlaçaram o público e o privado. Cuido aqui de um processo de deformação do imaginário social estimulado pelos mesmos que se valem da tragédia para endurecer o indicador ou produzir factóides e inventar personagens. Há quem diga que o lucro é a conquista suprema da raça humana e tudo o que existe ou está para existir deve se submeter às normas do ganho monetário. Alguns brasileiros, da classe média para cima, vêm tentando transformar esse axioma em orientação para a vida prática. Não é de hoje que tentam safar a onça entregando a sua saúde e a de seus filhos à iniciativa dos privados. Não apenas a saúde, mas também a educação, a segurança, a aposentadoria etc. É claro que o repúdio dessa gente à saúde pública, à escola pública, à segurança pública é um gesto de diferenciação, de distinção em relação aos de baixo, uma espécie de grife que os identifica como consumidores de bom gosto em oposição à rafaméia vestida em andrajos. A grande vantagem dessa atitude é que, de quebra, fica justificado o descumprimento das obrigações coletivas – desde o estacionamento em lugar proibido até a esperteza de furar filas e trafegar pelo acostamento –, ensejando uma espécie de anarquismo de remediados. Há fortes evidências, neste momento, de que, salvo para os de cima – descontados os desabamentos de túneis –, a experiência foi desastrosa. Quando entro em tais considerações, os amigos me censuram: “Mas você é da classe média”. Respondo: “Com muita honra”. Mas emendo de primeira: “Não sei por quanto tempo”. A verdade é que, de uns tempos a esta parte, a chamada classe média precipita-se ladeira abaixo. É claro que alguns ainda conseguem se agarrar à nave espacial dos mais ricos, que decola célere em direção à economia moderna e globalizada. Mas esses são cidadãos do mundo e só fazem cálculos em dólares porque não acreditam, de fato, que o real seja uma moeda forte. A coisa degringolou. Os que continuam acreditando nesta balela contam os tostões para pagar dívidas, têm pesadelos com o desemprego ou fecham os seus negócios porque o faturamento mergulha em parafuso. A situação mais dramática é a dos desempregados que, sonhando em ser patrões de si mesmos, não encontram um Estado capaz de construir um ambiente de negócios propício ao bom desempenho dos novos empreendimentos. Mas os mitos em que aprendeu a acreditar impedem o cidadão remediado de avaliar as verdadeiras razões de suas decepções. Para ele, o indivíduo é o único responsável por suas desditas. Se quebrou a cara, é porque não teve competência para fazer melhor, não soube vencer os competidores nem ultrapassar as suas circunstâncias. O seu individualismo é tão visceral, tão patológico e tão tragicamente cômico que é também essencial para a reprodução de uma sociedade que funda a sua justificação moral na “sobrevivência do mais forte”. Sobrevivem realmente os mais fortes, mas os mais fortes são mais fortes há muito tempo e o resultado da luta competitiva só pode ser a dizimação dos incautos que se julgavam aptos a concorrer. É verdade que alguns conseguem se agarrar à espaçonave que arranca em alta velocidade. Mas a maioria é tragada pelos buracos da vida. Os planos de saúde, a escola privada, esses pesadelos não foram ainda suficientes para ensinar às vitimas do individualismo as lições da vida. Faltam ainda os ensinamentos da previdência privada. Mas eles não tardarão. Assim, desde as crianças até os velhos, passando pelos de idade adulta, todos poderão provar das delícias do privatismo.
Posted on 02/01/2007 6:11 AM Comments (1)
December 25, 2006Islã
O Islã tal como é
por Daniel Lopes
As escolhas para quem quer ler um livro sobre o islã fundamentalista, terrorista, misógino, são muitas, infinitas. Se você procura uma visão da religião fundada por Maomé que vá contra a ideologia do “choque de civilizações”, terá que se esforçar um pouco mais na busca, mas quando encontrar e ler No god but God – the origins, evolution and future of Islam, é provável que a obra, lançada ano passado, lhe baste. Escrito pelo pesquisador Reza Aslan – iraniano desde 1979 radicado nos Estados Unidos, onde conseguiu um bacharelado e dois mestrados, um deles em Estudos Teológicos pela Universidade de Harvard – o livro (recentemente lançado em paperback pela Arrow Books) traça um alentado percurso pelos caminhos a que se propõe no subtítulo. É uma escrita de rara beleza em uma obra de não-ficção, e, nos vários momentos em que lida com reconstituições de acontecimentos históricos, a qualidade é nada menos que literária. O que, junto com uma abrangente e respeitável bibliografia de apoio, só ajuda na tarefa que o autor se propôs: desconstruir a visão monolítica que grande parte dos ocidentais temos do mundo muçulmano. Em meio a uma corrida rotina – pesquisador na Universidade do Sul da Califórnia, candidato a um doutorado em História das Religiões na Universidade da Califórnia e colaborador de veículos como New York Times, Washington Post e The Nation – Aslan arrumou tempo para conceder por e-mail uma entrevista a Caros Amigos, onde aborda temas como Irã, Israel, a condição da mulher no mundo muçulmano e o desenvolvimento da democracia no Oriente Médio. Como é ser um estudioso heterodoxo do Islã nos EUA de G. Bush? Os conservadores diriam que liberais como você, com pontos de vista tolerantes em relação ao Islã, sempre tiveram um espaço predominante no campo de idéias (mídia e academia), o que eles dizem ter levado a uma subestimação do Islã radical e, em última instância, ao 11 de Setembro. O ponto de vista heterodoxo do Islã é predominante no debate estadunidense hoje? Nos primeiros capítulos de Not god but God, no meio de várias informações e estórias que nos são contadas, uma se sobressai, aquela sobre como os ensinamentos de Maomé foram desvirtuados por uma série de hadiths dos chamados Companheiros, que você identifica como “a primeira geração de muçulmanos”. De que maneira e por que esses homens deturparam as idéias de Maomé? Isso pode nos lembrar de alguma forma a famosa afirmação de Nietzsche no Anticristo, de que “o Evangelho morreu na cruz” junto com Cristo. O autor aborda como Paulo distorceu ensinamentos de Jesus para avançar sua própria agenda. Essa é uma analogia correta? Seria correto afirmar que o Islã é uma religião na qual os seguidores têm um maior sentimento de grupo e de união, mais do que, digamos, nas outras duas grandes religiões monoteístas? Então as últimas ações israelenses no Líbano não ajudam muito na boa imagem de Israel no mundo muçulmano, ajudam? Você é um iraniano. Qual sua visão do país natal hoje? É ele todo esse amontoado de problemas que vemos nas notícias? Você colocaria Mahmoud Ahmadinejad como um “acidente” ou como um personagem previsível na cena iraniana? Você fala sobre deixar o Irã em paz se o desejamos mais democrático. Você pensa o mesmo de países como Arábia Saudita e Síria? Salameh Nematt, do jornal londrino em língua árabe Al-Hayat, disse em 2004 numa entrevista à Newsweek que “a propaganda de que a democracia [no OrienteMédio] deveria ter origem doméstica, e não ser imposta de fora, é uma piada”, e disse também que as duas primeiras democracias que nós iríamos ter na região, Afeganistão e Iraque, só ocorreriam por conta da intervenção dos EUA. Em seus textos lemos com freqüência que a “exportação da democracia” propagada pelos EUA está fadada ao fracasso, porque o conceito de democracia radicalmente secular não agrada aos muçulmanos. Que tipo de democracia o mundo muçulmano teria a oferecer? Você também costuma analisar os muçulmanos moderados, liberais. Hoje, eles estão em condições de se contrapor ao poder dos fundamentalistas? E como o Ocidente ajuda ou atrapalha o desenvolvimento de um Islã mais aberto? Seu livro lida também com o complexo tema do papel da mulher no Islã. Você levanta uma curiosa história acerca daquele que é o símbolo da opressão à mulher, o véu. Conte um pouco sobre as origens do véu e como você vê o atual estado da mulher nas sociedades muçulmanas. Qual é o futuro do Islã?
Posted on 12/25/2006 2:01 PM Comments (1)
DesavisoDesavisoMarilene Felinto O homem mais alto do mundo e os homens mais gordos da televisão Numa sociedade regida por princípios quantitativos, o realismo numérico é ferventado a todo instante pela mídia (para usar uma idéia do crítico Fábio Lucas). A televisão, por exemplo, é povoada por elementos, indivíduos e situações inspiradas nesse princípio dos “recordes” numéricos (de peso, de altura, de distância, de velocidade etc.). Basta analisar a coleção de homens obesos ou quase obesos que desfila por telejornais e programas de “entretenimento” nas redes de televisão nacionais: Faustão e Jô Soares são apenas espécimes clássicos (da Rede Globo). Seguem-se a eles Datena e Gilberto Barros, da Rede Bandeirantes, e Luciano Faccioli, da Rede Record, para citar os que mais aparecem. Como profissionais (do jornalismo ou do showbiz, que uma coisa aqui já não se dissocia da outra) são mais ou menos medíocres, e tudo indica que aparecem mais pelo excesso de gordura do que pelo “serviço” que prestam. Outro dia, no início de novembro, juntaram-se numa única cena – algo grotesca – o apresentador Jô Soares, que se vende corporalmente na mídia como “o gordo”, e o chamado “homem mais alto do mundo”, assim apelidado por uma dessas bíblias da imbecilidade contemporânea, o tal “livro dos recordes” ou Guinness World Records. Nada sobraria do que teria sido uma entrevista do apresentador com o tal homem mais alto do mundo, o chinês Xi Shun, 55 anos e 2,36 metros de altura: Jô Soares, por meio de sua veia cômica de baixa extração, não fez outra coisa senão ressaltar, a golpes de sensacionalismo, o ridículo a que estavam expostos o homem gigante, mercadoria do Guinness que perambulava mundo afora divulgando a tal bíblia e um tal “Dia Mundial dos Recordes” (9 de novembro!) e ele próprio, “o gordo”. Nada de interesse foi perguntado ao chinês na pseudo-entrevista: se sua altura insólita era coisa de família, questão de genética, se seus parentes eram igualmente altos, se a altura lhe causava algum problema físico (que explicasse a bengala que usava, por exemplo). Na entrevista onde tudo era falso – o chinês, que não falava uma única palavra em português e dependia de uma intérprete, permaneceu o tempo todo alheio às piadas de mau gosto do apresentador –, sobressaíam a deformidade apenas, as formas distorcidas do espetáculo grotesco. Afinal, no universo do grotesco, destaca-se aquilo que se presta ao riso ou à repulsa por seu aspecto inverossímil, bizarro, estapafúrdio ou caricato. Trata-se da visualização do monstruoso, do insólito, do ridículo, do extravagante e do kitsch. Por que se exibem tantos homens gordos na televisão se não por isso, se não como elemento da espetaculosidade banal que configura este meio de comunicação cheio de falsas sugestões? Não seria mera coincidência. E não se trata de os gordos estarem na contramão da vocação narcísica sob a qual o sentido da vida é buscado, na esfera estética, na beleza produzida nos laboratórios, nas academias de ginástica, nos regimes de alimentação e nas cirurgias plásticas. Não – trata-se da mesma vocação ao inverso. Trata-se, além do mais, de um reforço no ideário machista de que homem pode ser qualquer coisa, fazer qualquer coisa e aparecer de qualquer jeito: até mesmo como o “gordo” grotesco. Ora, por que não se exibem mulheres balofas na televisão, nos telejornais, nos programas de “variedades”? Pelo motivo óbvio de que está consumada no mercado de mídia a idéia de que mulher é objeto sexual e tem, portanto, que aparecer como tal – quando não anoréxica e bulímica, os quase-cadáveres dos desfiles de moda. Este comentário não tem nenhuma intenção preconceituosa contra gordos. O que se diz aqui é que a presença específica de homens obesos nas redes de televisão nacionais tem a ver com o fato de a imagem gorda deles combinar com a concepção de “consumo” e “devoração” em que se funda a mídia hoje – “devorar” no sentido mesmo de destruir rápida e completamente, de apoderar-se, de usurpar. É antes por seu peso e tamanho físico que o apresentador-jornalista Luciano Faccioli, da Rede Record, é homem de televisão. Não é por excelência profissional. No telejornal matinal São Paulo no Ar, o apresentador dá um show de obviedade piegas nos comentários e análises descabidas do noticiário que apresenta. Para não falar da espetacularidade perversa operada por Datena (Brasil Urgente, Rede Bandeirantes) à custa da exploração da violência no universo das classes pobres. Para não falar de outra nulidade chamada Gilberto Barros (Boa Noite Brasil, Rede Bandeirantes). Num conto antológico e genial chamado “A Menor Mulher do Mundo” (em Laços de Família, 1960), a escritora Clarice Lispector esgotou essa característica de apropriação devoradora da mídia que transforma pessoas em exóticas notícias de jornal ou televisão (como Jô Soares fez com “o homem mais alto do mundo”). A narrativa de Clarice vai apresentando o processo de “devoração” de que é vítima a personagem “Pequena Flor”, a menor mulher do mundo, descoberta “nas profundezas da África Equatorial” pelo explorador Marcel Pretre. “No Congo Central descobriu realmente os menores pigmeus do mundo. E (...), entre os menores pigmeus do mundo, estava o menor dos menores pigmeus do mundo.” Era uma mulher, que estava grávida, e a quem o explorador apelidou de “Pequena Flor”: “Marcel Pretre defrontou-se com uma mulher de quarenta e cinco centímetros, madura, negra, calada”. Todo o conto é a expressão do contraditório sentimento de amar sem devorar nem ser devorado: “E então ela estava rindo (...). E ela continuou fruindo o próprio riso macio, ela que não estava sendo devorada. Não ser devorado é o sentimento mais perfeito. Não ser devorado é o objetivo secreto de toda uma vida”. Primeiro conta-se como a raça de Pequena Flor estava sendo aos poucos exterminada, a devoração real: “Sua raça de gente está aos poucos sendo exterminada. (...) Os bantos os caçam em redes, como fazem com os macacos. E os comem. Assim: caçam-nos em redes e os comem. A racinha de gente, sempre a recuar e a recuar, terminou aquarteirando-se no coração da África, onde o explorador afortunado a descobriria”. Num segundo momento, Pequena Flor é vítima de uma devoração simbólica: a de seu aparecimento num veículo de imprensa. “A fotografia de Pequena Flor foi publicada no suplemento colorido dos jornais de domingo, onde coube em tamanho natural. Enrolada num pano, com a barriga em estado adiantado. O nariz chato, a cara preta, os olhos fundos, os pés espalmados. Parecia um cachorro.” Pequena Flor é então vítima da reação da gente gorda que a vê no jornal e quer também comê-la, apoderar-se dela, usurpá-lá. Em uma casa, um menino leitor diz à mãe perplexa diante da foto da menor mulher do mundo: “– Mamãe, se eu botasse essa mulherzinha africana na cama de Paulinho, enquanto ele está dormindo? Quando ele acordasse, que susto, hein! Que berro, vendo ela sentada na cama! E a gente então brincava tanto com ela! A gente fazia ela o brinquedo da gente, hein!”
Marilene Felinto é escritora.
Posted on 12/25/2006 1:57 PM Comments (0)
September 7, 2006amor verbo intransitivoAmor: verba intransitiva
Pesquisando o amor e o ódio em Zâmbia,
por Henrique Goldman
O nome dela é Salomé. Ela tem 22 anos, é portadora de uma bunda nababesca e um par de peitos estonteantes -- poderia perfeitamente ser a Trip Girl, se houvesse uma edição zambiana da nossa revista. Mora sozinha num barraco sem janelas, sem água corrente e sem eletricidade em Missis, uma favela fétida de Lusaka, capital da Zâmbia. Ela cobra dez dólares por um boquete e 20 por uma foda completa. Sem camisinha, o preço sobe para 30. Salome é a única sobrevivente de uma família inteira dizimada pela Aids. Há alguns meses ela fez o exame para saber se estava infectada, mas nunca teve coragem de buscar o resultado.
Deixei claro que eu não queria sexo e, por 500 dólares semanais, consegui conquistar a sua amizade. Ela foi o meu guia pelos bares e prostíbulos da Zâmbia, onde eu estou fazendo uma pesquisa sobre amor e ódio entre ricos e pobres. Estávamos almoçando quando eu perguntei para a Salomé se ela já tinha se apaixonado. Ela me olhou com olhos gélidos, sorriu amargamente e disse, entre uma mordida e outra numa coxa de frango: “Eu vejo as pessoas se apaixonando nas novelas, eu vejo casaizinhos brancos bem vestidos andando pelas ruas de Lusaka de mãos dadas, eu ouço canções românticas no rádio e acho tudo muito lindo. Mas esse negócio de amor é coisa só pra rico. Pobre, que passa fome, que mora em favela e que não pode pagar dentista quando tem dor de dente, nem sabe o que é amor. Pensa só em sobreviver”.
Fiquei alguns instantes absorvendo suas palavras. Fiquei parado, olhando para ela sem conseguir engolir a comida, querendo continuar a entrevista mas sem imaginação para pensar na próxima pergunta. Indiferente, ela terminou a coxa do frango e começou a comer a asa. Aos poucos percebi que o que ela acabara de me dizer era muito profundo e revelador. Percebi que foi para ouvir isso que vim até a África.
Amor, no sentido de uma relação romântica entre dois seres humanos, é um conceito universal, inerente a todos, ou uma mera construção cultural? Pão vale mais do que beijo? O quanto mais ou menos? E o tesão? Tesão é mais pão, mais beijo ou só uma confusão a mais? Na extrema miséria de Auschwitz, as pessoas não se apaixonavam? Onde existe mais verdade – em O Capital, de Karl Marx, ou no Romeu e Julieta, de William Shakespeare?
Minha
pesquisa deveria ter gerado resultados, dados e conclusões. Mas, longe
disso, este encontro com a Salomé deu mais um, entre tantos nós na
minha cabeça. Se é verdadeira a equação menos dinheiro, menos amor, o
Bill Gates deve ser o homem mais romântico do mundo, muito mais
romântico do que o Roberto Carlos. *Henrique Goldman, 44, cineasta, sempre teve saldo suficiente para se apaixonar. Seu e-mail é: hgoldman@trip.com.br
Posted on 09/07/2006 9:30 PM Comments (1)
August 28, 2006Pensem nas crianças como rosa cálidasO QUE A CNN e a GLOBO NÃO MOSTRAM
Líbano
Para você que está absorto, acompanhando com afinco os capítulos de novelas globais , acho bom tomar conhecimento do que está acontecendo no mundo atualmente. Para assinar entre no site fonte : http://fromisraeltolebanon.info/ (para quem quiser comprovar a veracidade das fotos)
Crianças Israelenses escrevendo recadinhos de amor a exemplo do soldado americano que escreveu o da Bomba Atômica que foi lançada em Iroshima em 1945. Uma criança como esta, um dia futura mamãe, com certeza
A fila é grande e todos querem escrever
Os mísseis chegam com os recados e saudações...
La vem mais....
Continuam chegando....
Calma, que tem pra todos...
Finalmente os recados chegaram...
E foi bem recebido...
Bem recebido por todos...
Bem recebido até demais...
Em qualquer lugar...
Sem comentários...
Por favor, não precisa mandar mais...
Só mais um pouquinho...
Em todos os lugares
Desolação
Lindo, maravilhoso, o alvo foi atingido com sucesso...
É pena os automóveis destruidos...
Avalie você mesmo...
Avalie você mesmo...
Avalie você mesmo...
Avalie você mesmo...
Avalie você mesmo...
Avalie você mesmo...
Avalie você mesmo...
Avalie você mesmo...
Agora, fotos mais suaves...
Se coloque no lugar dela...
Se coloque no lugar dele também...
Avalie você mesmo...
Avalie você mesmo...
Avalie você mesmo...
Até quando ?
* * *
Pronto, agora você pode esquecer tudo isto e
Posted on 08/28/2006 5:51 AM Comments (1)
August 17, 2006Como se enfrenta a mutilação feminina?Como se enfrenta a mutilação femininaEm Burkina Faso, um dos três países mais empobrecidos do planeta, organizações sociais e autoridades desafiam preconceitos e alcançam êxitos notáveis contra prática centenária da excisão do clitóris
Por alguns dias, ainda é a estação de seca em Burkina Faso. Logo, não poderemos mais passar em Bissiri, pequeno vilarejo de mata situado a cerca de 50 quilômetros de Ouagadougou, a capital. São umas trinta casas de tijolo espalhadas numa área de vários metros quadrados, às vezes precedidas de um pátio definido por um muro. Sob uma grande árvore, cerca de 50 pessoas aguardam. Integrante do Comitê Nacional de Luta contra a Prática de Excisão (CNLPE), Aminata Ouedraogo diz, satisfeita: “Eles estão motivados, já é um grande passo”. Será que tal motivação se deve a um suposto interesse no que vai lhes ser dito? À perspectiva de uma distração? Ao pagamento que os chefes recebem? Em todo caso, eles estão lá: os homens de um lado, as mulheres do outro. Com três colegas do CNLPE, Ouedraogo veio conduzir um dos últimos “diálogos educativos” da estação. Seu representante no vilarejo, um jovem rapaz de cerca de vinte anos, vestido com uma camisa cuja estampa reproduz o cartaz do Dia Internacional da Mulher, começa um discurso em mooré, única língua que todos compreendem. Durante dez minutos, ele fala em tom monocórdio. Ouedraogo murmura: “Não está bom”. Ela se levanta, manda o jovem sentar-se em seu lugar. O público espera. E a reunião vira um show de fogos de artifício. Ela faz mímica, salta sobre um pé e sobre outro, vai em direção às mulheres, se vira em direção aos homens, faz perguntas, provoca a participação de alguns, depois de outros. Ela puxa a língua e pergunta: “Vocês sabem para que isto serve?”. Alguns respondem: “Para comer”. “Para lamber” (ouvem-se risadinhas). “Para sentir o gosto”. “Isso mesmo, para sentir o gosto de tudo que é bom e do que não é bom. Não lhes cortaram a língua? Vocês ainda a têm? ” Consentimento. “Então, por que lá embaixo, eles cortam?” Gargalhadas. Mas gargalhadas que oscilam, depois param, o tempo exato para que o comentário faça seu caminho. O jogo está ganho: durante uma hora, Ouedraogo vai desenvolver os argumentos contra a excisão, vincular esses argumentos aos direitos fundamentais, fazer uma analogia entre diferentes costumes, mostrando que não há nada de universal neles, desmontar argumentos religiosos, tomar a Europa como exemplo para provar que as mulheres não mutiladas podem se casar e dar à luz tão bem como as outras... Surpresa: a lei começa a sair do papelDesde de novembro de 1996 (ver texto nesta edição), a excisão é proibida em Burkina Faso e sua prática é enquadrada pelo código penal. E, mais surpreendente ainda, a lei é aplicada. Em Kogolonaba, em um bairro afastado de Ouagadougou, ficam os escritórios centrais do CNLPE. Nada denota riqueza, a não ser alguns pesados carros 4 x 4, brancos, mas estampados com o logotipo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Escritórios abarrotados de gente, pintura descascando, corredores entupidos de sacos de cimento. Alguns poucos computadores reinam sobre as mesas. Devido ao custo, é proibido ligar para um telefone celular a partir do escritório. Na parede, estão fixados cartazes contra a excisão, inocentes, cruéis e intensos. Num deles, uma jovem mulher, cercada de máscaras africanas, mantém as mãos diante de seu sexo, uma concha negra de onde caem algumas gotas vermelhas de sangue. O slogan reverbera: “Diga não à prática da excisão!”. Ali, um grupo de homens e mulheres, funcionários, tenta lutar contra o mal. Convictos, militantes, sem nuances. Não há consideração multicultural ali, não há reavaliação do peso das traduções. Uma palavra de ordem, apenas uma: extinguir a prática. Sociólogos, pesquisadores, agentes públicos se uniram. Desde 1990, 45 comitês de luta contra a prática da excisão (CPLPE) vêm atuando, multiplicando os deslocamentos no território. Porque o verdadeiro, o primeiro problema é a informação: dizer em cada vilarejo que tudo mudou, que o que era permitido ontem é proibido hoje. É necessário apresentar Burkina Faso, um dos países mais pobres do mundo [1], um vasto monte de terras quase todo árido situado em plena zona do Saara que mal se sustenta com uma economia agrícola e governado por um regime político que oscila entre acordos democráticos e períodos de endurecimento. Sessenta etnias, que falam línguas diferentes, co-habitam o país. A taxa de alfabetização é muito baixa [2] e 80% dos habitantes vivem na zona rural. Os vilarejos estão espalhados na planície, geralmente afastados uns dos outros. As estradas asfaltadas são raras e a estação de chuvas isola certas regiões durante meses. A primeira dificuldade consiste em vencer a distância, os quilômetros de estrada, a lama deixada pela chuva, a falta de carros, de alto-falantes e até de pilhas para os megafones. Em Béré, um pequeno vilarejo na província de Bazéga, uma associação local, Mwangaza Action, organiza uma jornada de oficinas destinadas a chefes dos costumes. Longas horas de trabalho se iniciam, divididas em módulos muito precisos. É necessário gerar interesse para que eles compreendam por si sós o absurdo de suas posições, ao invés de tentar impor-lhes supostas evidências. “A lei é correta, mas não serve de nada se as pessoas não estiverem convencidas”, afirma Roger Belensigri, sociólogo que trabalha em Béré. Inicia-se, então, uma longa seqüência de palestras na sala de reuniões do vilarejo. Trajando um belo vestido azul, com sapatos brancos de salto alto, Amila Tapsora, membro do Mwangaza, expõe a programação em mooré. Os painéis são escritos à mão em papel craft, a fita adesiva é usada com muita economia. Os chefes são mais ou menos atentos. Um deles adormece. Dois jovens riem em um canto. A lenta conversão dos chefes de costumesO evento é aberto com um curso de uma hora sobre os órgãos genitais femininos, cujas explicações são ilustradas por desenhos de um realismo bastante cru. Impassível, Tapsora mostra, com uma régua, do que se trata, depois de ter pedido a dois voluntários para que dissessem o que sabiam sobre os órgãos do desenho. Para quem não é mulher, os dois se saíram razoavelmente bem. Mas os detalhes mais internos e as sutilezas do processo reprodutivo lhes são desconhecidos ou quase. Risadinhas e piadas são abundantes nesta etapa. Depois, insensivelmente, o cerco se fecha novamente. O que eles sabem sobre a excisão? O que sabem sobre o porquê da excisão? Qual é, segundo eles, o discurso religioso sobre a excisão. Os costumes, os pretextos são dissecados, as certezas são cada vez mais abaladas. Quando o dia termina, todos estão visivelmente cansados. Um homem protestou porque era o dia da festa do Mouloud (que celebra o nascimento do profeta Maomé) e disse que sua família o esperava. Outro foi embora. Mas vários manifestaram interesse, e nenhum rejeitou violentamente o que era dito, como aconteceu no norte do país. O que terá permanecido em suas mentes? À noite, os organizadores do evento fazem um balanço. Belensigri acredita que funcionou. Séverine Zongo, sua colega, tem dúvidas. Já faz vários meses que eles estão ali, e ficarão ainda mais seis meses. Zongo enumera as dificuldades que o grupo enfrenta: a falta de recursos face à crescente demanda, o peso sociológico, a clandestinidade crescente. “A verdadeira luta é a de tentar convencer os chefes dos costumes. Eles têm medo de que a mudança diminua sua influência e o temor é confirmado, segundo seu ponto de vista, pela desenvoltura dos jovens”, explica Drissa Sawadogo, da Secretaria de Assuntos Sociais da província de Bazéga. Detentores de um poder real nos vilarejos, os chefes de costumes têm uma influência maior até mesmo que a dos chefes religiosos. Alguns deles já se deixaram convencer. As pessoas presentes em Béré lembram-se do dia triunfal, em 3 de maio de 2003, quando 23 vilarejos fizeram, juntos, uma declaração de abandono da prática da excisão. Cinco mil pessoas assistiram à cerimônia, ocupando a praça do vilarejo como uma tropa do exército. Também durante alguns meses (de dezembro de 2000 a março de 2002, com uma interrupção causada pela estação de chuvas), Béré, Bindé e outros vilarejos seguiram um programa de informação e sensibilização que abordava direitos humanos, planejamento familiar, condição da mulher... Este foi um dia de festa. A televisão e a imprensa do país (que, na maior parte do tempo, só se desloca para uma reportagem se há a perspectiva de uma remuneração) estiveram lá. Uma tribuna foi montada para a ocasião. Fazia calor, mas as pessoas tinham preparado seus melhores trajes. Uma mulher subiu na tribuna e leu a declaração: “Nós praticávamos a excisão porque pensávamos que era a melhor coisa para nossos filhos, porque éramos analfabetos, porque ignorávamos as conseqüências de tal prática para a saúde, porque ignorávamos que todo ser humano tem direitos, como o de dispor de seu corpo”. A mensagem é clara: da ignorância, nasce a obscuridade; pela educação, virá a luz. Contra-argumentos: tradição e multiculturalismoNorte do país, província Oudalan. Karamoko Traoré é chefe de costumes. Cerca de 50 anos, alguns tufos grisalhos na barba curta, a cabeça coberta por um chapéu tradicional, um bubu branco e azul. Toda esta agitação sobre a excisão quase o divertia. “Sempre fizemos isto. É a tradição. Por que precisaria mudar? Se não as operamos, as garotas vão a toda parte. Para que elas cheguem virgens ao casamento, é preciso que se faça a excisão. E é mais higiênico. No vilarejo de meu cunhado, há mulheres não cortadas. Elas são loucas”. Loucas como? Ele sorri, mas não responde. “Nós sempre tivemos prazer com nossas mulheres. Hoje, os jovens não respeitam nossos costumes. É por isso que existe a AIDS, o divórcio aumentou e a prostituição também. Os primeiros muçulmanos se escondiam para rezar e eles acabaram vencendo. Será a mesma coisa para aqueles que nós obrigamos à excisão escondida. Eu quis que minhas filhas fossem cortadas, fiz meu dever e elas devem fazer o delas“. Estes argumentos podem se multiplicar, assim como se ouve dizer que o clitóris contém vermes (confusão feita freqüentemente e ligada a secreções vaginais relacionadas à má higiene íntima) que causariam impotência ao homem, e que se a cabeça do bebê os tocasse durante o parto, a criança morreria ao nascer. Mais séria ainda é a idéia de iniciação – a excisão freqüentemente fazia parte de um rito. Mas o que significa este rito quando se mutilam crianças cada vez mais jovens, às vezes com apenas alguns meses de idade? Evocar a perda do prazer é inútil, como constata o sociólogo Zachari Congo. “A maior parte das mulheres cortadas passaram pela cirurgia ainda virgens e têm dificuldades de imaginar aquilo que perderam. Para lutar, vale muito mais a pena se utilizar dos argumentos sanitários. Podemos conceber a renúncia à excisão para facilitar a chegada de um filho, não para que as mulheres aumentem seu prazer sexual”. Frequentemente, é o temor de obedecer “aos brancos” que se manifesta. O jornalista Boubacar Traoré escreveu a respeito disso num editorial intitulado “Não condenem a excisão” [3]: “Em muitos aspectos, a luta contra a excisão testemunha também um fulgurante choque de culturas. Como explicar a uma velha ’cortadeira’ de Mali, cujas habilidades lhe foram transmitidas por sua mãe, que sua atividade hoje é um crime? Há práticas que podem nos parecer, sob um prisma ocidental, selvagens, para dizer o mínimo. Mas elas se inscrevem em outros lugares como um rito banal. Guardadas as proporções, vocês encontrarão mais que um africano escandalizado de ver que muitos ocidentais não hesitam em abandonar seus pais e lhes internar em asilos quando eles se tornam velhos”. A educação provavelmente se viu superada por sua velha companheira, a repressão. Desde novembro de 1996, una lei condena a excisão. Ela prevê penas de prisão de seis meses a três anos para pessoas que praticam a mutilação, e de cinco a dez anos em caso de morte da vítima, mais uma multa que varia entre 229 e 1372 euros). Para os médicos, a pena máxima é a proibição do exercício da medicina durante cinco anos. O fantasma das excisões clandestinasAqueles que desejam fazer denúncias, têm a sua disposição um número verde da SOS Excisão, o 80-00-11-12 “Sem isso, até o custo da ligação poderia dissuadir as pessoas”. É o número que toca no escritório do policial Antoine Sarron. Desta vez, um vizinho avisa que uma excisão está sendo preparada em um local na zona de Tampoui, em Ouagadougou. Com dois outros agentes, Sarron pega o carro da prefeitura local e segue para lá. Tampoui é um bairro pobre como vários outros em volta de Ouagadougou, ainda que, de longe, se possa avistar as construções de Ouaga 2000, a nova cidade ao estilo de Brasília que está sendo construída. Numa rua não asfaltada, onde a poeira sobe quando os veículos passam, dormem dois mendigos sob o sol. Há um canal para o esgoto, lojinhas que vendem de tudo, “maquis”, os pequenos restaurantes populares no interior dos quais zumbem multidões de moscas. O carro para diante de uma casa, provocando imediatamente uma aglomeração. Sarron sai e bate a porta. Uma agitação se instaura, mais curiosa do que agressiva. Melhor assim – quanto mais pessoas virem a cena, mais a mensagem se espalhará. Uma mulher vem abrir. Ela saberia do que se trata? Em seus olhos, passa o velho brilho de quem espera a polícia e pensa que vai conseguir enganá-la. “Bom dia. Sou o delegado local. Recebemos uma ligação avisando que haveria uma excisão.” Silêncio. Um homem chega. “Uma excisão? Aqui? Não?”. Sarron já percebeu que aquele é o endereço certo. As negações do homem são convictas demais e, ao mesmo tempo, pouco convincentes. Ele penetra no local com os dois outros funcionários. Duas meninas brincam. Qual das duas deverá ser operada? Talvez ambas. Ainda há tempo de impedir. Sarron explica, lembra-os que a excisão é proibida, tenta justificar a proibição. À sua frente, sem confessar, a dona da casa nem nega mais. Depois de uma hora de conversa, Sarron parte. Ele conseguiu convencer? Não se sabe. Mas ele prefere prevenir do que reprimir. “Agora, eles sabem. Espero que a mensagem passe. Muitas excisões ainda acontecem porque as pessoas são ignorantes. Se eles fizerem, de qualquer maneira, nós saberemos. E terei de punir. Na província, é a equipe da delegacia que está em ação. Mas são muitos os que desafiam a lei. Isso acontece até na cidade: Ouagadougou ficou estarrecida, há dois anos, pela prisão e condenação de uma certa Madame Barry. Em 15 de agosto de 2004, ela e treze de suas cúmplices foram presas no bairro de Tanghin, no meio da cidade. Dezesseis meninas tinham acabado de ser mutiladas, todas com a mesma lâmina. Madame Barry, 70 anos, já tinha sido presa duas vezes por excisão. Ela ganhava 38 centavos de euro por operação. Desta vez, pegou seis anos de prisão. Pouco depois, em Massé, no dia 16 de agosto, foram descobertas mais cinco vítimas, uma das quais, de dois anos de idade, morreria. O avô tinha solicitado a excisão e a “cortadora”, chamada Bila Kaboré, tinha se sensibilizado e jurado parar. Um mês mais tarde, em setembro de 2004, na província de Nahui, uma menina pediu para ser cortada, porque suas colegas de escola caçoavam dela. Mais uma vez, o cortador tinha aposentado suas facas, mas os deuses lhe disseram que ele morreria naquele ano se não fizesse. Nas estatísticas, um claro resultadoA clandestinidade, inevitável perigo ligado a toda proibição, se desenvolve. As excisões são feitas às escondidas, cada vez mais cedo, às vezes em bebês de alguns dias, porque é mais fácil. Geralmente, as pessoas das cidades vão para o campo, onde vemos em suntuosos carros pararem nas portas das cortadoras. Alguns pais vão a Mali ou Gana, onde não há lei que proíba a prática. Ainda não houve condenações por excisões feitas fora do país. A higiene é ainda mais improvável, o preço aumenta. Em qual proporção? Difícil saber. Os bolsões de resistência ainda são numerosos. Dezesseis províncias ainda são identificadas como de forte prevalência da prática. Para as cortadoras, que transmitem sua profissão de mãe para filha, o negócio se torna cada vez mais rentável, por conta da clandestinidade. “Observei minha avó durante 10 anos. Operei dos 22 aos 46 anos. As mães me procuravam, mas parei no dia em que uma menininha quase morreu”, conta uma mulher de Markoye, na província de Oudalan. Em alguns países, dentre os quais Burkina Faso, as cortadoras começam a abandonar a prática. Mas o que fazer dessas mulheres, que tiveram confiscado seu ganha-pão? Um debate sobre a necessidade de o Estado lhes procurar um trabalho está aberto [4]. Félicité Bassolé, presidente do CNLPE, opõe-se a esta idéia, pois vê nela uma legitimação de sua atividade anterior e a oportunidade para que essas mulheres façam chantagem, se a proposta de trabalho feita a elas não lhes convier. “Não quero reconvertê-las porque reconvertê-las significaria reconhecê-las”, diz Bassolé. Resta ainda muito a se fazer. Por certo, o CNLPE não é uma organização perfeita. Mas, ainda que desprovido de recursos, às vezes sem poder real para atingir seu objetivo de frear o crescimento das excisões clandestinas, ele obtém resultados. Um estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS) constatou, em 2001, que a mutilação ainda era praticada em 14 das 45 províncias de Burkina; e que a diminuição acompanhava a a faixa etária: 75,4 % das mulheres de mais de 20 anos eram mutiladas, taxa que diminuía para 43,6 %, entre meninas entre 11 e 20 anos; e para 16,3 % para meninas entre 5 e 10 anos; entre as mulheres muçulmanas, 58,72 % tinham passado pela excisão. O nível de informação avançou muito. Cerca de 90 % da população sabe que a lei existe. Aqueles que a transgridem não podem ignorar, portando, aquilo que fazem. Nem os riscos que correm. Leia também, nesta edição, sobre o mesmo tema:
Posted on 08/17/2006 10:32 AM Comments (0)
August 14, 2006Existe Revista Pior que a Veja????Altamiro Borges: Veja estimula ódio e preconceitosA revista Veja
desta semana mais uma vez dá um exemplo de péssimo jornalismo, do tipo
que contribui para que certos preconceitos se fortaleçam ainda mais na
sociedade brasileira. Ao invés de informar, sua reportagem de capa opta
por manipular fatos. No texto abaixo, o jornalista Altamiro Borges
expõe esse desserviço e mostra como parte da classe média absorve as
informações publicadas no semanário.
![]() Veja: preconceito e manipulação de fatos Veja estimula ódio e preconceitos
* Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro “As encruzilhadas do sindicalismo” (Editora Anita Garibaldi).
Posted on 08/14/2006 12:04 PM Comments (0)
July 25, 2006Porque em ISRAEL os EUA nao intervem?
Israel usou "força desproporcional" na Faixa de Gaza, diz ONU
Reuters
Por Nidal al-Mughrabi GAZA (Reuters) - O bombardeio israelense da única usina de energia da Faixa de Gaza foi um caso típico de uso desproporcional de força e tem profundas consequências humanitárias, afirmou nesta terça-feira a principal autoridade para as operações de ajuda da Organização das Nações Unidas (ONU). "Trata-se de um caso claro de uso desproporcional (da força)", disse Jan Egeland, subsecretário-geral da ONU para os assuntos humanitários. Egeland visitava a usina de força destruída na cidade de Gaza. "A infra-estrutura civil deveria ser protegida. A lei é muito clara. Não se pode interpretá-la de outra forma", acrescentou. Israel bombardeou a instalação de 150 milhões de dólares no mês passado, ao lançar uma campanha militar depois da captura de um soldado israelense por militantes palestinos. O gerador de 140 megawatts, construído ao longo de cinco anos, fornecia cerca de dois terços da eletricidade consumida na Faixa de Gaza, onde moram cerca de 1,4 milhão de palestinos. Serão necessários ao menos dez meses para recolocá-lo em funcionamento. Desde a destruição da usina, grande parte da região está às escuras e muitos palestinos dependem agora da eletricidade importada de Israel. Apesar de algumas famílias e empresas possuírem geradores, há pouca oferta de combustível na Faixa de Gaza para alimentá-los. SUPRIMENTO DE ÁGUA Destruir a usina de força também gerou consequências para o fornecimento de água na região, já que as bombas de água dependem de eletricidade para funcionar. "Essa usina é mais importante para os hospitais, para as redes de esgoto e de água, para os civis do que para qualquer homem do Hamas ou da Jihad Islâmica com algum tipo de míssil em seu ombro", afirmou Egeland. "Ele não precisa tanto de eletricidade como uma mãe que tenta cuidar de uma criança". Simultaneamente, o diplomata norueguês afirmou que os foguetes disparados pelo Hamas e por outros grupos militantes contra Israel precisam parar e, com isso, as incursões militares do Estado judaico na Faixa de Gaza. As forças israelenses passaram a atacar a região depois da captura de um soldado. Desde o início de suas operação ali, Israel já matou cerca de 115 palestinos, a maioria deles civis. Muitos prédios da Faixa de Gaza também foram destruídos nos ataques com mísseis, entre os quais vários ministérios do governo palestino. Os combates abriram, pela primeira vez, o que se transformou em duas frentes para as forças israelenses, que também enfrentam militantes do Hizbollah no sul do Líbano desde a captura de outros dois soldados de Israel no dia 12 de julho. Segundo Egeland, os combates nas duas linhas de frente precisavam ser interrompidos imediatamente a fim de que a crise não se aprofunde. "A comunidade internacional precisa trabalhar com as partes envolvidas para romper o círculo vicioso de mágoa e violência", disse.
Posted on 07/25/2006 6:47 AM Comments (0)
July 5, 2006Alckmin, Lula e as formigas da GuianaAlckmin, Lula e as formigas da GuianaAndré Porto/Folha Imagem
Artigo de Elio Gaspari (na Folha, para assinantes):
“Na noite em que chegou a 45 o número de policiais e agentes penitenciários assassinados em São Paulo em menos de dois meses, o candidato do PSDB à Presidência da República, Geraldo Alckmin, disse que enfrentará a crise da segurança criando um conselho. Mais um. Logo Alckmin, legatário do mingau em que se transformou a segurança dos agentes da ordem pública no Estado que governou por cinco anos.
Para se ter uma idéia do que significam 45 mortos em 60 dias, em toda a década de 1920, quando o crime organizado parecia controlar Nova York, morreram 57 policiais. Número inédito, nunca igualado. (O "choque de gestão" de Alckmin arrisca derrubar essa marca antes de outubro.)
A fala pausada, numérica e oca do grão-tucano é apenas um dos aspectos da ruína. O outro é o triunfalismo de Luís 15, na versão Inácio: "Antes de mim, o dilúvio. Depois de mim, outro dilúvio". Alckmin não quer explicar por que sua política de gatilho rápido resultou em insegurança. Lula quer ficar a léguas de distância do tema. É preferível entender que o governador Cláudio Lembo tem razão: ou o andar de cima se mexe, ou o que vai mal haverá de piorar. Ou há segurança para todo mundo, ou não há para ninguém.
No mercado financeiro existe uma expressão banal para designar multidões que correm numa direção, sem saber direito o porquê. É o "efeito manada". Pensando bem, a manada pode ser sábia. Quem fugiu do dólar de R$ 1,20 da ekipekonômica tucana de bobo não tinha nada.
O que o andar de cima nacional faz em matéria de segurança parece mais com as formigas de Kartabo, na floresta da Guiana. De repente, uma delas perde o caminho e vai adiante. As outras, disciplinadas, vão atrás. Quando um naturalista observou esse fenômeno, elas percorriam um círculo com 365 metros de extensão. Levavam duas horas e meia para completá-lo, recomeçando-o ao longo de todo um dia. A maioria morria. A manada vai atropeladamente para não se sabe onde. As formigas da Guiana vão calmamente para onde estavam.
Outro dia o "Jornal Nacional" mostrou a família de um agente penitenciário abandonando uma casa pobre, de poucos móveis, porque a bandidagem deu-lhe um prazo, ao fim do qual iria matá-la. Causou a mesma perplexidade que a desclassificação da Arábia Saudita.
Não ocorre ao andar de cima mobilizar-se para mostrar aos bandidos que nunca mais uma família de um agente da ordem será desestruturada por falta de apoio. De quem? Das guildas patronais que gastam os tubos em pesquisas eleitorais, dos bancos que fazem obras sociais nos espaços nobres da publicidade, dos magnatas que andam com o papagaio do Estado mínimo no ombro. Enfim, de quem achar que não lhe fica bem ajeitar o meião quando Zidane centra para Henry.
O que falta em matéria de segurança é raça. Alguém que diga: a família do agente penitenciário que foi obrigada a deixar sua casa recebeu um apartamento e nele viverá o tempo que for necessário. Mais: as famílias de servidores públicos mortos pelos bandidos terão suas dívidas imobiliárias quitadas e seus filhos receberão bolsas de estudo até o último ano do curso superior. É complicado de fazer? Sem dúvida, por isso a formiga número 2 foi atrás da número 1.”
Posted on 07/05/2006 11:27 AM Comments (0)
Nada passa![]() ![]()
Separar nunca é fácil. E talvez tão difícil quanto, seja falar da dor, remexer a ferida. Clarah Averbuck abre o coração — partido, por ora — e divide conosco o indivisível
Eu tô bem. Eu tô bem, era assim mesmo que tinha que ser, era inevitável. Engraçado, porque no começo eu era inevitável. E agora o fim é que virou inevitável. Não, não é engraçado, não é nem um pouco engraçado, e eu tenho pesadelos todas as noites com a porteira de uma pizzaria seduzindo aquele que foi minha alma gêmea desde sempre e para sempre sei lá eu como, porque certamente não foi do jeito que eu fiz. É minha culpa? É minha culpa. É o destino, esse filho-da-puta. É minha culpa.
Posted on 07/05/2006 5:40 AM Comments (2)
June 27, 2006A incrivel historia do garoto que não podia ser tocado
A incrível história... do garoto que não podia ser tocadoJoão Scarpelini Paul Raj passou 21 anos sem ser abraçado por ninguém pela simples razão de ter nascido numa casta que, na Índia, representa a ESCÓRIA DA SOCIEDADE. Ele e sua família eram considerados impuros e ninguém ousava tocá-los
Paul Raj tinha 18 anos quando seu professor de sociologia entrou na sala de aula, desenhou uma pessoa na lousa e começou a explicar a estrutura de castas da sociedade na Índia - seu país de origem. A cabeça (Brahmim) representa os religiosos; os braços (Veishya) são os guerreiros e militares; os joelhos (Kshathriya) representam os nobres e os ricos; os pés (Shudra) são os fazendeiros e comerciantes. A poeira sob os pés não pertence às castas mas também tem um nome: são os párias, os chamados Intocáveis. Eles formam a escória da sociedade indiana. São considerados impuros e, por isso, ninguém ousa nem ao menos encostar neles. Foi só ao ouvir aquilo que Paul finalmente entendeu dezenas de episódios da sua vida. "Me lembro uma vez em que estava trabalhando na cozinha e vi uma barata caindo na panela do molho. Eu gritei e meu supervisor logo apareceu. Ele tirou a barata da panela com a mão, tampou e me mandou servir para as outras crianças sem contar nada sobre o ocorrido. Eu não disse nada porque todas as crianças que questionavam ou reclamavam eram expulsas do orfanato", conta Paul. Quando chegaram à casa de Paul, os amigos não entendiam porque a família se recusava a freqüentar lugares públicos ou a conversar com as pessoas que passavam na rua, mas Paul desconversava quando eles perguntavam alguma coisa. Ele ainda não tinha certeza de que os amigos iriam aceitar a situação. "Só que, durante o jantar, minha mãe, que estava muito feliz com a presença deles, agradeceu a todos por serem meus amigos mesmo nossa família sendo de intocáveis. Na hora, senti que meu mundo estava desmoronando." "Uma vez, meu colega brahmim, o mesmo que havia ido embora da minha casa quando descobriu minha origem, organizou uma festa e convidou todos os 67 alunos da sala, menos a mim. Todos estavam empolgados com a festa, mas quando Shilpa soube que eu não havia sido convidado, foi perguntar a ele por que, na frente de todos. Ele disse que não me convidou porque eu era um intocável e ela disse que, sendo assim, também não iria. Para minha surpresa, várias outras pessoas também decidiram, naquele momento, que não iriam à festa". E essa não foi a única vez que Shilpa se sacrificou por Paul. "Lembro como fiquei impressionado com o banheiro. Era como uma casa para mim: você pode guardar coisas dentro e ainda tem água à vontade", diz já mais acostumado ao ambiente e aos banhos - ele demorou uma semana para ter coragem de entrar debaixo do chuveiro. "No primeiro banho, não sabia nem como ligar o chuveiro. Depois, me senti tomando banho em uma cachoeira, mal podia acreditar que aquilo estava acontecendo dentro de uma casa."
Posted on 06/27/2006 3:33 AM Comments (0)
June 6, 2006A esquerda e a CulturaA esquerda e a culturaAmigo e colaborador do ’Le Monde Diplomatique’, Manuel Vázquez Montalbán, grande escritor e militante que lutou permanentemente contra as injustiças e desigualdades sociais, morreu no dia 18 de outubro do ano passado. Em homenagem a seu talento e seu compromisso político, publicamos este texto inédito, parte de uma Conferência realizada em Alicante, em 2001Enquanto patrimônio, a cultura é um longo rio cujas águas envolvem uma determinada geração de seres humanos, e lhes transmite valores morais e estéticos, ideologias, história, códigos e símbolos...Enfim, um rico patrimônio elaborado por seus ancestrais que as novas gerações recebem quando existe um ponto de passagem e encontro possível entre este tesouro e o receptor dessa enorme oferenda. Os revolucionários sempre questionaram o passado e estabeleceram uma certa distância em relação a este patrimônio, considerando-o como produto das antigas classes dominantes, derrotadas na luta pelo poder e que até ali detinham o controle da história. Assim agiram na revolução francesa e na revolução de outubro: colocaram em quarentena a cultura herdada acusando-a de ser feudal, de pertencer à classe derrotada. Na revolução soviética, sem dúvida a mais radical de todos os tempos, acontece a famosa polêmica entre “cultura proletária” e “cultura de classe”. Alguns teóricos da revolução sustentam a tese da política de fazer tabula rasa e erradicar a herança de seus ancestrais e substituí-la pela cultura da nova classe proletária. A “cultura humana”Os revolucionários sempre questionaram o passado e estabeleceram uma certa distância em relação ao patrimônio cultural, considerando-o como produto das antigas classes dominantesLeon Trotsky, com uma vontade indomável de salvar o patrimônio cultural coloca-se pessoalmente contra essa posição. E afirma que a cultura, exatamente por causa da mudança política, deixava de ser uma «cultura burguesa » para se tornar uma « cultura humana ». Portanto, a revolução deveria agir de maneira que seus valores fossem assimilados pelo conjunto do povo para iniciar uma nova era histórica. Eis o início da solução de um problema. O caráter reacionário do patrimônio cultural não está no patrimônio, mas na maneira como ele é usado pelas forças reacionárias e a impossibilidade dele ser assumido pela maioria da sociedade. Entretanto, é possível mudar isso ao utilizar simples medidas como criar bibliotecas para a expansão do hábito da leitura; um sério programa de vulgarização das artes que favoreça sua pratica e sua difusão; uma política que derrube as barreiras da concepção de cultura como mercadoria que impede um determinado setor social de usufruí-la. Em seguida, temos a cultura como consciência, sua forma mais onipresente. A partir do instante em que estejam conscientes de sua situação e de suas relações com seus congêneres e com a natureza, todos os seres humanos têm uma cultura. Desta constatação emana uma série de concepções culturais. Tudo aquilo que é consciência do ser, da existência, das relações com o mundo e com o outro. É por isso que ousar fazer uma distinção entre aqueles que têm e aqueles que não têm cultura é dar prova de uma arbitrariedade e de um analfabetismo intoleráveis. Cultura: modos de usarToda política cultural da esquerda deveria passar pela assimilação, sem limite, da cultura patrimonial. Em seguida, pela promoção do papel transformador da consciência criticaToda pessoa capaz de ter consciência daquilo que ela é e do que ela faz e, sobretudo, do papel que tem nas relações com o outro, possui uma cultura. Ninguém pode ser excluído do reinado da cultura. Diante destas duas concepções – cultura como patrimônio, cultura como consciência – está o tradicional exercício de duas políticas, duas tentativas de manipulação política. Por um lado, a política cultural da reação consiste em açambarcar a cultura-patrimônio e a cultura-consciência, incorporá-las a um conjunto de verdades estabelecidas e fazer do acesso à cultura uma maneira de se integrar, de estabelecer um processo de comunhão com a ordem estabelecida. Esta política, na melhor da hipóteses, fez da cultura um meio de integração, mas também propicia a sua mutilação, permite o seu controle ditatorial, quando não a sua destruição, a sua falsificação ou a sua mistificação, sobretudo em períodos fascistas. Em geral, as forças progressistas partem de uma tomada de consciência e, portanto de uma posição critica que questiona a ordem estabelecida e tem como propósito modificá-la. Isto se aplica à cultura como consciência. Por outro lado, no que se refere à cultura-patrimônio a esquerda tem evitado dela se assenhorear para tentar enquadrá-la por suas próprias motivações. Assimilação e críticaA cada época corresponde uma tradição cultural que se choca com a consciência crítica do momento; e deste choque emana a possibilidade de uma continuidadeToda política cultural da esquerda deveria primeiramente passar pela assimilação, sem limite, da cultura patrimonial. Em seguida, pela promoção do papel transformador da consciência critica. E finalmente, pela analise da maneira pela qual uma política cultural progressista deve considerar a promoção de uma consciência de classe como uma forma superior de cultura. Ter consciência que uma política cultural deve considerar o grau de desenvolvimento da dinâmica histórica dentro de uma concepção global de progresso, obriga a esquerda fazer um esforço gigantesco: o questionamento do conceito de progresso. Cornelius Castoriadis afirmava que nossa época deveria escolher entre «socialismo ou barbárie ». Ao impor essa escolha, coloca em relação duas culturas diferentes, duas concepções opostas da relação histórica que engloba os sistemas de organização da vida, de produção, das relações humanas. Um baseado no lucro, no sucesso das conquistas materiais para as minorias dirigentes e os setores dominantes. O outro baseado no socialismo, estabelecido como racionalização diante dessa barbárie, e criando novas relações humanas, uma nova cultura, a possibilidade de uma nova autonomia do homem na realidade. O socialismo se apresenta como uma verdadeira encruzilhada para onde convergem todos os parâmetros que dão sentido à circulação da cultura. A essência da culturaA reivindicação da paz é revolucionária porque é a favor da mudança. A paz aposta nas energias criativas do homem, na sua liberdade de expressão, de realização, de transformaçãoT.S. Elliot, excelente poeta de direita, descreveu o que significa cada situação cultural. Para o homem contemporâneo, compreender que o fato cultural se perpetua, que continua a partir de uma troca dialética entre a tradição e a revolução, é a própria essência da cultura. A cada época corresponde uma tradição cultural que se choca com a consciência crítica do momento; e deste choque entre o patrimônio cultural que herdamos e a consciência crítica emana a possibilidade de uma continuidade. Elliot identificou este mecanismo na compreensão da cultura e nós devemos agradecê-lo por isso. Defendendo uma cultura relacionada ao progresso, as forças progressistas, em geral, assumem a tradição e, em conseqüência, o patrimônio cultural; e ao se colocarem a favor da revolução, estabelecem uma consciência critica em relação a esse patrimônio cultural. Mas para chegar até isso, devem oferecer ao mundo uma visão baseada em uma idéia fundamental, próxima da escolha « socialismo ou barbárie »: a necessidade de sobreviver às tendências destrutivas. Uma vez ganha a luta pela sobrevivência- primeiro objetivo- uma cultura da igualdade, que não buscará uniformizar, mas assegurar a satisfação das necessidades, entre elas as culturais, de todos os seres humanos, será o segundo objetivo. Luta contra a alienaçãoO terceiro objetivo será uma cultura de liberação, de luta contra a alienação, não no sentido marxista (segundo a qual o homem desprovido dos meios de produção, não possui aquilo que ele fabrica, fica afastado do produto que criou), mas no sentido mais amplo do termo: a liberação das tendências aos cultos negativos, às comunhões obscurantistas que anulam toda a capacidade crítica. A desalienação no sentido da liberdade de condutas coletivas como também individuais no campo da política, moral ou sexual. O quarto objetivo é a reivindicação da paz como valor cultural supremo. É indispensável denunciar a guerra como valor ideológico contra-revolucionário. A ameaça de guerra busca estabelecer uma cultura de medo, que paralisa as consciências, fazendo-as mais conservadoras. A reivindicação da paz, ao contrário, é revolucionária porque é a favor da mudança. A paz aposta nas energias criativas do homem, na sua liberdade de expressão, de realização, de transformação. As forças do progresso são majoritárias e quando forem conscientes, os partidários de uma ordem arcaica ficarão isolados. A esquerda deve lutar em duas frentes. Defender sua própria consciência e lutar contra esse medo que procuram nos transmitir como valor cultural supremo. Para que os patrimônios culturais permaneçam à disposição da imensa maioria...(Trad.: Celeste Marcondes)
Posted on 06/06/2006 5:53 PM Comments (2)
Ocupação no Iraque![]() Aconteceu em HadithaComo foi cometido (e acobertado...) o massacre que pode mudar o destino da guerra no Iraque. O que ele revela sobre a ocupação, os EUA, a democracia e o controle do imaginárioNem a história da guerra do Iraque, nem a imagem que o mundo tem dos EUA (e eles, de si próprios) serão as mesmas, depois de Haditha. Na manhã de 19 de novembro de 2005, praticou-se um massacre, nesta pequena cidade cercada de palmeiras e debruçada às margens do Rio Eufrates. Depois de sofrerem uma baixa [1], causada por explosão de uma bomba, os soldados da Companhia Kilo, do US Marine Corps [2] decidiram vingar-se contra a população civil. Vinte e quatro pessoas foram assassinadas a sangue-frio. Nenhuma delas esboçou qualquer gesto que pudesse representar ameaça aos marines. Entre as vítimas estão sete mulheres, três crianças, um bebê de um ano e um ancião cego e aleijado, em sua cadeira de rodas. A vingança prolongou-se por cinco horas, o que exclui a hipótese (igualmente brutal) de um acesso de cólera, provocado pela morte do colega de armas. Ao invés de punirem a selvageria, os oficiais que comandavam os soldados a acobertaram. Dois relatórios militares criaram versões fantasiosas para os fatos. O primeiro, de autoria dos próprios autores do massacre, atribui as 24 mortes à explosão que matou o soldado (supostas 16 vítimas) e a fictícia “troca de tiros” com “insurgentes” (outras 8). O segundo é mais grave e perturbador. Foi produzido em fevereiro, após surgirem sinais de que os fatos haviam vazado. Um coronel de infantaria deslocou-se a Haditha e fez, durante uma semana, dezenas de entrevistas – inclusive com testemunhas oculares dos crimes. Embora desconstrua a primeira mentira, seu relatório esconde o essencial – os assassinatos. Trata as mortes como... “danos colaterais” da guerra. Ao invés de esclarecer, o documento lança uma terrível pergunta: quantos episódios semelhantes terão sido abafados, no Iraque, ao serem classificados com tal rótulo, cada vez mais freqüente no jargão das guerras “modernas”? Quando o acobertamento é vazado Duas tendências também contemporâneas – a câmera digital barata e as redes de ONGs – permitiram que, em Haditha, a história fosse diferente. Um dia depois da chacina, o estudante de jornalismo Taher Thabet filmou alguns dos corpos e as quatro casas onde foram mortas 19 das vítimas. Thabet mostrou paredes internas, tetos e pisos estourados por rombos de balas e salpicados por jatos de sangue. Teve o cuidado de filmar, também, as fachadas – intactas – das construções. Demonstrou que não houvera combate: os soldados entraram sem resistência e atiraram. As circunstâncias em que as vítimas foram mortas são tenebrosas. [3] . O estudante de jornalismo enviou o vídeo ao Grupo Hamurabi de Direitos Humanos, que tem sede no Iraque e se articula com o Human Righs Watch, dos EUA. O documento chegou à revista Time. Os repórteres Tim McGirk e Aparisim Ghosh foram ao local dos fatos e investigaram durante oito semanas. Em 27 de março, a revista publicou One morning in Haditha, um texto que, embora em tom ainda inconclusivo, revela todos os fatos essenciais do massacre. Tem início então uma sucessão de fatos contraditória e complexa, muito reveladora sobre a natureza do sistema político e o controle do imaginário, nos Estados Unidos. As instituições da política se movem. O departamento de Defesa abre dois novos inquéritos. O Congresso instala comissões que as acompanham. Os militares exasperam-se tentando responder aos questionamentos feitos por estas. A própria publicação da reportagem revela, aliás, que a liberdade de expressão ainda encontra brechas, no mundo das comunicações oligopolizadas. Mas este jogo democrático não abala o controle que os grupos hegemônicos exercem sobre os símbolos que movem a sociedade. Não há uma comoção nacional comparável, por exemplo, à que se produz no Brasil, com o massacre de Eldorado de Carajás – para não falar nos shows midiáticos em que se transformam as CPIs. Durante nove semanas, tudo se desenrola a frio, em gabinetes. Os fatos não chegam às TVs, não repercutem em outras publicações, não são retomados sequer por Time. Na internet, chama atenção a ausência do filme de Thabet. O momento em que a tensão se rompeNum caso chocante como este, em algum momento a tensão entre democracia e controle sobre o imaginário terá de se resolver. O momento de desenlace foi aberto no final de maio. Aparentemente, a Casa Branca e as correntes que apóiam a guerra prepararam-se para reduzir ao máximo seus possíveis efeitos. Devido à gravidade dos fatos, não é, contudo, algo cujo desfecho esteja definido. A sorte começou a ser jogada no final de maio e ainda não está definida em 6 de junho, momento em que este texto foi revisado. Em 26/5, o New York Times revelou que um dos novos inquéritos abertos pelo Pentágono após a reportagem de Time estava próximo ao fim. O coronel Gregory Watt, seu condutor, havia apurado que muitos dos mortos em Haditha morreram com tiros na cabeça e no peito, típicos de chacina. Também havia apontado o sargento Frank Wuterich como um dos protagonistas dos crimes. Em 31/5 – exatos 64 dias depois de os fatos se tornarem públicos... – o presidente George Bush foi inquirido pela primeira vez sobre o tema, numa entrevista coletiva. “Se as leis foram violadas, haverá punição”, limitou-se a responder. Em 1/6, numa medida típica de relações públicas (mas que teve enorme repercussão, em todo o mundo), o general George Casey, comandante-geral das tropas dos EUA no Iraque, anunciou (sem oferecer qualquer dado complementar) que os soldados norte-americanos seriam agora submetidos a “treinamento” sobre “valores essenciais". Três anos depois de mergulhados numa guerra sangrenta, eles teriam finalmente a oportunidade de “refletir sobre os valores que nos separam de nossos inimigos”... A operação não foi suficiente para neutralizar o potencial explosivo dos fatos. Ao contrário: em 2/6, surgiram duas novas denúncias. Um outro massacre teria ocorrido, em Ishaqui (80 quilômetros a norte de Bagdá), em março – e, neste caso, parece haver imagens. Num terceiro episódio, sete marines e um oficial estariam sendo acusados de assassinato, seqüestro e conspiração, cometidos em abril. “Parece que o assassinato de civis iraquianos está se transformando num fenômeno diário", afirmou o presidente da Associação de Direitos Humanos do Iraque, Muayed al-Anbaki, após assistir ao novo vídeo. Dois dias mais tarde, um texto do Washington Post sustentava que Bush sabia dos fatos desde o início de março; e sugeria que uma das questões cruciais era investigar até onde tinha se estendido a rede de autoridades envolvidas no acobertamento do massacre, antes da publicação da reportagem do Time. Dois pontos muito vulneráveisNo caso Haditha, além deste, há dois pontos vulneráveis ao extremo. O primeiro são duas séries de fotos feitas após os assassinatos. Com exceção de algumas (uma é a que ilustra esta matéria), as imagens permanecem sob censura, acessíveis apenas às comissões de inquérito do Pentágono. A primeira série retrata os corpos dos iraquianos já ensacados. A segunda teria sido feita pelos próprios soldados, momentos após cometerem a chacina. Mostraria, por exemplo, um pai de família atingido enquanto rezava, diante do Corão. O segundo ponto vulnerável é a punição – e, pior, o julgamento – dos assassinos. Eles foram identificados, a crer no New York Times. Segundo as leis norte-americanas, pode-se aplicar, no caso de assassinato cometido em tempo de guerra, a própria pena de morte. Qual seria a repercussão midiática (e política) de um júri militar, no qual cidadãos norte-americanos podem ser executados por atos cometidos em uma guerra que o Estado quer levar adiante, mas a maioria já rejeita? E no exterior: como prosseguir com o julgamento de Saddam Hussein, que pode ser condenado à morte precisamente porque seus soldados teriam promovido a execução de civis inocentes? O que estamos fazendo no Iraque? Após 27 meses de ocupação americana e da escalada de violência e mortes que acarreta por todos os lados, a guerra inventada por Bush segue vitimando também os norte-americanos, sua juventude, suas liberdades e seu modo de viverO Iraque não é um país libertado, e sim um país ocupado. Isto é uma evidência. O termo "país ocupado" tornou-se familiar a nós durante a Segunda Guerra Mundial. Falávamos então de "França ocupada pelos alemães, de Europa sob ocupação alemã". Depois da guerra, falamos da Hungria, da Checoslováquia e do Leste Europeu ocupados pelos soviéticos. Os Nazistas e os Soviéticos ocuparam muitos países. Nós os libertamos dessas ocupações. Agora, os ocupantes somos nós. Certamente libertamos o Iraque de Saddam Hussein, mas não de nós. Do mesmo modo como libertamos Cuba, em 1898, do jugo espanhol, mas não do nosso. A tirania espanhola foi vencida, mas os Estados Unidos transformaram a ilha em base militar, como o que estamos fazendo no Iraque. As grandes companhias americanas implantaram-se em Cuba, como a Bechtel, a Halliburton e as empresas petrolíferas se instalam no Iraque. Os Estados Unidos redigiram e impuseram, com cúmplices locais, a Constituição que deveria reger Cuba, exatamente como nosso governo elaborou, com a ajuda de grupos políticos locais, uma Constituição para o Iraque. Não, isso não tem nada de libertação. É ocupação mesmo. E é uma ocupação suja. Já em 7 de agosto de 2003, o New York Times relatava que o general americano Ricardo Sanchez, em Bagdá, "preocupava-se" com a reação iraquiana diante da ocupação. Os dirigentes iraquianos pró-americanos apresentaram-lhe uma mensagem que ele nos retransmitiu: "Quando vocês prendem um pai na presença de sua família, cobrem-lhe a cabeça com um saco e fazea-no ajoelhar-se, vocês atingem pesadamente, aos olhos de sua família, sua dignidade e respeito." (nota particularmente perspicaz). Humilhação e violênciaAgora, os ocupantes somos nós. Certamente libertamos o Iraque de Saddam Hussein, mas não de nós. Do mesmo modo como libertamos Cuba, em 1898, do jugo espanhol, mas não do nossoA rede CBS News relatava já em 19 de julho de 2003, bem antes da descoberta dos casos confirmados de torturas na prisão de Abu Graib em Bagdá: "A Anistia Internacional está examinando um certo número de casos de presumidas torturas cometidas no Iraque pelas autoridades americanas. Dos quais um é o caso Khaisan Al-Aballi. A casa de Al-Aballi foi arrasada por soldados americanos que apareceram atirando por todos os lados; prenderem Al-Aballi e também seu velho pai, de 80 anos. Eles acertaram e feriram seu irmão... os três homens foram levados... Al-Aballi diz ter declarado a seus sequestradores: "Nao sei o que vocês querem. Não tenho nada." "Eu pedi a eles que me matassem", conta Al-Aballi. "Oito dias depois, eles o deixaram ir, acompanhado de seu pai... Os oficiais americanos não responderam aos inúmeros pedidos que lhes foram feitos para discutir esse assunto..." Sabe-se que três quartos da cidade de Falluja (360 000 habitantes) foram destruídos e que centenas de seus habitantes foram mortos durante a ofensiva americana de novembro de 2004 deflagrada sob o pretexto de limpar a cidade dos bandos terroristas que teriam agido dentro de uma "conspiração baathista”. Mas esquecemos que em 16 de junho de 2003, nem um mês e meio depois da "vitória" no Iraque e da "missão cumprida" proclamada pelo presidente Bush, dois repórteres da rede Knight-Rider tinham escrito sobre a zona de Falluja: "Ao longo dos cinco últimos dias, a maior parte dos habitantes desta região afirmaram que não havia conspiração alguma, baathista ou sunita, contra o exército americano mas homens prontos para lutar porque seus parentes tinham sido feridos ou mortos ou eles mesmos tinham sofrido humilhações durante revistas ou barreiras de rua... Uma mulher declarou, depois da prisão de seu marido por causa de caixotes de madeira vazios que eles tinham comprado para (fazer fogo) para se aquecer, que os Estados Unidos eram culpados de terrorismo." Esses mesmos repórteres afirmavam: "Residentes de Agilia – uma aldeia ao norte de Bagdá – alegaram que dois camponeses de lá e mais cinco de uma aldeia vizinha foram mortos por tiros americanos quando estavam tranquilamente regando suas plantações de girassóis, tomates e pepinos". Soldados nervosos e amedrontadosO mais monstruoso dessas mentiras é que qualquer ato cometido pelos Estados Unidos deve ser perdoado porque estamos envolvidos numa "guerra contra o terrorismo"Os soldados enviados a este país – a quem haviam dito que as pessoas os acolheriam como libertadores – e que se vêem cercados por uma população hostil, tornaram-se medrosos, estão deprimidos e puxam o gatilho facilmente, como se viu na libertação, em Bagdá, da jornalista italiana Giuliana Sgrena, em março de 2005, quando o oficial italiano dos serviços de informação Nicola Calipari foi abatido na barreira por soldados americanos nervosos e amedrontados. Lemos os relatos de GIs furiosos por serem mantidos no Iraque. Um repórter da rede ABC News no Iraque declarou recentemente que um sargento o tinha chamado em particular para dizer-lhe: "Eu tenho minha própria lista dos mais procurados" (Most wanted list). Ele aludia ao famoso baralho publicado pelo governo americano, representando Saddam Hussein, seus filhos e outros membros do regime baathista iraquiano: "Os ases do meu baralho – dizia ele – são George Bush, Dick Cheney, Donald Rumsfeld e Paul Wolfowitz". Tais sentimentos, assim como os de muitos desertores que se recusam a voltar ao inferno do Iraque depois de uma licença em casa, são agora conhecidos do público americano. Em maio de 2003, uma pesquisa de opinião anunciava que só 13% dos americanos pensava que a guerra estava indo por um caminho ruim. Em dois anos, as coisas mudaram radicalmente. Segundo uma pesquisa publicada sexta-feira, 17 de junho de 2005 pelo New York Times e a rede CBS News, 51% dos americanos acham agora que os Estados Unidos não deviam ter invadido o Iraque e não deviam ter começado esta guerra. Agora 59¨% desaprovam a gestão do presídente Bush da situação no Iraque. E me parece interessante notar que as pesquisas realizadas entre a população afro-americana revelaram constantemente uma oposição de 60% à guerra no Iraque. A ocupação dos EUAEsperemos para ver os efeitos do urânio empobrecido sobre nossas moças e jovens enviados ao IraqueMas existe uma ocupação de pior augúrio ainda que a do Iraque, é a ocupação dos Estados Unidos. Eu me levantei hoje de manhã, li o jornal e tive a sensação de que estávamos mesmo em um país ocupado, que uma potência estrangeira nos tinha invadido. Esses trabalhadores mexicanos que tentam atravessar a fronteira – arriscando a vida para escapar dos funcionários da imigração (na esperança de alcançar uma terra que, cúmulo da ironia, pertencia a eles antes dos Estados Unidos dela se apoderarem em 1848) – esses trabalhadores não são estrangeiros aos meus olhos. Esses 20 milhões de pessoas que vivem nos Estados Unidos, que não têm o estatuto de cidadãos e que em consequência e em virtude do Patriot Act (a lei Patriota), são suscetíveis de serem jogados fora de suas casas e detidos indefinidamente pelo FBI, sem direito constitucional algum – essas pessoas, para mim, não são estrangeiras.. Ao contrário, o grupúsculo de indivíduos que tomou o poder em Washington (George W. Bush, Richard Cheney, Donald Rumsfeld e o resto da camarilha), esses sim, são estrangeiros. Eu acordei dizendo a mim mesmo que este país estava nas garras de um presidente que foi eleito uma primeira vez, em novembro de 2000, em circunstâncias que se conhece, graças a todo tipo de trapaça na Flórida e por uma decisão do Supremo Tribunal. Um presidente que continua, depois de sua segunda eleição em novembro de 2004, cercado de "falcões" de terno que não se preocupam com a vida humana nem aqui nem em lugar nenhum, cuja menor preocupação é a liberdade, aqui ou em outro lugar e que se lixam para o que será da Terra, da água, do ar e do mundo que deixaremos a nossos filhos ou netos. Muitos americanos se põem a pensar, como os soldados do Iraque, que alguma coisa está errada, que este país não se parece com a imagem que fazemos dele. Cada dia traz sua dose de mentiras à praça pública. O mais monstruoso dessas mentiras é que qualquer ato cometido pelos Estados Unidos deve ser perdoado porque estamos envolvidos numa "guerra contra o terrorismo". Passando por cima do fato de que a própria guerra é terrorismo; que chegar na casa das pessoas, levar os membros de uma família e submetê-los à tortura é terrorismo, que invadir e bombardear outros países não nos traz mais segurança, muito pelo contrário. O sofisma de RumsfeldA pretensa "guerra contra o terrorismo" não é somente uma guerra contra um povo inocente em um país estrangeiro, mas uma guerra contra o povo dos Estados UnidosTem-se uma pequena idéia do que o governo entende por "guerra contra o terrorrismo" quando lembramos da célebre declaração feita pelo secretário americano da defesa, Donald Rumsfeld (um dos "mais procurados " da lista do sargento), quando ele se dirigiu aos ministros da OTAN, em Bruxelas, na véspera da invasão do Iraque. Ele explicou então as ameaças que pesavam sobre o Ocidente (imaginem – ainda falamos do "Ocidente" como uma entidade sagrada, enquanto que os Estados Unidos, que fracassaram em arrebanhar para seu projeto de invasão do Iraque vários países da Europa (entre os quais a França e a Alemanha), tentava cortejar a qualquer preço os países do Leste persuadindo-os de que nosso único objetivo era libertar os iraquianos como os havíamos libertado, a eles, do domínio soviético). Rumsfeld, então, explicando quais eram essas ameaças e porque eram "invisíveis e não identificáveis", pronunciou seu sofisma imortal: "Há coisas que conhecemos. E há outras que sabemos não conhecer. Quer dizer que há coisas que sabemos que, no momento, não conhecemos. Mas há também coisas desconhecidas que não conhecemos. Há coisas que não sabemos que não conhecemos. Em resumo, a ausência de provas não é a prova de uma ausência... Não ter a prova de que alguma coisa existe não quer dizer que temos a prova de que ela não existe." Felizmente Rumsfeld está aí para nos esclarecer. Isto explica porque a administração Bush, incapaz de capturar os autores do atentado de 11 de setembro continuou seu ataque, invadiu e bombardeou o Afeganistão já em dezembro de 2001, matando milhares de civis e provocando a fuga de centenas de milhares de outros, e não sabe até hoje onde se esconderam os criminosos. Isto explica também porque o governo, sem saber de fato que tipo de armas Saddam Hussein escondia, decidiu bombardear e invadir o Iraque em maio de 2003 contra a ONU, matando milhares de civis e de soldados e aterrorizando a população. Isso explica porque o governo, sem saber quem é ou não é terrorrista, decidiu prender centenas de pessoas no cárcere de Guantânamo em condições tais que dezoito deles tentaram suicidar-se. Tortura "edulcorada"O poderio de um governo – seja quais forem as armas que possuir, ou o dinheiro de que dispõe – é frágil. Quando perde sua legitimidade aos olhos do seu povo, seus dias estão contadosEm seu relatório de 2005 sobre as violações dos direitos humanos no mundo, tornado público em 25 de maio de 2005, a Anistia Internacional não hesitou em afirmar que "o centro de detenção de Guantanamo tornou-se o Gulag de nossa época". A secretária geral da organização, Irene Khan acrescentou: "Quando o país mais poderoso do planeta esmaga sob os pés a primazia da lei e dos direitos humanos, está autorizando os outros a infringir as regras sem escrúpulos, convencidos de ficarem impunes". Irene Khan denunciou também as tentativas dos Estados Unidos de banalizar a tortura. Os americanos, sublinhou ela, tentam tirar o caráter absoluto da proibição à tortura "redefinindo-a" e "edulcorando-a". Ora, lembrou ela, "a tortura ganha terreno desde que sua condenação oficial deixa de ser absoluta". Apesar da indignação suscitada pelas torturas cometidas na prisão de Abu Graib (Iraque), deplorou a Anistia, nem o governo nem o Congresso dos Estados Unidos pediram a abertura de uma investigação aprofundada e independente. A pretensa "guerra contra o terrorismo" não é somente uma guerra contra um povo inocente em um país estrangeiro, mas uma guerra contra o povo dos Estados Unidos. Uma guerra contra nossas liberdades, uma guerra contra o nosso modo de viver. A riqueza do país é roubada do povo para ser distribuída com os super-ricos. Roubam também a vida dos nossos jovens. Não há dúvida alguma de que essa guerra que já dura dois anos e três meses fará ainda muitas vítimas não somente no estrangeiro, mas no próprio território dos Estados Unidos. A administração diz a quem quiser ouvir que a gente se safará bem dessa guerra porque ao contrário do Vietnã, há poucas vítimas1. É verdade, "apenas" algumas centenas de mortos em combate. Mas quando a guerra terminar, então as vítimas das consequências dessa guerra – doenças, traumatismos – não cessarão de aumentar. Vítimas da mentira de EstadoA história das mudanças sociais é feita de milhões de ações, pequenas ou grandes, que se acumulam em um certo momento da históriaDepois da guerra no Vietnã, veteranos assinalaram malformações congênitas em suas famílias, causadas pelo agente laranja, um potente herbicida muito tóxico, pulverizado sobre as populações vietnamitas Durante a primeira guerra do Golfo em 1991, contaram-se apenas algumas centenas de perdas, mas a Associação dos Veteranos recentemente denunciou a morte de 8 000 deles ao longo destes dez últimos anos. Duzentos mil veteranos, dos seiscentos mil que participaram da primeira guerra do Golfo, queixam-se de mal-estares, de patologias devidas às armas e munições utilizadas durante essa guerra. Esperemos para ver os efeitos do urânio empobrecido sobre nossas moças e jovens enviados ao Iraque. Qual é nosso dever? Denunciar tudo isso. Estamos convencidos de que os soldados enviados ao Iraque só suportam o terror e a violência porque mentiram para eles. E quando souberem a verdade – como aconteceu durante a guerra do Vietnã – eles se voltarão contra seu governo. O resto do mundo nos apóia. A administração dos Estados Unidos não pode ignorar indefinidamente os dez milhões de pessoas que protestaram no mundo inteiro em 15 de fevereiro de 2003 e cujo número aumenta a cada dia. O poderio de um governo – seja quais forem as armas que possuir, ou o dinheiro de que dispõe – é frágil. Quando perde sua legitimidade aos olhos do seu povo, seus dias estão contados. Devemos engajar-nos em todas as ações tendo por fim parar com esta guerra. Nunca será demais. A história das mudanças sociais é feita de milhões de ações, pequenas ou grandes, que se acumulam em um certo momento da história. Até constituir um poder que nenhum governo pode reprimir. (Trad. : Betty Almeida)
Posted on 06/06/2006 5:50 PM Comments (0)
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